A engrenagem que sustentava o cooperativismo paulista – Por Rodrigo Simões
Em 1939, Otacílio Tomanik registrava um cooperativismo paulista que crescia acompanhado de perto pelo poder público. Inspeções, orientação, organização documental, biblioteca, controle financeiro e milhares de procedimentos revelam que, muito antes de expressões como governança e compliance fazerem parte do vocabulário institucional, já havia uma preocupação clara: cooperativas fortes precisavam de organização, conhecimento e responsabilidade.
Há documentos históricos que impressionam pelo que contam. Outros impressionam também pela maneira como revelam o funcionamento de uma época.
Nas páginas do relatório de 1939 do Departamento de Assistência ao Cooperativismo, Otacílio Tomanik faz exatamente isso.
Depois de apresentar os serviços de assistência jurídica, técnica, contábil e estatística — abordados no capítulo anterior desta série — o relatório avança sobre outra dimensão fundamental daquele trabalho: acompanhar as cooperativas de perto e construir uma estrutura administrativa capaz de sustentar o crescimento do cooperativismo paulista.
E é justamente aí que aparece uma palavra que merece atenção: Inspetoria.
Criada pelo Decreto Estadual nº 9.859, de 23 de dezembro de 1938, e instalada em janeiro de 1939, a Inspetoria começou efetivamente suas atividades nos primeiros meses daquele ano.
Sua missão estava longe de se resumir à fiscalização burocrática.
Tomanik registra que os inspetores realizavam visitas às sociedades cooperativas e que, além das inspeções, havia serviços especiais, participação em assembleias gerais e atuação conjunta com outras seções do Departamento.
O objetivo era conhecer a realidade das organizações, identificar problemas e contribuir para seu funcionamento regular.
Ao longo de 1939, a Inspetoria realizou 322 visitas a sociedades cooperativas.
O próprio relatório dimensiona a intensidade desse trabalho: considerando o período efetivo de atuação, chegou-se a uma média aproximada de uma visita por dia.
É um número que diz muito.
Num tempo sem internet, sistemas digitais, videoconferências ou comunicação instantânea, acompanhar o cooperativismo significava literalmente percorrer o território.
Era preciso ir até as cooperativas.
Conhecer seus dirigentes.
Examinar documentos.
Participar de reuniões.
Ouvir problemas.
Orientar soluções.
O relatório registra ainda despesas de 8:637$200 com essas visitas e informa que o custo médio de cada uma ficou em torno de 26$823.
Mais importante que o valor, porém, é aquilo que os números revelam: havia uma política estruturada de presença institucional.
O Estado indo até onde o cooperativismo acontecia
As páginas escritas por Tomanik mostram que a Inspetoria não se limitava a verificar se determinada cooperativa cumpria formalidades.
O trabalho envolvia inspeções na Capital, no interior e em municípios de outros estados, além de procedimentos relacionados a cooperativas em funcionamento.
Também aparecem no balanço ofícios recebidos e expedidos, circulares, informações, pareceres, cooperativas atendidas, relatórios confeccionados, minutas de atas de assembleias, pessoas atendidas e viagens realizadas.
Era fiscalização, mas também orientação.
E essa distinção continua atual.
Uma política pública eficiente não deve enxergar fiscalização apenas como instrumento de punição. Quando bem estruturada, ela também identifica dificuldades, previne irregularidades, melhora processos e ajuda instituições a funcionar corretamente.
O documento de 1939 já carregava essa lógica.
Fiscalizar significava conhecer.
E conhecer era condição para orientar.
Conhecimento também fazia parte da estrutura
Outro trecho particularmente revelador do relatório é dedicado à Biblioteca.
Pode parecer um detalhe administrativo. Não era.
Segundo Tomanik, o Departamento de Assistência ao Cooperativismo mantinha uma biblioteca especializada que reunia mais de 431 obras, além de revistas, publicações e coleções de legislação.
O acervo incluía títulos relacionados a cooperativismo, economia, direito, estatística e sociologia, além de publicações em diferentes idiomas.
Havia ainda uma coleção completa de leis e decretos do Estado de São Paulo, totalizando 42 volumes.
O relatório informa que o acervo estava organizado segundo regras de biblioteconomia e contava com fichários que facilitavam as consultas.
Mais uma vez, encontramos em 1939 algo extremamente contemporâneo.
Informação organizada também é infraestrutura.
Antes de orientar cooperativas, elaborar pareceres ou tomar decisões, era necessário conhecer a legislação, estudar experiências e preservar conhecimento técnico.
Hoje falamos em bancos de dados, inteligência institucional, plataformas digitais e gestão do conhecimento.
Naquele tempo, a ferramenta era outra.
Mas o princípio era exatamente o mesmo.
Papel, protocolo e milhares de registros
Talvez seja na descrição da Seção Administrativa que o relatório permita enxergar com maior clareza os bastidores daquela estrutura.
Otacílio Tomanik registra que todos os trabalhos das diferentes seções passavam pela área administrativa.
E os números ajudam a compreender a dimensão dessa engrenagem.
Somente a distribuição interna de autos exigiu 21.688 anotações.
Os serviços de datilografia produziram, entre outros documentos, 1.280 folhas de protocolo de entrada, 1.230 listas de correspondência, 1.930 ofícios, 78 circulares, 90 telegramas, 500 passes e 813 cópias.
Além disso, o serviço atendeu 2.452 interessados em assuntos relacionados à entrega e ao andamento de correspondências.
Por trás de cada inspeção, parecer, visita ou orientação havia uma máquina administrativa trabalhando.
Nada era automático.
Não existia computador.
Não havia planilha eletrônica.
Muito menos armazenamento em nuvem.
Havia fichas, livros, protocolos, arquivos, máquinas de escrever e pessoas responsáveis por fazer a informação chegar ao lugar certo.
O controle também fazia parte da missão
As páginas seguintes reforçam outra preocupação que atravessa todo o relatório: controle.
A seção administrativa realizava escrituração patrimonial e financeira, balanços, balancetes, pagamentos, registros de despesas e acompanhamento de materiais.
Até a aquisição de suprimentos aparece detalhadamente documentada.
Durante parte de 1939, foram abertas 103 concorrências para compra de materiais destinados ao Departamento.
O Almoxarifado, por sua vez, atendeu 1.294 requisições de materiais durante o ano.
E Tomanik faz questão de esclarecer que sua função não era simplesmente entregar aquilo que havia sido solicitado. Era necessário também registrar a baixa correspondente nas fichas de estoque e manter o controle formal dos materiais existentes.
Pode parecer uma preocupação elementar.
Mas não é.
É gestão.
É prestação de contas.
É responsabilidade sobre recursos públicos.
É a percepção de que uma instituição somente consegue cumprir bem sua atividade-fim quando sua atividade administrativa funciona com igual seriedade.
O passado que conversa com o presente
Mais de oito décadas separam aquelas páginas da realidade atual.
As ferramentas mudaram radicalmente.
Os livros de protocolo deram lugar aos processos eletrônicos. Os fichários foram substituídos por bancos de dados. A correspondência deixou de depender exclusivamente de papel. Sistemas integrados permitem acompanhar informações praticamente em tempo real.
Mas algumas perguntas permanecem exatamente as mesmas.
Como garantir que uma cooperativa seja bem administrada?
Como acompanhar sua situação?
Como oferecer orientação técnica?
Como organizar informações?
Como preservar documentos?
Como controlar recursos?
Como transformar fiscalização em instrumento de aperfeiçoamento?
É por isso que revisitar o relatório de 1939 vai muito além de uma curiosidade histórica.
Nas páginas cuidadosamente organizadas por Otacílio Tomanik, encontramos princípios que hoje chamaríamos de governança, transparência, controle, assistência técnica, gestão da informação e eficiência administrativa.
Os nomes mudaram.
As tecnologias mudaram.
O cooperativismo cresceu, profissionalizou-se e ganhou uma dimensão que provavelmente aqueles servidores dificilmente poderiam imaginar.
Mas a base continua reconhecível.
Instituições fortes não se constroem apenas com grandes ideias. Constroem-se também com presença, conhecimento, organização, controle e trabalho cotidiano.
Em 1939, enquanto inspetores percorriam estradas para visitar cooperativas, funcionários preenchiam milhares de registros, bibliotecas organizavam conhecimento e setores administrativos controlavam cada documento e cada material, São Paulo ajudava a construir silenciosamente uma estrutura para sustentar seu movimento cooperativista.
Otacílio Tomanik teve o cuidado de registrar tudo isso.
Oitenta e sete anos depois, suas páginas permitem compreender que uma parte importante da força alcançada pelo cooperativismo paulista começou justamente ali: na preocupação de fazer bem-feito aquilo que muitas vezes ninguém vê.
(Rodrigo Simões; Jornalista / Administrador de Empresas / Gestor Público; Mtb 32.591/SP; 8/10/26)

