26/09/2025

A teia da Magnitsky: Quando o poder se vira contra quem o empunha

A teia da Magnitsky: Quando o poder se vira contra quem o empunha

Imagem Reprodução Blog Brasil Paralelo

 

Por Paula Sousa

 

Era uma vez um homem que acreditava estar acima de todos. Um magistrado que construiu sua reputação no palco da política e do judiciário com mão de ferro e uma convicção quase messiânica: a de que podia silenciar vozes, encerrar vidas públicas e impor o peso da lei conforme seus próprios critérios. Alexandre de Moraes não escondia a satisfação em ser o algoz de muitos que jamais tiveram direito a defesa. Inocentes foram esmagados por processos kafkianos, jornalistas viram suas contas congeladas, cidadãos comuns foram intimidados.

 

Mas a história, irônica como sempre, gosta de lembrar que até os homens mais poderosos estão sujeitos a quedas retumbantes. E desta vez, não foi a oposição política, nem manifestações populares — foi a lei internacional, fria e calculista, que começou a apertar o cerco em torno do ministro e, pior ainda, em torno de sua família.

 

O abraço da jiboia

 

A aplicação da Lei Magnitsky, sanção norte-americana usada contra violadores de direitos humanos e corruptos internacionais, não age como um raio fulminante. Ela se assemelha a uma jiboia que enlaça sua presa. No início, o aperto parece suportável, até que o ar se torna escasso e a asfixia é inevitável.

 

Com Moraes, a lógica é a mesma. As primeiras medidas pareceram simbólicas, até que o círculo íntimo começou a sentir os efeitos. A esposa, Viviane Barce de Moraes, administradora da holding familiar disfarçada de “instituto jurídico”, passou a ser diretamente impactada. O escritório de advocacia que levava seu nome viu-se na linha de tiro. O site do escritório, hospedado em servidores norte-americanos, foi derrubado da noite para o dia após denúncia às empresas Hostinger e Cloudflare.

 

Num clique, a vitrine digital que exibia respeitabilidade transformou-se em silêncio virtual. O aviso frio — “conteúdo abusivo removido” — carregava mais força do que qualquer manchete nacional.

 

O deserto do entorno

 

O problema, porém, vai muito além de um site fora do ar. O que a Magnitsky impõe é o deserto ao redor. Clientes temem ser associados ao nome Moraes; contratos passam a ser vistos com desconfiança; qualquer honorário que fuja do razoável pode ser interpretado como tentativa de burlar as sanções e, portanto, gerar novas punições.

 

Em outras palavras: quem ousar se aproximar, corre o risco de ser tragado junto.

 

A imagem do escritório — antes apresentada como símbolo de solidez jurídica — agora é sinônimo de instabilidade. E isso atinge diretamente a esposa e, inevitavelmente, os filhos.

 

Não se trata apenas de punição financeira. É a corrosão de uma rede de influência cuidadosamente erguida, agora desidratada pela desconfiança internacional.

 

O castelo de areia desmoronando

 

Há uma ironia cruel e irresistível nessa história. Moraes, o ministro que por anos ignorou clamores de inocentes, hoje assiste ao castelo de areia de sua família ser levado pela maré.

 

Seu salário de magistrado, ainda que robusto para o brasileiro comum, torna-se irrelevante diante do estilo de vida que construiu. Quarenta mil reais por mês, para ele, soam como troco. As verdadeiras fontes de poder e riqueza sempre estiveram em estruturas paralelas — empresas, escritórios, holdings. E são justamente essas engrenagens que a Magnitsky está corroendo.

 

Clientes estrangeiros desaparecem, provedores internacionais cortam relações, bancos no exterior fecham contas. Até mesmo o Banco do Brasil, que ainda mantém vínculos, passa a ser visto como instituição em risco de sanções por sustentá-lo.

 

É a velha máxima: quando o dinheiro foge, os amigos desaparecem.

 

Justiça poética

 

O homem que construiu sua fama sufocando adversários com medidas arbitrárias agora vê sua própria família asfixiada por mecanismos que escapam de seu controle.

 

Não adianta bater o martelo, soltar despachos em tom autoritário ou posar como defensor da democracia. Contra a lei internacional, contra a pressão financeira de potências, o seu poder é impotente.

 

O prazer quase perverso para aqueles que acompanharam os anos de abusos não está apenas na queda em si, mas na forma como ela ocorre: não é a oposição interna, nem os discursos inflamados dos que sempre o criticaram. É a máquina fria da diplomacia internacional, movida não pela emoção, mas pelo cálculo.

 

Há uma sensação de justiça no ar. Justiça que não veio dos tribunais brasileiros, mas da lógica implacável das relações globais.

 

O futuro de um homem sitiado

 

O desfecho ainda está em curso, mas a tendência é clara: a vida financeira e social de Alexandre de Moraes e sua família caminham para a esterilidade. Um deserto em que qualquer fonte de renda legítima ou paralela é vista como suspeita.

 

E assim, ironicamente, o ministro que parecia intocável tornou-se um exemplo global de que o poder, quando usado de forma arbitrária, cobra sua fatura — cedo ou tarde.

 

O Brasil pode até continuar a aplaudi-lo em certos círculos, mas o mundo já começou a virar as costas. E a história, essa cronista impiedosa, escreverá que quem se julgou acima de todos descobriu o peso real da justiça quando ela veio de fora (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 26/9/25)