06/03/2026

Agropecuária compensa desaceleração de componente cíclica do PIB

Agropecuária compensa desaceleração de componente cíclica do PIB

Imagem Reprodução Blog Comex do Brasil

 

Por Fernando Dantas

 

Diante do arrefecimento do consumo e do investimento doméstico, o crescimento do PIB em 2025 tornou-se profundamente dependente de componentes exógenos, como agro e petróleo.

 

O desempenho da economia brasileira em 2025 foi marcado por forte desaceleração da componente cíclica do PIB - aquela que reage mais diretamente à política monetária. Esse segmento, que havia registrado uma expansão de 4,5% em 2024, viu seu ritmo cair para apenas 1,5% em 2025. O movimento sinaliza que o aperto monetário conduzido pelo Banco Central cumpriu seu papel de desaquecer a demanda interna, somando-se a uma postura fiscal que variou entre a neutralidade e uma leve contração, dependendo da métrica utilizada.

 

Diante do arrefecimento do consumo e do investimento doméstico, o crescimento do PIB em 2025 tornou-se profundamente dependente de componentes exógenos. Trata-se de setores cujas dinâmicas dependem menos das taxas de juros locais e mais de fatores climáticos e da demanda externa, como a agropecuária e a indústria extrativa mineral (impulsionada pelo petróleo).

 

A agropecuária, isoladamente, saltou expressivos 11,7% em 2025. Contudo, olhar apenas para a porteira da fazenda pode ser redutor. Como destaca Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP, o peso direto do setor no PIB (7,1%) não traduz sua real influência. Ao considerar o agronegócio como um todo - englobando a indústria alimentícia, o comércio de insumos e a vasta rede de serviços e logística voltada à exportação -, o complexo responde por aproximadamente 25% da economia nacional.

 

Mesmo que o agronegócio expandido não tenha acompanhado o ritmo frenético da produção primária, ele foi o pilar que sustentou o crescimento de 2,3% do PIB total no ano passado.

 

Apesar do crescimento de 2,3% do PIB em 2025, a expansão na margem está quase parada há três trimestres. Os dados mostram um PIB "andando de lado" nesse período, com variações dessazonalizadas ante o trimestre anterior de 0,3%, 0,0% e 0,1% no segundo, terceiro e quarto trimestres do ano passado, respectivamente.

 

Essa estagnação, entretanto, criou um efeito de base deprimida que pode facilitar uma surpresa estatística no início de 2026. Segundo Rocha, se o primeiro trimestre apresentar um crescimento de 1,8% em relação ao mesmo período de 2025, a variação dessazonalizada contra o trimestre imediatamente anterior poderá se aproximar de 1%, interrompendo a sequência de inércia.

 

As perspectivas para o novo ano estão ancoradas na reanimação econômica típica de anos eleitorais. O gestor da JGP vê uma política fiscal mais expansionista, menos por uma questão de volumes e mais pela composição. A isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil (e redução até R$ 7 mil) deve injetar algo entre20 bilhões e R$ 25 bilhões na economia. Por ser direcionado a faixas de renda com maior propensão marginal a consumir, esse recurso tende a retornar quase integralmente ao comércio e serviços, estimulando o PIB de forma mais eficaz.

 

Complementando o estímulo fiscal, o cenário aponta para uma aceleração do crédito direcionado e do consignado privado. Para maximizar o impacto político e econômico, o governo pode antecipar o cronograma de pagamentos de emendas e precatórios, concentrando a injeção de recursos no primeiro semestre para contornar as restrições da legislação eleitoral. O desafio, portanto, será converter essa injeção de curto prazo em crescimento sustentável sem pressionar a inflação (Estadão, 6/3/26)