A Grande Fuga: Por Que Lula Teme os Debates? – Por Paula Sousa
Eis que surge no horizonte político nacional um fenômeno fascinante: o destemido paladino da democracia, o orador de praça pública que se orgulha de falar pelos cotovelos, está avaliando seriamente dar um espetacular "chá de sumiço" nos debates televisivos do primeiro turno. A justificativa oficial da cúpula petista? "Conflito de agenda" — afinal, o lançamento da candidatura coincide perfeitamente com a data do primeiro encontro na TV.
Como lembrou o jornalista Augusto Nunes durante o programa da Revista Oeste, alegar falta de tempo para debates marcados com quase um ano de antecedência pelas emissoras não é apenas uma desculpa esfarrapada, é um atestado de deboche com o eleitor. A verdade nua e crua é uma só: o "palestrante de massas" amarelou.
Para entender a eventual fuga de Luiz Inácio, é preciso transitar entre duas hipóteses complementares: a tática eleitoral calculada e a boa e velha covardia política diante dos fatos. No campo da inteligência estratégica, como destacou o analista Marcelo Suano no programa da Revista Oeste, a ausência do presidente funciona como um truque de ilusionismo. Sem a figura central do PT no palco para servir de alvo principal, o que se espera dos candidatos de oposição — Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos — é que eles comecem a se degladiar publicamente entre si.
A esperança petista é que a direita, movida por vaidades e pela disputa pelo protagonismo no segundo turno, troque o bombardeio ao governo por uma guerra de "maquiagem", desgastando-se mutuamente. Enquanto isso, Lula assistiria de camarote, poupando sua imagem desgastada para reaparecer soberano nos minutos finais.
A colheita dos números catastróficos
Entretanto, por trás do verniz de "jogada de mestre", esconde-se o pavor do confronto direto. Há 20 anos, em 2006, Lula adotou a mesma tática de fugir do primeiro turno. Só que aquela época ficou no passado. Como observou o comentarista Alexandre Bertoncello, em 2006 o país surfava nos ventos favoráveis do boom das commodities, mesmo diante do impacto do escândalo do Mensalão.
Hoje, o terceiro mandato petista acumula um rastro de desastre que nenhum marqueteiro consegue disfarçar em vídeos superproduzidos da propaganda eleitoral.
Os números da "colheita" de quatro anos de governo são devastadores:
- Inflação fora de controle: Pelo terceiro ano consecutivo, a inflação estoura a meta oficial.
- Recorde de juros: As maiores taxas de juros reais da última década, sufocando o crédito e o consumo.
- Falências em massa: Mais de 700 empresas em recuperação judicial em apenas 12 meses.
- Endividamento familiar: 80% das famílias brasileiras estão atoladas em dívidas, parcelando a compra do mês no supermercado.
- Escândalos de Gestão: Fraudes milionárias no INSS, a crise estarrecedora do Banco Master e a leniência em não classificar facções criminosas como organizações terroristas.
Diante desse quadro medonho, de que adiantaria ir a um debate ao vivo? Para explicar por que a dona de casa não consegue mais encher o carrinho de compras? Como justificará o leão da oratória a sua incapacidade de entregar qualidade de vida e perspectiva de futuro ao cidadão comum? Como ironizou o jornalista Adalberto Piotto no debate da Revista Oeste, Lula é um leão quando fala para "plateias amestradas", mas vira um gatinho acuado quando precisa responder a perguntas desconfortáveis sem um teleprompter para guiar seus improvisos verborrágicos.
A armadilha para a direita e a "seita" fiel
A estratégia do "chá de sumiço" escancara também o cálculo frio em relação ao eleitorado. Conforme salientaram os analistas no programa da Revista Oeste, a base petista dura — cerca de 30% dos eleitores — comporta-se como uma autêntica "seita". Essa parcela do eleitorado já provou que ética, escândalos de corrupção ou destruição econômica são meros detalhes irrelevantes; eles votarão no PT incondicionalmente. O problema para Lula reside nos 12% a 13% de eleitores indecisos e pragmáticos, que votaram nele por rejeição ao governo anterior, mas que hoje sentem o peso da inflação no bolso.
Fugir dos debates para blindar essa gordura eleitoral pode ser, contudo, uma tática suicida. Nas palavras de Adalberto Piotto, sem Lula no estúdio para se defender, os debates se transformarão em um festival de recortes virais nas redes sociais, nos quais a oposição escancarará todas as feridas do governo. E, na era da informação instantânea — muito diferente do cenário de 2006 —, o cidadão não depende mais da versão oficial para saber que "o rei está nu".
Hipocrisia máxima: Voto impresso e perseguição
A cara de pau da narrativa governista atinge níveis olímpicos quando confrontada com o passado. Durante a transmissão, a Revista Oeste resgatou um vídeo histórico emblemático de Carlos Lupi, atual ministro e presidente do PDT, afirmando categoricamente há mais de duas décadas que "sem a impressão do voto não há possibilidade de recontagem, e sem recontagem a fraude impera". O saudoso Leonel Brizola, ícone da esquerda, foi o pioneiro dessa pauta!
"Não tem recursos maiores para garantir a própria liberdade de expressão e a democracia do que investir na conferência do voto através da sua impressão." — Carlos Lupi (PDT)
Como bem pontuou a comentarista Ana Paula Henkel, a mesmíssima pauta do voto impresso, que mais tarde foi utilizada pelo próprio PDT para tornar o opositor Jair Bolsonaro inelegível, era a bandeira sagrada da esquerda. A hipocrisia é tão descarada que beira o cômico. Pior: veículos de imprensa independentes como a Revista Oeste pagam um preço alto por expor essas contradições com fatos e vídeos oficiais. A perseguição sistemática, a desmonetização e as tentativas de asfixia impostas por ministros como Alexandre de Moraes revela o pavor que o sistema tem do escrutínio público e da verdade contida nos arquivos.
O eco ditatorial de Ortega e a retórica do ódio
Por fim, não se pode ignorar a perigosa escalada do discurso lulista. Ao mesmo tempo em que a militância esquerdista enche o peito para pregar "pacificação" e combate ao "discurso de ódio", o próprio Lula vem a público esbravejar que "traidores da pátria antigamente eram enforcados" e classificar a oposição como "fascista e negacionista". É a mesma linguagem desumanizadora usada por seu aliado histórico e compadre de Foro de São Paulo, o ditador Daniel Ortega na Nicarágua, para perseguir, prender e cassar os direitos de qualquer um que ouse discordar do regime.
No teatro político brasileiro, a regra parece ser clara: para os amigos do rei, tudo, inclusive a autorização para pregar a eliminação do adversário; para a oposição e a imprensa livre, o rigor da censura e o rótulo de "ameaça à democracia". Lula quer ganhar no primeiro turno sem dar explicações, sem prestar contas do desastre econômico e sem enfrentar o contraditório. Resta saber se o eleitor brasileiro aceitará passivamente assistir a esse papelão ou se cobrará caro nas urnas a conta de quem preferiu amarelar a ter que encarar a realidade. (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 23/7/2026)

