Acorda, direita: O jogo é real - Por Paula Sousa
Imagem Rerodução Associação Conservadora de Direita de Toledo (PR)
Muita gente na direita vive hoje em uma bolha perigosa, achando que a eleição já está no bolso porque "todo mundo que eu conheço é conservador". Cuidado. Esse excesso de confiança é o primeiro passo para a derrota.
O Brasil é, sim, conservador, mas não do jeito que você imagina.
O mito da maioria pronta
Existe uma ideia espalhada por aí de que a maioria do povo brasileiro é "bolsonarista raiz" e que basta bater o pé nas pautas mais extremas que a vitória vem sozinha.
Isso é um erro estratégico gigante. Se o povo fosse tão puramente conservador e ideológico assim, como explicamos o PT ter vencido tantas eleições presidenciais? Um povo 100% conservador jamais daria tantos mandatos para a esquerda.
A verdade é que o brasileiro médio é conservador nos costumes, mas ainda é profundamente estatista e assistencialista no bolso.
O brasileiro é religioso, é contra o aborto, é contra a liberação das drogas e defende a família. Mas, ao mesmo tempo, esse mesmo brasileiro foi criado sob o manto da mídia tradicional e de uma cultura que ensinou que o Estado é um "pai" que deve dar tudo. Ele quer a vaga na creche, quer a ponte na cidade, quer o benefício no final do mês e, muitas vezes, não quer saber se o político que deu isso é de direita, de esquerda ou de Marte.
O eleitor do "vi vantagem" e o silêncio da política
Precisamos encarar o fato de que uma parcela enorme da população não respira política 24 horas por dia como nós. Eles foram criados com aquela frase antiga: "política, futebol e religião não se discute" e que todo político é ladrão.
Esse povo quer trabalhar, chegar em casa, tomar uma cerveja e ver o jogo. Eles só vão se importar de verdade com quem está em Brasília quando o pacote de café de 500g chegar a R$ 50,00.
O voto desse eleitor é o voto do "vi vantagem". É o pragmatismo puro. Se o deputado do centrão conseguiu uma ambulância para o município, ele ganha o voto, independentemente da ideologia ou da honetidade.
É esse eleitor, que não é politizado e que flutua conforme a conveniência, que decide a eleição. E se a direita se recusar a falar com esse pessoal por "pureza ideológica", a esquerda vai lá e fala.
Flávio Bolsonaro e a estratégia do mundo real
Aqui entra o ponto que faz muita gente da "direita raiz" torcer o nariz: as alianças. Tem gente reclamando que o Flávio Bolsonaro está conversando com o Centrão, fazendo acordos com figuras como Ciro Gomes ou até se aproximando de antigos desafetos. Chamam isso de "traição".
Parem e pensem: isso não é ir para o Centrão, é trazer o Centrão para a direita.
Para ganhar uma eleição presidencial no Brasil, você precisa de uma Frente Ampla. No segundo turno, o voto da direita convicta já está garantido. O desafio é conquistar o pessoal do meio, os eleitores de Caiado, de Zema, e até aqueles que hoje votam no Centrão.
Se o Flávio ficar isolado em um canto, gritando apenas para quem já concorda com ele, ele não vence. Ele precisa engolir sapos, costurar apoios e fazer concessões que, embora amargas, são o combustível da vitória.
A metáfora do tratador de porcos
O Estado brasileiro muitas vezes funciona como aquele tratador que joga lavagem para os porquinhos. Os porcos ficam felizes, adoram a comida fácil e acham o tratador um herói.
O problema é que eles esquecem que a comida serve apenas para engordá-los para o abate.
O político que oferece o "almoço grátis" hoje é o mesmo que vai cobrar a conta amanhã através da inflação e da destruição da economia.
O nosso papel é mostrar isso para o povo, mas com inteligência. Não adianta chegar com arrogância e chamar o eleitor de burro. É preciso entender que esse processo de "amadurecimento" é lento. Até 2010, quase ninguém falava em privatização ou em redução do Estado. Ser de direita era quase um palavrão. Esse cenário está mudando graças à internet e à perda de força da mídia tradicional, mas a Rede Globo e companhia ainda têm um poder enorme sobre a cabeça de milhões de brasileiros.
A janela de oportunidade
O PT já está com o calendário na mão. Eles sabem que, após o fechamento da janela partidária em abril, o alvo será o Flávio Bolsonaro.
Vão usar todas as armas: fake news, ataques pessoais e tentativas de minar sua imagem perante o centro. Eles esperam que ele caia nas pesquisas para que a direita se desespere.
Mas Flávio está preparado. Lula e o PT dificilmente conseguirão reverter a rejeição que já ultrapassa os 50%, de acordo com as últimas pesquisas.
A campanha de fato ainda não começou e a direita precisa de uma coisa: maturidade política.
Não se ganha guerra apenas com coragem; ganha-se com estratégia.
Conclusão: É hora de crescer
O eleitor de direita precisa parar de caçar traidores dentro da própria casa por causa de detalhes.
Precisamos de união. Se quisermos que o Brasil seja realmente um país conservador e livre no futuro (em 2030, 2034 e além), precisamos vencer hoje com as ferramentas que temos.
O conservadorismo no Brasil é um gigante que está acordando, mas ele ainda está meio tonto, sem entender bem como a economia e o Estado funcionam.
Nossa missão é guiar esse gigante, não deixá-lo sozinho porque ele ainda não é "puro" o suficiente.
Menos frescura, mais pragmatismo. O jogo é bruto, e quem não sabe fazer aliança acaba assistindo a posse do adversário de camarote.
Vamos trazer o centro para o nosso lado, explicar o perigo da "lavagem" estatal e entender, de uma vez por todas, que política se faz para ganhar e mudar a realidade, não para ter razão e continuar perdendo. (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 2/4/2026)

