A aliança das ditaduras: O plano para abafar o voto – Por Paula Sousa
A América Latina testemunha um esforço coordenado do Foro de São Paulo para não desaparecer. Diante do avanço global da direita, regimes alinhados à esquerda demonstram desespero e articulam estratégias para subverter a ordem democrática. O elo entre a retórica do Itamaraty no Brasil e a crise institucional na Colômbia revela um roteiro para justificar a contestação das eleições presidenciais brasileiras de 2026. E o motivo de tanto pânico tem nome: o fantasma do cerco internacional ao crime organizado.
O espelho colombiano: O roteiro da resistência
Na Colômbia, o presidente Gustavo Petro desencadeou uma crise ao não reconhecer o resultado eleitoral. O candidato Abelardo de La Espriella venceu o pleito com uma vantagem apertada de quase 1% dos votos, obtendo 49,66% do eleitorado, enquanto Iván Cepeda recebeu 48,70%. Embora o próprio Cepeda tenha admitido o resultado, Petro recorreu ao velho manual do choro político e declarou publicamente: “Abelardo não ganhou as eleições. Claro que minhas declarações são graves, mas não são irresponsáveis, estão completamente comprovadas”.
Para sustentar a narrativa de fraude, o mandatário colombiano culpou as forças externas de sempre, alegando que a vitória foi construída com “algoritmos da Califórnia e algoritmos que foram feitos por companhias de inteligência privada de Israel”. Sob o pretexto de que o novo governo seria ilegítimo, a administração de Petro passou a travar a máquina pública, orientando funcionários de escalões estratégicos a resistir à substituição e convocando levantes populares. Uma desobediência civil gourmet, por assim dizer.
Essa postura obrigou La Espriella a agir. O presidente eleito ordenou a sua equipe suspender o processo de transição com o governo Petro, declarando: “É meu dever proteger os interesses da nação e garantir uma transição séria, transparente no serviço dos colombianos. Nunca legitimar um desastre, nem o desconhecimento de uma ordem constitucional”. A estratégia de Petro serve como perfeito laboratório para o cenário brasileiro.
O ofício do Itamaraty e a construção do pretexto
No Brasil, o Ministério das Relações Exteriores, sob a liderança do chanceler Mauro Vieira, prepara o terreno retórico para um malabarismo semelhante. Em resposta a um requerimento de informações do deputado federal Evair Vieira de Melo (Republicanos-ES), o Itamaraty emitiu um documento oficial que jornais como a CNN Política repercutiram com a manchete bombástica: “Em ofício, o Itamarati admite ação militar dos Estados Unidos no Brasil”.
No documento, o chanceler avalia os impactos de uma eventual classificação unilateral do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas por parte de Washington. O texto oficial do Ministério das Relações Exteriores aponta:
“Avalia-se que a medida pode ter impactos relevantes tanto do plano econômico quanto da soberania nacional. Entende-se que a designação como terroristas não trará benefícios concretos para a coordenação internacional entre Estados Unidos e Brasil no enfrentamento ao crime organizado.”
O órgão adverte ainda que tal aplicação ocorreria com "amplo grau de discricionariedade", gerando "sérias possibilidades de implicações para cidadãos brasileiros nos planos financeiro, migratório e penal", além de evocar expressamente o "risco do uso de força militar dos Estados Unidos contra o território nacional". O deputado Evair de Melo criticou o posicionamento, apontando lacunas na manifestação governamental, conforme registrado pelo Poder 360: “Resposta do Itamaraty sobre PCC e CV tem lacunas, diz deputado”.
A insistência do governo federal em agitar o espectro de uma invasão armada com caças invisíveis e fuzileiros navais é pura cortina de fumaça. Esquece, os modelos históricos de cooperação internacional, como os observados no México e no Equador, onde as operações contra o narcotráfico ocorrem em estrita parceria e consentimento com as forças de segurança locais.
O trauma de Caracas e o apavoramento do PT
O verdadeiro motivo do pânico em Brasília não é o medo de tanques americanos desfilando na Esplanada, mas sim o precedente histórico estabelecido por Donald Trump na Venezuela. O governo americano realizou uma operação cirúrgica militar e JURÍDICA que resultou na prisão de Nicolás Maduro. A justificativa de Washington foi direta e demolidora: o regime venezuelano havia sido completamente capturado pelo narcotráfico, operando como o topo do infame Cartel de Los Soles. Para os americanos, Maduro deixou de ser um chefe de Estado e passou a ser tratado como um chefe de cartel transnacional.
É exatamente esse filme de terror geopolítico que tira o sono de Lula e da cúpula do PT. Afinal, a ligação histórica da esquerda brasileira com o crime organizado é um fato incômodo. O Comando Vermelho nasceu na década de 1970 na Ilha Grande, a partir da convivência carcerária direta entre presos comuns e guerrilheiros políticos. Anos mais tarde, investigações policiais capturaram áudios explícitos de lideranças do crime, como o traficante Fernandinho Beira-Mar, afirmando sem rodeios que com o PT as facções tinham um "diálogo cabuloso".
Com os Estados Unidos carimbando o PCC e o CV como organizações terroristas, os tentáculos da lista do OFAC (Office of Foreign Assets Control) vão sufocar o sistema financeiro de qualquer um que faça negócios ou tenha proximidade com esses grupos. O pavor do governo atual é que Washington aplique o mesmo critério usado na Venezuela e conclua que a leniência estatal brasileira cruzou a linha da cumplicidade.
A conexão americana e o alvo da narrativa
Para tentar se blindar, o governo Lula busca demonizar as movimentações diplomáticas da oposição. O senador Flávio Bolsonaro cumpriu agenda em Washington para tratar de temas econômicos e de segurança, incluindo a defesa dos interesses comerciais do país diante do "Tarifaço" da Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana. Nessas reuniões, o sufocamento financeiro das facções foi amplamente debatido.
Como desdobramento, o senador americano Marco Rubio enviou uma carta formal a Flávio Bolsonaro. No documento, Rubio agradeceu a interlocução e destacou a prontidão do parlamentar brasileiro em estabelecer canais abertos de negociação com Washington durante o período de transição institucional, caso a oposição vença as eleições presidenciais.
O plano de Lula é distorcer esse diálogo. O objetivo é usar o ofício de Mauro Vieira e a carta de Rubio para alegar que a oposição está "entregando a soberania" aos americanos. Se perderem nas urnas, o argumento da "interferência externa" será o pretexto perfeito para melar a transição, exatamente como Petro tenta fazer na Colômbia.
Falando em soberania, cadê a indignação do Itamaraty ao lembrar que, em 2022, o ministro Barroso admitiu ter pedido — por três vezes — o envolvimento de autoridades dos EUA para chancelar o nosso pleito? Se um magistrado da corte máxima cruzar o oceano para pedir ajuda à Casa Branca de Joe Biden não é o suprassumo da interferência externa, eu realmente já não sei mais o que a palavra significa.
O sonho da centralização contra a resistência dos Estados
Para que um golpe de transição funcione, é preciso ter o controle das armas. E foi aí que o plano deles bateu de frente com o federalismo. O ministro da Justiça de Lula, Ricardo Lewandowski, tentou por diversas vezes emplacar a unificação das polícias do país através de uma PEC, além de arquitetar a criação de uma Guarda Federal — um projeto desenhado sob medida nos moldes da Guarda Bolivariana de Maduro para atuar como uma milícia pretoriana do regime.
Felizmente, os governadores dos estados perceberam a armadilha e não permitiram que a segurança pública fosse centralizada nas mãos de Brasília. Em um modelo centralizado, uma ordem de Lula bastaria para paralisar a polícia do país inteiro. Com a estrutura atual e descentralizada, as Polícias Militares e Civis respondem aos seus respectivos governadores.
Isso garante que as administrações estaduais mantenham sua autonomia, compartilhem informações de inteligência e possam atuar de forma coordenada diretamente com agências americanas de combate ao crime, blindando o país de uma ditadura. Mas o alerta permanece: em uma eventual e catastrófica reeleição de Lula, a destruição da autonomia das polícias estaduais será a prioridade número um para consolidar esse sonho autoritário. O Foro de São Paulo está jogando a sua sobrevivência, e a nossa vigilância precisa ser absoluta (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 8/7/2026)

