Chegada da PF a Jaques Wagner joga PT na panela do Master
Foto Divulgação PT
Elio Gaspari
· Líder do governo no Senado virou bomba-relógio para Lula
· Oposição torceria para que ele ficasse no posto até outubro
A entrada do senador Jaques Wagner no panelão do Banco Master era uma questão de tempo. A oposição repetia há meses que as delinquências de Daniel Vorcaro começaram na Bahia. Lá atrás, durante a Lava Jato, a polícia encontrou 15 relógios de luxo na casa do senador. Um deles, mimo da empreiteira Odebrecht, foi avaliado pela Polícia Federal em US$ 20 mil.
Ele explicou que eram imitações chinesas. Passaram-se dez anos, a PF foi lá e voltou a achar relógios. O senador voltou a dizer que eram imitações chinesas. A reprise transforma Wagner num caso raro de colecionador de falsificações chinesas.
O PT já havia deixado uma digital no caminho de Daniel Vorcaro quando o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega levou-o a Lula no final de 2024.
Em 2016, quando uma parte do PT foi apanhada pela Lava Jato, Wagner disse que "o PT se lambuzou". Na quinta-feira, lambuzou-se o líder do governo no Senado.
Depois do mensalão e do petrolão, o PT foi jogado na panela do caso Master. A ver como lida com ele às vésperas de uma eleição.
A diligência da PF ainda tem um longo caminho a percorrer. Em 2025, antes de sua primeira prisão, Daniel Vorcaro teria ameaçado "contar toda a história do Master". Correndo o risco de mofar numa cela, Vorcaro fingiu, por duas vezes, contar a história do Master; suas propostas de delação eram seletivas e foram rejeitadas.
Há uma curiosidade na trajetória de Vorcaro. Até 2020, eram raros os seus contatos com a cúpula da turma de Brasília. Era conhecido por suas festas milionárias e pela liberalidade com que recorria aos serviços femininos para entreter convidados. Quando percebeu que estava sentado numa pirâmide, Vorcaro atropelou.
Promoveu farofas no circuito Elizabeth Arden. Seu cunhado comprou o resort da família de um ministro do Supremo. Seu banco contratou por dinheiro gordo a mulher de outro, que voava em seus jatinhos. Cerejas do bolo: Guido Mantega levou-o a Lula sem registro na agenda, e o senador Ciro Nogueira apresentou um projeto que elevava de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Além disso, decidiu bancar um filme que contaria a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro para estrear durante a campanha do seu filho, Flávio.
Com outro braço, segundo a Polícia Federal, Vorcaro mantinha uma milícia privada para quebrar os dentes do jornalista Lauro Jardim. Esse crime ficou na intenção.
Eram ações de um banqueiro radioativo, lidando com os políticos a partir da imagem que tinha deles. Os fatos mostraram que seus alvos foram bem escolhidos.
A menos que ofereça uma colaboração veraz, Vorcaro mofará anos numa penitenciária, como mofou o patrono de sua classe, o americano Charles Ponzi (1882-1949), que ralou 14 anos na cadeia. Depois, ele veio para o Brasil e morreu pobre no Rio.
A chegada da Polícia Federal a Jaques Wagner mostrou a Vorcaro que falar pode se tornar o melhor negócio de sua vida. Talvez ele tenha percebido o que vários figurões não perceberam: a Polícia Federal sabe muito mais do que supõem os intocáveis de Brasília.
Bomba-relógio
Depois da ação da Polícia Federal, o senador Jaques Wagner transformou-se numa bomba-relógio na liderança do governo.
Se a oposição pudesse, mandaria um abaixo-assinado ao Planalto pedindo que o mantivesse até outubro.
Ressarcimento
O senador Jaques Wagner poderia redimir-se da promiscuidade que manteve com Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro, doando cinco ingressos para shows de Taylor Swift aos estudantes baianos melhor colocados no Enem.
Eles viajariam no jatinho de algum amigo do doutor.
Mendonça é obstáculo para esfarelar investigação do Master

Ministro André Mendonça, do STF. Foto Evaristo As-AFP
· Ao contrário de Sergio Moro, ministro do STF não tem projetos políticos
· Ele tampouco virou arroz de festa no circuito de palestras
As forças que já começaram a armar o bote para esfarelar as investigações do Caso Master, como fizeram com a Lava Jato, têm um obstáculo: o ministro André Mendonça.
Ao contrário do juiz Sergio Moro, ele e sua mulher não têm projetos políticos. Até agora, ele não se tornou arroz de festa no circuito Elizabeth Arden de palestras. Seus colaboradores no STF e na Polícia Federal são quase anônimos.
Alguns promotores da Lava Jato adoravam dar palestras, e um deles criou uma empresa para agenciá-las.
Na sua fase de delírio, parte da turma de Curitiba chegou a armar o direcionamento de multas para uma fundação que seria dirigida por eles.
Jogaram no lixo seus 15 minutos de fama.
Pai de Vorcaro acusa família de Sicário de assédio
· Advogados de Henrique Vorcaro dizem que parentes do chefe da milícia privada cobram dívidas
· O CV e o PCC, mais elegantes, ajudam familiares de quadros depois que eles morrem ou são presos
A repórter Constança Rezende revelou que os advogados de Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, acusam familiares de Sicário, o chefe da milícia privada do banqueiro, de assediar a família Vorcaro.
Pensavam que contratavam milicianos e, depois da morte de Sicário, os patronos fechariam a conta.
O Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital, mais elegantes, ajudam familiares de quadros de prestígio dos grupos depois que eles morrem ou são presos. A turma de Vorcaro arrisca virar uma unanimidade nacional, contra (Folha, 21/6/26)

