08/09/2026

Ato de Flávio Bolsonaro na av. Paulista vira protesto contra Moraes

 

Ato organizado por Flávio Bolsonaro na avenida Paulist Foto Alexandre Meneguini Reuters Reprodução Jornal Estado de São Paulo

 

Ato de Flávio Bolsonaro na av. Paulista vira protesto contra Moraes

"Eu já estava propenso a vir, mas essa última semana me fez estar aqui na Avenida Paulista hoje". A fala do empresário paulista Luciano Romão, de 55 anos, resume o clima da manifestação convocada pelo senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) neste feriado de 7 de Setembro.

A última semana a que Romão se refere começou no dia 1º de setembro, quando foram reveladas, por ordem do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), as mensagens extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.

Os diálogos revelam uma série de interações de Vorcaro com um contato dele salvo com o nome de Alexandre de Moraes e mostram trocas de informações sobre a Operação Compliance Zero, que investiga um suposto esquema bilionário de fraudes envolvendo o Banco Master, e sobre o contrato de R$ 131 milhões firmado entre o Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro do Supremo.

A decisão de Mendonça abriu uma crise considerada sem precedentes no STF, levando Moraes a incluir o colega no chamado inquérito das fake news — retirado posteriormente pelo presidente da corte, ministro Edson Fachin.

"Quando você vê o André Mendonça, lutando pelo que é certo, tentar ser tirado como o errado, e o outro se fazer de vítima da vez depois de assinar contrato com Vorcaro, aí você olha e realmente perde o sentido", argumentou Romão, presente pela segunda vez para um ato na Paulista.

Na primeira, ainda havia a presença do ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje preso por tentativa de golpe de Estado.

Os apoiadores de Flávio Bolsonaro chegaram à Avenida Paulista, coração de São Paulo, durante o início da tarde. Por volta das 15h, várias lideranças do bolsonarismo já faziam discursos contra Moraes e o STF e a favor de Mendonça. Entre os presentes estavam o prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o pastor Silas Malafaia.

Apesar do impulso da crise no STF, o protesto reuniu 28,5 mil pessoas no seu auge, segundo levantamento do Monitor do Debate Político - USP/Cebrap e em parceria com a organização More in Common.

O grupo tem calculado o volume de manifestantes em protestos empregando um método que usa um drone tirando fotos aéreas da multidão. Um software analisa essas imagens para identificar e marcar automaticamente as cabeças das pessoas. Usando inteligência artificial, o sistema localiza cada indivíduo e conta quantos pontos aparecem na imagem.

No ato de 7 de setembro de 2025, o monitor estimou 42,2 mil pessoas na Paulista e 42,7 mil em Copacabana, no Rio de Janeiro. Em 2024, estiveram 45,4 mil pessoas na Paulista. Portanto, o ato de 2026 foi considerado menor.

Nas ruas, manifestantes usavam verde a amarelo e adesivos de candidatos da direita enquanto ouviam os discursos no palco montado em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp).

O Dia da Independência do Brasil teve santinhos, bandeiras de candidatos da direita e jingles de diversos gêneros, de brega funk a pagodão. Mas as bandeiras dos EUA e Israel, já parte da iconografia dos atos da direita, também eram vistas em meio ao verde e amarelo, junto a um boneco inflável gigante do presidente americano Donald Trump.

A Avenida Paulista foi reservada pelo PL ainda em agosto. Na época, o partido e Flávio Bolsonaro convocaram nas redes sociais o ato com o lema "Vamos juntos resgatar o Brasil".

Críticas a Moraes sempre estiveram presente em atos do bolsonarismo, já que o ministro foi o relator do processo que levou Bolsonaro à prisão por tentativa de golpe.

Mas foi apenas após a divulgação das mensagens de Vorcaro, em 1º de setembro, que a pauta "Fora Moraes" foi ganhando centralidade na manifestação.

A aposentada Vera Saraiva, de 64 anos, relatou que o teor das conversas de Moraes com Vorcaro é um "escândalo sem precedentes".

"Isso aqui não é casa da Maria Joana que eles fazem o que eles querem. Eles são o Supremo, eles têm que seguir a Constituição e não estão seguindo. Tem que ser feita uma limpa no STF, porque eles se acham os donos do Brasil", criticou.

Perguntada sobre o que ela achava da relação de Vorcaro com Flávio Bolsonaro, que pediu ao banqueiro milhões para o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, Vera disse não achar que o senador fez nada errado.

"Patrocínio, todos eles pedem, Vorcaro é um banqueiro. Também deve ter pedido a outras pessoas. Mas ele não usou a Lei Rouanet, que todo mundo usa e ninguém vê a cor do dinheiro", defendeu.

Para o servidor público Fábio Amaral, 51 anos, o erro de Flávio foi "não falar logo" da relação com Vorcaro.

"Porque corrupção é quem está no governo, e quem está no governo agora é o Lula", defendeu.

O servidor contou ainda que a relação com Vorcaro pode ter levado a uma queda de popularidade de Flávio, mas que a pauta "contra Moraes" o estimulou a ir a Paulista.

"A popularidade na verdade é do pai dele. Eu preferiria o Tarcísio, né? Mas se o pai dele escolheu ele...", completou o servidor.

O candidato do PL e Lula estão praticamente empatados nas pesquisas de intenção de voto para o segundo turno, com o herdeiro de Bolsonaro reconquistando o fôlego nas últimas semanas, mostra o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil.

Para Fábio, a direita precisa fazer um Senado forte nas eleições para próxima legislatura, "para poder dar um freio no STF".

"O Moraes abriu esse inquérito do fim do mundo [das fake news] que não acaba nunca. Chamo assim porque ele coloca tudo o que ele quer lá, inclusive o Mendonça", declarou.

Na noite de quinta-feira (3/9), Moraes encaminhou ao presidente da Corte, ministro Edson Fachin, um pedido de investigação contra o ministro André Mendonça, dois dias depois que este havia pedido a Fachin para levar ao plenário um relatório produzido pela PF contra Moraes indicando possíveis irregularidades na relação do juiz com Vorcaro.

Na petição, Moraes acusa o colega de, "em tese", ter cometido improbidade administrativa, crimes de responsabilidade e de abuso de autoridade, com quebra da "imparcialidade judicial" e "favorecimento a determinados grupos políticos" ao atuar como relator dos casos do escândalo do INSS ("Operações Sem Desconto") e do Banco Master ("Operação Compliance Zero").

Na quinta, Fachin deu cinco dias para que os ministros Moraes e Mendonça, além do Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, também citados nos diálogos de Vorcaro, se manifestem sobre a crise aberta.

Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, o confronto de Mendonça e Moraes coloca em xeque a imagem da Corte perante a sociedade, não parece ter uma saída previsível e representa uma crise sem precedentes, onde "ninguém está certo".

Para a cientista política e jornalista Grazielle Albuquerque, "aos olhos da sociedade, o tribunal parece estar implodindo. É uma crise enraizada por dentro e não parece ter saída previsível", diz.

Apoio a Mendonça e Moraes 'ditador'

No trio elétrico montado em frente ao Masp, candidatos do PL, deputados da direita e apoiadores de Flávio se revezaram no microfone pedindo impeachment de Moraes e apoio a Mendonça. O tom também foi de críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

"Não existe Lula sem Alexandre de Moraes e não existe Alexandre de Moraes sem Lula", disse o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), candidato a vice-presidente na chapa com Flávio Bolsonaro.

Flavio Bolsonaro começou o discurso, por volta das 16h20, pedindo "fora Lula e fora Moraes".

"O Lula é responsável por esse caos moral que o Brasil está passando hoje. Todo esse sofrimento e essa angústia que motiva cada um de nós a vir pra rua nesse 7 de Setembro, a culpa é dele. Quem vota em Lula vota em Alexandre de Moraes! Nós não vamos permitir que Lula indique mais quatro Alexandres pro STF. Eu vou indicar mais 5 ministros pro STF por que Alexandre vai cair", declarou Flávio.

O candidato prometeu indicar para STF "homens e mulheres que sejam contra o aborto, contra as drogas, contra a ideologia de gênero nas escolas, que respeitem a Constituição, que nao persigam adversários políticos e que retomem a credibilidade do Supremo".

O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) subiu no palanque para dizer que "ninguém, absolutamente ninguém, está acima da lei e da Constituição. Banqueiro nenhum, senador nenhum, magistrado nenhum, ministro nenhum, governador nenhum, presidente da república nenhum. Todos precisam se submeter ao império da lei, doa a quem doer, custe a quem custar".

O pastor Silas Malafaia chamou Moraes de "ditador" ao comentar a decisão que tomou seu passaporte e o impede de fala com Bolsonaro. Ele pediu a Fachin que afaste Moraes no STF (BBC News Brasil, 7/9/26)

Em carta a Fachin, ministros aposentados manifestam apoio e cobram apuração 'pública' e 'rigorosa' diante de crise no STF

Ex-ministros dizem confiar na “seriedade, discernimento e firmeza” de Fachin.G Dettmar / CNJ

Ministros aposentados e ex-presidentes do Supremo Tribunal Federal (STF) enviaram uma carta ao atual presidente da Corte, Edson Fachin, pedindo uma apuração pública, 'imediata e rigorosa' na condução do tribunal diante do que classificam como a "mais aguda crise" de sua história recente.

Assinado por 13 ministros aposentados, entre eles Celso de Mello, Rosa Weber e Joaquim Barbosa, o documento ao qual a BBC News Brasil teve acesso pede, com urgência, a realização de uma sessão pública "para que o Pleno determine imediata e rigorosa apuração, sob o devido processo legal, dos gravíssimos fatos cuja divulgação vem comprometendo o prestígio e a autoridade desse Tribunal".

Segundo os signatários, a crise também compromete a confiança da população e a estabilidade das instituições democráticas.

Ministros que se aposentaram mais recentemente, como Luís Roberto Barroso, Marco Aurélio Mello e Ricardo Lewandowski — que foi ministro da Justiça e Segurança Pública no governo Lula (PT) — não assinaram a carta.

Confira a manifestação na íntegra:

"Os ministros aposentados e ex-presidentes, abaixo assinados, vêm manifestar plena confiança na seriedade, discernimento e firmeza de V. Exª na condução dessa Suprema Corte, na mais aguda crise de sua história, e a absoluta convicção de que V. Exª designará, com toda a urgência, sessão pública para que o Pleno determine imediata e rigorosa apuração, sob o devido processo legal, dos gravíssimos fatos cuja divulgação vem comprometendo o prestígio e a autoridade desse Tribunal, a confiança do povo e até a estabilidade das instituições democráticas".

Assinam o documento Néri da Silveira, Francisco Rezek, Sydney Sanches, Celso de Mello, Carlos Velloso, Ilmar Galvão, Nelson Jobim, Ellen Gracie, Cezar Peluso, Ayres Britto, Joaquim Barbosa, Eros Grau e Rosa Weber.

A manifestação ocorre em meio à escalada de uma crise que teve início com a divulgação de mensagens trocadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e um contato atribuído ao ministro Alexandre de Moraes.

O caso veio à tona na última semana, depois que o ministro André Mendonça, relator do inquérito do Banco Master no STF, retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal que reunia informações sobre as interações entre Vorcaro e Moraes.

Os diálogos mostram que o banqueiro cobrava atenção especial aos pagamentos do contrato de R$ 131 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.

A partir da análise dos metadados do arquivo do contrato entre o escritório Barci de Moraes e o Master, as investigações apontaram que o documento foi editado pelo ministro do STF.

Em nota, o escritório Barci de Moraes confirmou que, diante da abrangência do pedido de contratação de serviços advocatícios feito pelo Banco Master, seu setor de compliance consultou Alexandre de Moraes sobre a eventual existência de impedimentos legais para a celebração do contrato.

As mensagens obtidas pela investigação também indicam que Vorcaro teria pedido a Moraes que interferisse em seu favor junto ao diretor da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.

Em 15 de novembro de 2025, dois dias antes de sua prisão pela operação Compliance Zero, o banqueiro teria perguntado a Moraes via mensagem de celular: "Acha que segunda já tenho que estar fora?"

Com base no material, Mendonça pediu a Fachin que levasse ao plenário um pedido de investigação sobre a relação entre o ministro e o ex-controlador do banco, apontando possíveis irregularidades.

Já Procuradoria-Geral da República (PGR), instada por Mendonça a se manifestar, pediu a nulidade da investigação da PF e criticou os procedimentos adotados pelo ministro.

A escalada da crise entre os ministros

A tensão entre os dois ministros do STF escalou na quinta-feira (3/9), dois dias depois da manifestação de Mendonça.

Em despacho no âmbito do Inquérito das Fake News, do qual é relator, Moraes apresentou relatórios de inteligência da PF que, segundo ele, indicariam que Mendonça teria cometido, "em tese", improbidade administrativa, crimes de responsabilidade e abuso de autoridade, além de ter comprometido a "imparcialidade judicial" e favorecido "determinados grupos políticos" ao atuar como relator de casos envolvendo o escândalo do INSS e o Banco Master.

Entre as situações, o despacho acusa Mendonça de ter ordenado "diligência investigatória policial para a produção ilegal de provas contra o ministro Alexandre de Moraes".

Diante disso, Fachin solicitou formalmente esclarecimentos a Moraes e Mendonça, além do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. O presidente do STF deu prazo de cinco dias para que os envolvidos se manifestassem sobre a crise.

Na sexta-feira (4/9), Fachin retirou a análise contra Mendonça do caso do âmbito do inquérito das Fake News. No mesmo dia, durante evento ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), afirmou que a crise no tribunal reforçava a necessidade de encerrar a investigação.(BBC News Brasil, 8/9/26)