06/07/2026

A obscenidade real: O dedo do meio e o bolso vazio – Por Paula Sousa

A obscenidade real: O dedo do meio e o bolso vazio – Por Paula Sousa

O Brasil assistiu neste sábado dia 4 de Julho a uma daquelas cenas que entram para a história não pela grandeza, mas pela vergonha total que causou ao país. Durante um evento oficial feito justamente para falar sobre investimentos em tratamento bucal, o atual presidente da República resolveu jogar as regras de comportamento do cargo no lixo ao apontar um belo dedo do meio direto para as câmeras que transmitiam o evento para toda a nação.

 

A desculpa no palco para essa baixaria foi uma suposta defesa dos direitos dos mais necessitados. Em seu palanque, Lula gritou que era preciso acabar com a ideia de que quem ganha pouco não gosta de luxo, dizendo com todas as letras: “Porque nós vamos acabar com esta história que eles pensam que o pobre não gosta de coisa boa. Nós gostamos de coisa boa. Nós queremos é tudo de primeira. Tudo é comida de primeira, roupa de primeira, viajar de primeira, dentista de primeira, médico de primeira”.

 

A ironia desse teatrinho para o povo explode na cara do cidadão comum quando a gente olha para a conta bancária de quem está falando. O chefe do governo, que declarou oficialmente ter mais de sete milhões de reais, faz parte do grupo mais rico e cheio de privilégios do país. Enquanto discursa fingindo ser o mesmo operário de quarenta anos atrás, suas viagens pelo mundo queimam rios de dinheiro público em diárias nos hotéis mais caros do planeta.

 

A ostentação de mimos de luxo, como sapatos de marca que valem milhares de reais e relógios de grife que custam uma fortuna, bate de frente com a realidade do trabalhador que precisa parcelar a feira do mês em doze vezes no cartão para não passar fome.

 

Esse abismo de aparências e de moral mostra a verdadeira distância entre os reis de Brasília e quem está aqui embaixo sustentando tudo. O episódio, claro, virou combustível para a internet, transformando o Palácio do Planalto em uma verdadeira fábrica de piadas e memes. O que deveria ser um anúncio oficial sério virou um show de grosseria e falta de educação, sem o menor sinal de respeito pela cadeira onde ele senta.

 

O desprezo por quem acorda cedo para trabalhar fica ainda mais cruel quando o governo resolve atirar no cidadão que tenta, por conta própria, se salvar do desastre dos serviços públicos. Logo depois de fazer sua performance de quinta série na cerimônia de saúde, o presidente atacou sem dó quem paga plano de saúde particular.

 

Transbordando raiva contra o bolso do trabalhador, ele criticou o direito de abater esse gasto no Imposto de Renda, dizendo que essa gente não paga porcaria nenhuma e que o benefício rouba dinheiro do governo: “O rico fala: 'Eu tenho um bom plano de saúde, eu tenho bons médicos que eu pago aqui', não paga nada. Ele desconta no imposto de renda o que ele paga de plano de saúde. Se ele desconta no imposto de renda, quem paga somos nós que deixamos de receber o dinheiro”.

 

Essa lógica maluca castiga o trabalhador que aperta o próprio cinto para garantir que o filho ou a mãe tenham um atendimento médico decente, fugindo das filas desumanas e das macas jogadas nos corredores sujos do SUS. O cinismo dessa fala desmorona quando o próprio presidente precisa de um médico. Como a mídia cansou de mostrar em matérias sobre a sua "ótima recuperação" em exames de rotina, o destino de Lula nunca é uma UPA da periferia na chuva, mas sim o Hospital Sírio-Libanês em São Paulo, um dos hospitais mais caros e exclusivos da América Latina.

 

O SUS, que eles adoram elogiar nos discursos ideológicos, só serve para o povo; para a realeza do governo, fica reservada a medicina particular cinco estrelas, paga com o imposto de quem foi criticado por tentar ter o mínimo.

 

A fome por impostos que move o governo atinge o seu topo na regulamentação da Reforma Tributária e na criação do famoso "Imposto do Pecado". Usando a desculpa esfarrapada de cuidar da saúde do povo cobrando mais caro por itens considerados ruins, a medida deixa clara a obsessão do governo em arrancar mais dinheiro para sustentar os luxos de Brasília — o que inclui desde passeios internacionais chiques até os lençóis de fios egípcios comprados pela primeira-dama, Janja.

 

Como revelou a manchete da Folha de S. Paulo, "Más razões atrasam o imposto do pecado", o governo decidiu segurar o envio das tabelas de cobrança ao Congresso por puro medo de perder votos na eleição. O pavor de dar armas para a oposição expor esses impostos durante a campanha causou um recuo estratégico. Por causa dessa malandragem, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, sugeriu empurrar a cobrança com a barriga, fazendo com que o novo imposto só funcione totalmente em 2028, como mostrou o site Poder360.

 

Esse truque político serve para esconder o verdadeiro rombo no bolso do contribuinte até que as urnas estejam trancadas. A promessa de campanha de dar "picanha e cervejinha" virou uma armadilha fiscal onde justamente o que o povo consome vai ficar mais caro. A mentira de que os impostos iam ficar mais simples cai por terra quando a gente vê que as taxas antigas vão continuar existindo junto com as novas por muito tempo, aumentando a carga final.

 

Na prática, quem vai pagar o pato dessas decisões é a parte mais pobre da população. A discussão sobre cobrar mais imposto de comida industrializada, refrigerante, bebida alcóolica, ignora que, num país quebrado, bolachas e macarrão barato são a única forma de milhões de famílias conseguirem comer alguma coisa para continuar vivas. Proibir o acesso a esses alimentos com impostos abusivos não vai fazer o pobre comer salmão e salada orgânica, só vai deixá-lo com mais fome.

 

Estudos de jornalistas e cientistas publicado no site americano Vox, mostram que as pesquisas que atacam essas comidas baratas são bem fracas e não servem de justificativa para punir o consumidor na hora de passar o caixa.

 

O buraco financeiro atual é o resultado perfeito de quem escolheu votar olhando apenas para a embalagem. Aqueles que decidiram apoiar o atual governo porque tinham "nojinho estético" das falas do ex-presidente Jair Bolsonaro agora assistem de camarote o seu dinheiro virar fumaça e o Estado criar novas formas de assaltar o bolso do cidadão.

 

A grande imprensa, que antes fazia um escândalo mundial por qualquer frase atravessada de Bolsonaro, hoje finge que não vê e passa um pano vergonhoso para o vocabulário de boteco, os insultos e a agressividade do atual dono do Planalto. A educação prometida virou rancor contra quem trabalha, e a estabilidade virou uma dívida pública monstruosa.

 

O eleitor que caiu na historinha de um governo bonzinho e equilibrado descobre, tarde demais, que a conta dos jantares, viagens e privilégios da corte de Brasília vai ser cobrada, centavo por centavo, no preço do supermercado e no imposto de quem trabalha de verdade (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 6/7/2026)