11/06/2026

Brasil deve ter maior safra de café da história, mas clima preocupa setor

Brasil deve ter maior safra de café da história, mas clima preocupa setor

IA Copilot

Por David Lucena

 

  • Conab projeta 66,7 milhões de sacas em 2026, alta de 18% sobre o ciclo anterior
  • Fenômeno climático pode comprometer floração e desenvolvimento dos frutos da safra de 2027

 

O Brasil deve ter este ano a maior safra de café da história, segundo projeções, mas a comemoração no setor é contida. Isso porque o setor se preocupa com o El Niño que se forma no Pacífico e que pode comprometer o desenvolvimento dos frutos que serão colhidos em 2027.

 

A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) projeta 66,7 milhões de sacas na safra 2026, alta de 18% sobre o ciclo anterior e o maior volume da série histórica —superando as 63,08 milhões de 2020. O USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) vai além e projeta 71,9 milhões de sacas.

 

As estimativas encontram respaldo no campo. Juliano Tarabal, diretor-executivo da Federação dos Cafeicultores do Cerrado Mineiro, diz que a expectativa é voltar ao patamar de 7 milhões de sacas na região, ante média de 5,2 milhões nos últimos dois anos. Por lá, assim como na maior parte do Brasil, a colheita ainda está no início —deve acelerar na segunda metade de junho.

 

Apesar da supersafra, dois fatores preocupam o setor. O primeiro é o nível dos estoques globais, que continua muito baixo após uma sequência de safras comprometidas nos últimos anos.

 

O segundo fator –e o que mais preocupa neste momento– é o El Niño. O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento anormal do Oceano Pacífico, pode alterar o regime de chuvas em regiões cafeeiras a partir do segundo semestre. Com isso, a floração e o desenvolvimento dos frutos que serão colhidos em 2027 podem ser comprometidos.

 

"Caso ocorram condições climáticas adversas que prejudiquem as lavouras e reduzam a produção, podemos enfrentar um cenário de restrição de oferta, o que, consequentemente, pode pressionar os preços para cima", diz Claudio Delposte, analista de café do Rabobank no Brasil.

 

Laleska Moda, analista da Hedgepoint Global Markets, afirma que a safra recorde brasileira contribui para baixar os preços, mas que esse movimento pode ser limitado pelas preocupações com o El Niño.

 

A NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA) aumentou para 82% a chance de o El Niño surgir entre maio e julho deste ano e para 96% a probabilidade de ocorrer entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027. O órgão ainda projeta que, entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, há 2 em 3 chances de o El Niño ser de intensidade forte ou muito forte.

 

Para o consumidor final, a tendência no curto prazo é de estabilidade ou até de leve queda nos preços. A expectativa da supersafra ajudou a baixar os preços da matéria-prima. Com isso, as indústrias conseguem recompor –ao menos em parte– os estoques defasados.

 

O impacto do El Niño –se houver– deve demorar para chegar às gôndolas, já que as grandes marcas trabalham com contratos previamente estabelecidos, o que ajuda a amortecer oscilações de curto prazo.

 

"Nesse momento, ainda é cedo para afirmar se haverá reajuste relevante nesse segundo semestre", diz Celírio Inácio, diretor-executivo da Abic (Associação Brasileira da Indústria de Café). Ele explica que o valor pago pelo consumidor final de fato depende em grande medida do que acontece no campo, mas que a definição de preço vai além disso (Folha, 11/6/26)