A asfixia do setor produtivo – Editorial Estadão
Recorde em processos de recuperação financeira de empresas é o efeito colateral de uma política econômica desconectada da realidade e mostra o complicado ambiente de negócios do País.
O esforço de renegociação de R$ 65,1 bilhões em dívidas da Raízen, gigante formada da parceria entre Cosan e Shell há 15 anos, voltou os holofotes para os números recordes de processos de recuperação extrajudicial, movimento que parece andar na contramão dos bons indicadores econômicos atuais.
O anúncio da Raízen, feito com apenas algumas horas de diferença de processo semelhante aberto pelo Grupo Pão de Açúcar, líder histórico do setor supermercadista que tenta equalizar uma dívida de R$ 4,5 bilhões, acabou virando referência para o complicado ambiente de negócios nacional.
Entre recuperações judiciais (supervisionadas formalmente pela Justiça) e extrajudiciais (estruturadas diretamente entre empresa e credores), o ano de 2025 contou 5.680 processos, um recorde histórico, como mostrou recente reportagem do Estadão com dados do Monitor RGF de Recuperação Judicial.
O ano de 2026, segundo especialistas, segue a mesma toada. Somente os processos extrajudiciais – instrumento legal criado no Brasil há apenas duas décadas – foram 68 no ano passado, volume também recorde, de acordo com levantamento do Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial publicado pelo jornal Valor.
São diversos os motivos que deixam empresas incapacitadas de pagar suas dívidas. Crises financeiras podem ser causadas por má gestão, planejamento comercial mal dimensionado, negócios de risco que não deram o retorno esperado, dificuldades na captação de financiamento e capital de giro, queda severa na demanda, disputas societárias ruinosas e até fraudes corporativas. Enfim, não há como desprezar que boa parcela da responsabilidade pelas crises corporativas cabe à própria condução das empresas.
Mas há, nos casos recentes, um denominador comum: a taxa básica de juros (Selic), que em quatro anos e meio – de janeiro de 2021 a junho de 2025 – passou de 2% para 15%, patamar em que se mantém até o momento e que contribui para multiplicar o saldo de dívidas financeiras. A disparada não foi acidental ou arbitrária, mas uma necessidade monetária para controlar a inflação e preservar o valor de compra do real diante de uma economia superaquecida por políticas oficiais de incentivo ao crédito e ao consumo.
O aumento da inadimplência e, em último estágio, a insolvência são o saldo deletério de uma política econômica que só atende aos interesses demagógicos do governo, em detrimento do controle da inflação. No afã de acelerar o giro do dinheiro, fabricando uma imagem da economia que não condiz com a realidade para dizer que está colocando “dinheiro no bolso do povo”, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva joga as consequências de sua irresponsabilidade no colo tanto de empresas quanto de pessoas físicas.
Está aí a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) para comprovar: em fevereiro, a proporção de endividamento das famílias brasileiras bateu 80,2%, o maior nível de toda a série histórica do levantamento, feito mensalmente pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) desde 2010.
Remar contra uma maré de instabilidade econômica e políticas públicas ineficientes não é fácil. E é esse o resultado da desconexão entre as decisões de empresas e indivíduos (microeconomia) e a condução da macroeconomia (inflação, juros, PIB, etc.). É o tipo de desordem que costuma, cedo ou tarde, levar a crises econômicas mais sérias e recessão.
De acordo com o Monitor RGF, das 5.680 empresas em processo de reestruturação em 2025, o setor com maior aumento de insolvência foi o agronegócio, com 493 empresas, justamente o que mais tem contribuído positivamente para o Produto Interno Bruto (PIB). Fatores como mudanças climáticas e quebras de safra tendem a desequilibrar as contas, mas não há como desconsiderar a forte dependência da Selic, em razão da necessidade intensiva de capital do agronegócio.
A queda dos juros, alívio esperado por empresas e famílias, não depende exclusivamente do Banco Central. O governo tem de fazer sua parte (Estadão, 17/3/26)

