14/07/2026

A “mão de Brasília”: Como o clã Mendes se instalou no comando da CBF

A “mão de Brasília”: Como o clã Mendes se instalou no comando da CBF

 

Por Lucia Festuccia

 

Durante décadas, a Confederação Brasileira de Futebol foi sinônimo de cartolagem, mas de um tipo de poder que pelo menos nascia dentro do próprio futebol. Depois da eliminação do Brasil nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 — derrota por 2 a 1 para a Noruega, a pior campanha da Seleção desde 1990 —, um debate que já se arrastava nos bastidores explodiu nas redes sociais e na tribuna do Congresso: o de que a CBF não responde apenas a cartolas e patrocinadores, mas também a um ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, e ao filho dele, Francisco Schertel Mendes.

 

O ex-governador Romeu Zema resumiu o clima em um vídeo publicado dias após a queda do Brasil: "Ele não tem cargo na CBF, não tem mandato, mas manda. O nome dele é Francisco. Filho de quem? Do Gilmar Mendes." No mesmo período, o deputado Nikolas Ferreira publicou um vídeo questionando por que ministros que deveriam "julgar leis" estariam envolvidos nos bastidores do futebol nacional, e comentaristas como Leandro Ruschel passaram a tratar o tema como prova de um aparelhamento mais amplo da vida pública brasileira pelo Judiciário.

 

Este artigo reconstrói o que está documentado sobre essa relação — contratos, decisões judiciais, nomeações — e também o que, até agora, permanece no campo da denúncia política e da suspeita, sem confirmação em processo formal.

 

O contrato que uniu o IDP à CBF

 

Em 16 de agosto de 2023, a CBF, então presidida por Ednaldo Rodrigues, assinou uma parceria de dez anos com o Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP) para a gestão da CBF Academy, braço de cursos de formação de treinadores, árbitros, dirigentes e gestores esportivos. O IDP foi fundado por Gilmar Mendes há quase três décadas e hoje é dirigido por seu filho, Francisco Schertel Mendes, que assinou o acordo pela instituição.

 

As condições financeiras do contrato reforçam por que ele virou alvo de escrutínio: o IDP fica com 84% da receita bruta gerada pelos cursos, e a CBF, dona da marca e da estrutura, com apenas 16%. Em 2023, a CBF Academy faturou R$ 9,2 milhões — cerca de R$ 7,7 milhões destinados ao instituto da família Mendes só naquele ano. O vínculo vale até 2033 e prevê multa pesada — 20% da receita do ano anterior, multiplicada pelo número de meses restantes de contrato — em caso de rescisão sem justa causa.

 

Questionado publicamente sobre o conflito de interesses, Gilmar Mendes sustenta que se trata de "um contrato de direito privado dirigido pela direção do IDP" e nega qualquer irregularidade, argumentando que apenas emprestou o "prestígio" da instituição à CBF.

 

As decisões do STF sobre a própria CBF

 

O ponto mais sensível da controvérsia é que, paralelamente a esse contrato comercial, Gilmar Mendes atuou como relator em processos que decidiram diretamente o comando da CBF. Em janeiro de 2024, foi ele quem, de forma monocrática, derrubou uma decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro que havia afastado Ednaldo Rodrigues da presidência da entidade, devolvendo-o ao cargo.

 

O processo chegou ao STF por meio de uma ação movida pelo PCdoB — partido do então secretário-geral da CBF — e, segundo apurou a revista Piauí, o rito normal do tribunal indicaria a distribuição do caso a outro ministro, André Mendonça, e não a Gilmar Mendes. Em nenhum momento o ministro se declarou impedido de julgar, apesar do contrato comercial vigente entre seu instituto e a entidade que estava em disputa.

 

A mesma reportagem da Piauí revelou que, além da decisão judicial, ao menos seis pessoas ligadas ao IDP ou indicadas por Gilmar Mendes passaram a ocupar cargos estratégicos na CBF: o chefe de gabinete e assessor especial da presidência, Hugo Teixeira, apontado pela Folha de S.Paulo como braço direito de Francisco Mendes; o diretor jurídico, André Mattos; e o diretor financeiro, Valdecir de Souza. A reportagem também narra o papel do advogado Pedro Trengrouse — que recebeu R$ 6,5 milhões da CBF em honorários e foi quem articulou, junto a Francisco Mendes, o próprio acordo original entre o IDP e a CBF Academy.

 

O senador Eduardo Girão (Novo-CE) chegou a classificar a situação como "gravíssimo conflito de interesse" e cobrou investigação. A Procuradoria-Geral da República, no entanto, arquivou pedido de apuração sobre a atuação de Gilmar Mendes na CBF. Juristas como Sidney Stahl vêm sustentando publicamente que o artigo 95, parágrafo único, inciso I, da Constituição — que veda a magistrados exercer atividade além do magistério — poderia se aplicar ao caso, mas essa é uma tese ainda não testada em julgamento formal, não uma condenação estabelecida.

 

Ednaldo Rodrigues acabou caindo de vez em maio de 2025, desta vez sem o socorro do Supremo, e foi sucedido por Samir Xaud — que, segundo reportagens recentes, também é egresso de cursos de gestão da própria CBF Academy e mantém proximidade com Francisco Mendes.

 

Ancelotti, a renovação até 2030 e o caso Neymar

 

Em 14 de maio de 2026, um mês antes da estreia do Brasil na Copa, a CBF anunciou a renovação do contrato de Carlo Ancelotti até a Copa do Mundo de 2030, com salário de 10 milhões de euros por ano — o maior entre técnicos de seleções no mundo. O presidente Samir Xaud tratou o anúncio como um "dia histórico".

 

A renovação antecipada, fechada antes mesmo da lista de convocados ser divulgada, chamou atenção porque blindava o técnico independentemente do resultado no Mundial — e, de fato, mesmo após a pior campanha do Brasil em Copas desde 1990, o contrato seguiu de pé, sem qualquer sinalização de mudança no comando técnico.

 

Neymar, aos 34 anos e com participação reduzida no torneio, entrou no segundo tempo da derrota para a Noruega, aos 23 minutos, e converteu o pênalti que diminuiu o placar para 2 a 1 nos acréscimos — em uma partida que, para boa parte da crítica esportiva, marcou sua provável despedida de Copas do Mundo.

 

Nas semanas seguintes à eliminação, ganhou força um episódio relatado pelo colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo: durante um fórum jurídico em Portugal organizado anualmente por Gilmar Mendes — apelidado nos bastidores de "Gilmarpalooza" —, Francisco Mendes teria dito a interlocutores, em tom de vaidade pessoal, a frase "quem convocou o Neymar fui eu". É importante frisar que se trata de um relato de bastidor, atribuído por terceiros, e não de uma declaração pública assumida por Francisco Mendes nem de um fato comprovado sobre o processo real de convocação, que é atribuição formal do técnico.

 

Um poder sem cargo formal

 

O que mais incomoda os críticos não é apenas o contrato ou as decisões judiciais isoladamente, mas a extensão da influência informal de Francisco Schertel Mendes. Ele não ocupa nenhum posto executivo na CBF nacional — seus títulos oficiais são vice-presidente da Federação Mato-Grossense de Futebol e membro do Comitê Disciplinar da Fifa, cargo ao qual foi reconduzido em 2025.

 

Mesmo assim, é descrito por dirigentes de federações e por reportagens do UOL como um dos articuladores mais influentes das reformas em curso na CBF — da criação de uma liga nacional de clubes ao chamado "fair play financeiro" — e já é apontado nos bastidores como possível candidato à presidência da entidade numa eventual sucessão de Xaud.

 

Em julho de 2026, em meio a denúncias sobre uso de verba da CBF por Xaud em viagens com acompanhantes, foi o próprio Francisco Mendes quem telefonou a presidentes de federações estaduais para tentar conter uma articulação pela cadeira do presidente — outro sinal, para os críticos, de que o poder de fato dentro da entidade não está no cargo mais alto do organograma, mas na "turma de Brasília".

 

A reação política

 

A eliminação precipitou a reação de setores da direita e de parte da opinião pública. Nikolas Ferreira publicou um vídeo perguntando por que "ministros do STF, que deveriam estar julgando leis, ações, interpretando a Constituição", estariam envolvidos "em todos os assuntos" da vida do cidadão — do futebol à política — e defendeu que o eleitor use as eleições ao Senado para tentar conter o avanço do Supremo sobre outras esferas.

 

Romeu Zema atribuiu diretamente à "família" Mendes a responsabilidade política pela crise de gestão da CBF. Comentaristas como Leandro Ruschel passaram a tratar o episódio como sintoma de um padrão mais amplo: instituições que deveriam ser governadas por critérios técnicos e por escolha popular acabam, segundo essa leitura, sob influência de figuras não eleitas e sem mandato.

 

Do outro lado, Gilmar Mendes, em publicação feita dias após a eliminação, agradeceu aos jogadores, defendeu a permanência de Ancelotti e homenageou Neymar — sem mencionar o contrato do IDP nem a influência do filho na entidade, o que levou o próprio X (antigo Twitter) a anexar uma nota de checagem comunitária ao post, lembrando aos leitores da relação comercial e das decisões judiciais envolvendo o ministro e a CBF.

 

Dos Tribunais ao Gramado, como a disputa de Poder na CBF marcou tristemente o caminho da Seleção Brasileira até a Copa 2026

 

Os fatos documentados — o contrato de dez anos que destina 84% da receita da CBF Academy ao instituto da família Mendes, a decisão monocrática de Gilmar Mendes que devolveu Ednaldo Rodrigues à presidência da CBF sem que o ministro se declarasse impedido, e a nomeação de ao menos seis pessoas ligadas ao IDP para cargos estratégicos da confederação — já seriam suficientes para justificar o desconforto público com a proximidade entre o STF e o comando do futebol brasileiro.

 

A isso se soma a influência não-oficial, mas amplamente relatada, de Francisco Schertel Mendes sobre decisões que vão da renovação de treinadores a articulações para a sucessão da própria presidência da CBF.

 

O que ainda não está provado — e é preciso dizer isso com clareza — é que essa influência tenha determinado, tecnicamente, escalações específicas de jogadores ou o resultado esportivo da Copa de 2026: a frase atribuída a Francisco Mendes sobre a convocação de Neymar é um relato de bastidor, não uma decisão documentada, e a queda do Brasil para a Noruega teve explicações técnicas e táticas amplamente discutidas pela crítica esportiva.

 

Separar o que é fato apurado do que é insinuação política é o que distingue jornalismo de boato — mas, mesmo com esse cuidado, o que resta documentado já é o bastante para a pergunta que ecoou nas redes depois da eliminação: quando um ministro do Supremo tem contrato milionário com a entidade que ele mesmo julga, e o filho desse ministro é descrito, por dirigentes da própria CBF, como um dos homens mais poderosos do futebol nacional sem nunca ter sido eleito para nada, o problema deixou de ser só do futebol.

 

Da intervenção jurídica nos governos estaduais ao comando da nossa Seleção, os juízes do STF se consideram os donos absolutos do país. A implicação desse aparelhamento é uma vergonha histórica, o futebol que deveria ser espaço de mérito e soberania popular virou um puxadinho de luxo da corte brasileira, que mesmo sem mandato controlam desde a sua liberdade até a escalação do seu time de futebol, é por isso que o Brasil naufraga, porque até o talento dos nossos craques foi sequestrado pela ditadura de toga.

 

Artigo de opinião e análise jornalística, com base em reportagens da revista Piauí, Folha de S.Paulo, UOL, CNN Brasil, Lance!, Revista Oeste, Poder360 e declarações públicas de Gilmar Mendes, Romeu Zema e Nikolas Ferreira. As acusações de conflito de interesse contra o ministro Gilmar Mendes constituem, até o momento, controvérsia política e jurídica — não há condenação ou decisão formal do STF ou do CNJ reconhecendo irregularidade.

 

Sobre a autora

 

Lucia Festuccia é advogada com sólida atuação jurídica em Ribeirão Preto. Ao longo de sua trajetória, consolidou-se pela defesa de princípios, pela experiência prática no Direito e pelo engajamento nos debates políticos contemporâneos. Ativista e voz atuante no cenário público, integra o time de articulistas do portal BrasilAgro, contribuindo com análises jurídicas, institucionais e sociais. Também atua como membro da equipe pedagógica e consultora jurídica do Instituto Cultural Voluntários pelo Brasil, desenvolvendo ações voltadas à formação cidadã, à valorização da cultura e ao fortalecimento das instituições; 14/7/26