Arroba de boi fica mais cara para mercado interno e externo
Gado em fazenda de Barretos, no interior de São Paulo. Foto Joel Silva/Reuters
Por Mauro Zafalon
- Preço acumula alta de 10% no campo neste ano; em dólar, o aumento chega a 18%
- Valor é resultado dos investimentos feitos na pecuária em 2021 e 2022, o que melhorou a oferta
A arroba de boi gordo começou o ano custando R$ 319 no estado de São Paulo. Agora, está em R$ 351, uma alta de 10%. Isso encarece o produto para o consumidor nacional. O mercado externo, no entanto, também não está livre de uma pressão da proteína brasileira. Com a alta da arroba no campo e a queda do dólar no mercado interno, o preço do boi gordo, em dólares, subiu 18% neste ano. No início de janeiro, a arroba correspondia a US$ 58. Agora, a US$ 68,5.
Poucas vezes, o preço da arroba superou US$ 60. Isso ocorreu em agosto de 2008, em novembro de 2010, em junho de 2021 e em março de 2022, quando atingiu o recorde de US$ 73. Em reais, o valor da arroba sai de uma média anual de R$ 255, em 2023 e em 2024, e sobe para R$ 330 neste ano.
O preço recente é resultado dos investimentos feitos na pecuária nos anos de 2021 e 2022, o que melhorou a oferta em 2023, 2024 e início de 2025, diz Thiago Bernardino de Carvalho, analista do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada). Esses investimentos se refletiram no avanço da produção brasileira, levando o país a ser o maior produtor mundial, ultrapassando os Estados Unidos, segundo o Usda (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos).
A estrutura dos confinamentos, que estão ficando cada vez maiores, permitiu ao país colocar 9,25 milhões de animais nesse sistema, 21% de todos os animais abatidos, diz Carvalho. A produção sustentou não só o aumento de exportações como também uma recuperação da demanda interna.
O que aconteceu nessa virada de ano? Além de um ritmo menor na oferta de animais de confinamento, típico do período, a chuva melhora o pasto, há um manejo dos animais e uma retenção maior de fêmeas para a inseminação. Isso gerou uma queda de braço entre pecuaristas e frigoríficos. "A oferta no campo está sendo ajustada."
As exportações brasileiras estão favoráveis. A China vem comprando bem e outros países, como os Estados Unidos, retomaram ao mercado brasileiro. A baixa oferta de carne no mundo ajuda a entender esse momento das boas exportações brasileiras, mas tudo agora vai depender do câmbio. O dólar no patamar R$ 5,15, e a arroba a R$ 351, torna a carne brasileira menos competitiva em relação a outros concorrentes.
Esse é o cenário para entender a mudança de comportamento no setor, diz Carvalho. A produção menor vinda do campo reduz a disponibilidade de carne para o menor patamar dos últimos 14 meses. O analista do Cepea acredita que, pelo menos até março e abril, a expectativa é de preços em patamares firmes.
Já o segundo semestre será uma incógnita, devido à China. Para Carvalho, se o Brasil mantiver uma produção mais ajustada no campo e exportações menores, haverá um equilíbrio vindo da demanda interna. Este será um ano de maior fluxo financeiro internamente, com a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000, eleições e de Copa do Mundo.
As exportações brasileiras para a China devem diminuir e, talvez, o Brasil venda cortes mais baratos, como do dianteiro. Se China e Estados Unidos comprarem mais da Argentina, como prometem, países abastecidos pelos argentinos virão para o Brasil, afirma ele (Folha, 27/2/26)

