22/09/2026

China inicia auditoria a frigoríficos no Brasil

China inicia auditoria a frigoríficos no Brasil

Há expectativa de que a auditoria ajude nas tratativas para a abertura de mercado chinês para miúdos de bovinos e suínos do Brasil — Foto: Anffa Sindical/Divulgação

Cinco técnicos chineses vão percorrer estabelecimentos produtivos, laboratórios oficiais, abatedouros e fazendas em cinco Estados até o próximo sábado (26/9).

Começou neste domingo (20/9) a auditoria da China a frigoríficos de carnes bovina, suína e de aves do Brasil. Cinco técnicos chineses vão percorrer estabelecimentos produtivos, laboratórios oficiais, abatedouros e fazendas em cinco Estados até o próximo sábado (26/9), além de passar por Brasília (DF) para reuniões com o Ministério da Agricultura e representantes dos exportadores brasileiros.

Recentemente, em entrevista à CNN, o ministro da Agricultura, André de Paula, disse que há expectativa de anúncio de reabilitação de plantas de carne bovina que estão com as vendas suspensas para a China atualmente e de habilitações de novas unidades, bem como avanços para o início das vendas de miúdos de bovinos e suínos.

A comitiva chinesa chegou no início desse domingo (20/9) a Brasília, onde teve reunião com o Ministério da Agricultura. De lá partiu para Porto Alegre (RS). No Rio Grande do Sul, os técnicos vão visitar o Laboratório Federal de Defesa Agropecuária (LFDA) e uma planta de suínos no interior do Estado.

De lá, o grupo partirá para o Paraná onde visitará um frigorífico de aves nesta terça-feira (22/9). O itinerário inclui ainda duas visitas a abatedouros, de aves e bovinos, no interior de São Paulo na quarta-feira (23/9) e a uma fazenda em Rondônia, na quinta-feira (24/9). A passagem pelo Estado incluirá ainda a auditoria a mais duas plantas de carne bovina. Depois, os técnicos seguirão para uma reunião final com o Ministério da Agricultura em Cuiabá (MT).

Atualmente, cinco frigoríficos exportadores de carne bovina estão com a habilitação suspensa para a China: as unidades da JBS em Vilhena (RO), que será visitada pelos chineses, e em Pontes e Lacerda (MT), a Prima Foods em Araguari (MG), a Frialto em Matupá (MT) e a SulBeef, em Várzea Grande (MT). Já a Copacol, de Cafelândia (PR), está impedida de comercializar carne de aves. Não há bloqueios no momento para frigoríficos de carne suína.

Como a China reconheceu o status brasileiro de país livre de febre aftosa sem vacinação, há expectativa de que a auditoria ajude nas tratativas para a abertura de mercado de miúdos de bovinos e suínos do Brasil para lá (Gllobo Rural, 21/9/26)

Uruguai liberou excedente de cota chinesa de carne bovina para o Brasil, diz Lula

Há dúvidas no mercado sobre a validade dessa concessão de excedentes de cotas entre fornecedores de carne à China — Foto: Canva/Creative Commons

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva informou, em postagem no X, que o Uruguai autorizou o Brasil a utilizar o excedente da cota uruguaia de exportação de carne bovina para a China em 2026. A medida foi anunciada após encontro com o presidente uruguaio, Yamandú Orsi, em Nova York, nesta segunda-feira (21/9).

"Tratamos de temas da agenda bilateral, em especial infraestrutura e comércio agrícola. Agradeci a autorização concedida ao Brasil para uso do excedente da cota uruguaia de exportação de carne bovina para a China", escreveu Lula no X.

O tema estava em discussão há meses. Como revelou a reportagem em julho, o Ministério da Agricultura brasileiro propôs ao governo do Uruguai uma "troca" de cotas para que o Brasil pudesse vender mais à China.

A negociação original envolvia o repasse, pelo Brasil, da sua parcela da cota do Mercosul de exportação de carne bovina resfriada para a União Europeia com tarifa reduzida, já que esse mercado está temporariamente fechado por falta de comprovação no controle de uso de antimicrobianos. Em troca, o Uruguai concederia o volume não ocupado na cota chinesa.

Não há confirmação, no entanto, se os termos acertados nesta segunda-feira envolvem a troca de cotas.

A cota do Uruguai para exportação de carne bovina para a China sem tarifa extra em 2026 é de 331 mil toneladas. Segundo fontes, cerca de 80 mil toneladas poderiam ser repassadas ao Brasil, o equivalente a cerca de um mês de embarques brasileiros para os chineses.

Há dúvidas no mercado sobre a validade dessa concessão de excedentes de cotas entre fornecedores. Isso porque a gestão dos volumes autorizados é feita integralmente pela China.

"Se a China decidir que essa cota é intransferível, o Brasil não vai ter acesso à cota do Uruguai, da Argentina, dos Estados Unidos, da Nova Zelândia. Depende da posição chinesa. Esse é o ponto central, se não tiver o aceite chinês não vai mudar a dinâmica de exportação chinesa", disse o consultor da Safras e Mercado, Fernando Iglesias (Globo Rural, 21/9/26)

Setor de carne bovina vê 'efeito limitado' de aproveitamento da cota uruguaia para a China

importante para os frigoríficos nacionais no ano que vem diante da perspectiva de que a cota brasileira, de 1,128 milhão de toneladas, se esgote até abril — Foto Getty Images

Negócios com uso do volume excedente do Uruguai coincidiriam com a retomada das vendas brasileiras já para preenchimento da cota de 2027.

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) avaliou como positiva a possibilidade de uso do excedente da cota uruguaia de exportação para a China anunciada nesta segunda-feira (21/9) pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Por outro lado, a entidade disse que um eventual aproveitamento do volume não ocupado pelos uruguaios, medida que ainda depende de aval de Pequim, teria "efeito limitado" em 2026 por conta do tempo necessário para negociação, embarque e trânsito da mercadoria até a China.

Na avaliação do setor, os negócios com uso da cota uruguaia coincidiriam com a retomada das vendas brasileiras já para preenchimento da cota de 2027, a partir do fim de outubro e começo de novembro, com previsão de chegada das cargas na China em janeiro.

A medida pode ser importante para os frigoríficos nacionais no ano que vem diante da perspectiva da Abiec de que a cota brasileira, de 1,128 milhão de toneladas, se esgote até abril.

"Para 2027, a medida pode representar uma alternativa importante, especialmente diante da cota brasileira de 1,128 milhão de toneladas e do risco de seu esgotamento já nos primeiros meses do ano, caso se mantenha o atual ritmo de vendas. A Abiec vem defendendo previsibilidade e mecanismos que permitam distribuir melhor os embarques ao longo do ano, preservando o fluxo comercial com o principal destino da carne bovina brasileira", informou em nota.

O governo brasileiro não divulgou detalhes da negociação nem como a medida será implementada. A avaliação entre lideranças do setor, analistas de mercado e membros da Esplanada dos Ministérios é a de que a concretização do acordo entre Brasil e Uruguai depende do aval oficial da China. No início do ano, Pequim negou pedido brasileiro para a redistribuição de cotas não utilizadas para outros fornecedores.

Consultados, os ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) não se posicionaram. Uma fonte de Brasília ressaltou que o anúncio foi fruto de uma conversa entre presidentes, mas que ainda não há nada oficializado. O Itamaraty disse que o tema deve ser respondido pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República, que ainda não retornou.

O setor frigorífico brasileiro tentou convencer o governo a adotar um mecanismo de divisão da cota desde o início do ano, sem sucesso. A gestão dos volumes autorizados é feita pelo Ministério do Comércio da China (Mofcom, na sigla em inglês), no âmbito da salvaguarda chinesa de proteção À indústria local, o que impediria o controle pelo país exportador. Houve receio em Brasília de que alguma medida nesse sentido pudesse ser encarada como interferência na livre concorrência e o tema fosse judicializado.

A Terra Investimentos ressaltou, em comunicado, que ainda não houve confirmação da possibilidade de aproveitamento da cota uruguaia pelo Brasil pelas autoridades da China. A consultoria apontou também que não foram divulgadas informações sobre volumes, ano de vigência e eventual contrapartida para o acordo.

"Se confirmada e válida ainda para 2026, a medida reabriria parte do escoamento à China no 4º trimestre, com viés de sustentação para a arroba e para o BGI (contrato futuro de boi gordo) na B3. A janela, porém, seria curta, pois a China contabiliza a cota pela data de chegada da carne. Até o aval de Pequim, tratamos o tema como manchete não confirmada", escreveram Geraldo Isoldi e André Fernandes Diogo, da Terra Investimentos.

Progressão da cota

Dados da Administração-Geral de Alfândegas da China (GACC, na sigla em inglês) compilados pela consultoria Safras & Mercado mostram que o Brasil já ultrapassou a cota de 1,106 milhão de toneladas de carne bovina in natura prevista para 2026. O volume autorizado é taxado em 12% e o excedente paga mais 55%, total de 67% de tarifa, o que, segundo o setor, inviabiliza os negócios.

De janeiro a agosto, entraram na China 1,144 milhão de toneladas de carne brasileira, segundo os dados divulgados pela consultoria, o equivalente a 103,5% da cota, com 38,75 mil toneladas além da cota.

Apesar disso, ainda não houve divulgação de comunicado oficial da China com a informação do atingimento dos 100% da cota. Segundo Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado, a situação leva a crer que os modelos de contabilização da salvaguarda e das importações são diferentes. Um é feito pelo Mofcom e outro pela GACC.

Os dados de importação da China são diferentes das informações de exportações do Brasil. Isso porque os chineses consideram aquilo que entrou nos portos a partir de 1º de janeiro de 2026, o que inclui cargas que saíram dos frigoríficos brasileiros ainda em 2025.

"O dado de importação de carne bovina da China aponta para 132 mil toneladas de carne bovina brasileira internalizadas pela China durante o mês de agosto, o que aponta para o esgotamento da cota, inclusive em torno de 39 mil toneladas já excederam esse volume", informou a consultoria em comunicado nesta segunda-feira (21/9).

Uruguai

Pelos dados divulgados pelos chineses, as importações de carne uruguaia chegaram a 101,7 mil toneladas até agosto. Com isso, haveria um volume remanescente de 222,2 mil toneladas a serem ocupadas entre setembro e dezembro. Parte disso poderia ser concedido ao Brasil, segundo o acordo anunciado mais cedo por Lula e o presidente uruguaio, Yamandú Orsi.

Fernando Iglesias, da Safras, avaliou ainda que o Uruguai exportou 8,5 mil toneladas de carne bovina para a China em julho, 10,8 mil toneladas em agosto e 3 mil em setembro. Essas cargas ainda estão em trânsito e consumirão parte da cota.

"Com o que foi internalizado, tem de 202 mil a 205 mil toneladas não utilizadas pelos uruguaios. Eles estão bem conservadores no volume de exportação", disse à reportagem. "O que precisamos analisar é se realmente a China dará o aceite para o Brasil acessar a cota uruguaia, o que é difícil dado o perfil chinês", completou.

Ele ressaltou também que os cortes exportados por frigoríficos uruguaios e brasileiros são diferentes. "São questões diferentes, tem muitos pormenores para analisar o que vai acontecer de fato", indicou.

Salientou ainda que o volume de exportação do Brasil para a China tem diminuído a cada semana e deve continuar deprimido até o último bimestre, quando serão iniciadas as vendas projetando a cota 2027. "A indústria frigorífica brasileira volta a solicitar a organização da cota, para que não ocorram vazios de exportação como está acontecendo em 2026", acrescentou (Globo Rural, 21/9/26)