17/03/2026

China se aproxima mais dos EUA, e agronegócio do Brasil perde

China se aproxima mais dos EUA, e agronegócio do Brasil perde

He Lifeng, vice-premiê daChina, e Scott Bessent, secretário do Tesouro dos EUA, em encontro em Paris. Foto Peng Ziyang Xinhua

Por Mauro Zafalon

·         Além de acordo na soja, Pequim deve elevar compra de carnes e grãos

·         Com Trump, americanos têm menor participação no mercado mundial

 

Principal parceira comercial do Brasil no agronegócio, a China se aproxima mais dos Estados Unidos. Na reunião que americanos e chineses realizaram em Paris neste domingo (15) e nesta segunda-feira (16), esteve em discussão uma maior abertura de compras de produtos agrícolas dos Estados Unidos pela China. Além de já ter sido acertada a aquisição de 25 milhões de toneladas por safra nos próximos três anos, as negociações avançam para outros produtos, entre eles carnes e grãos.

Donald Trump tem sido o maior incentivador do agronegócio brasileiro, fazendo com que parte dos principais países importadores de produtos do setor, principalmente a China, se volte para o Brasil.

Quando Trump assumiu a Casa Branca pela primeira vez, em 2017, os EUA exportavam US$ 23 bilhões em produtos relacionados ao agronegócio para os chineses, valor que recuou para US$ 13 bilhões em 2018. Quando deixou o governo, as exportações voltaram a subir, atingindo US$ 41 bilhões em 2022. Ao retornar à Presidência, fez as exportações americanas para a China recuarem para US$ 10,3 bilhões, no ano passado.

No fim deste mês, se a guerra contra o Irã permitir, Trump deverá se reunir com Xi Jinping, mas o governo americano não tem mais na manga a carta de pressão de pesadas tarifas. A Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou essas sobretaxas. As negociações parecem mais favoráveis aos chineses neste momento, até porque os americanos precisam dos minerais críticos de Pequim. Mesmo assim, as compras relativas ao agronegócio de produtos dos EUA pelos chineses devem avançar.

Trump tem colocado os produtores americanos em uma situação delicada, apesar de eles ainda nutrirem uma forte admiração pelo presidente. O país passa pelo terceiro ano de alta nos custos de produção e de queda nas receitas. Este ano não parece ser diferente, pois o fechamento do estreito de Hormuz não dá alívio ao setor. Por lá, passam 20% do petróleo e 30% dos fertilizantes, dois produtos de peso na formação dos custos no setor agrícola.

Além do aumento acelerado desses produtos, os prêmios de seguro dispararam, passando de 0,02% do valor da embarcação para 1%, segundo a Reuters. Essa pressão se espalha para todo o transporte mundial.

Alguns números apontam o quanto os Estados Unidos perderam com Trump e o quanto o Brasil avançou. Em 2022, já durante o governo Biden, os Estados Unidos exportaram 30,2 milhões de toneladas de soja para a China. No ano passado, no retorno do presidente, o volume recuou para 7,4 milhões. No mesmo período, o Brasil saiu de 53,6 milhões de toneladas para 85,4 milhões.

Os Estados Unidos perderam mercado também nas exportações de carnes, principalmente na bovina, deixando espaço para o Brasil. Em 2022, os americanos colocaram 242 mil toneladas de carne bovina na China, volume que caiu para 59 mil no ano passado. Já o Brasil aumentou o volume de 1,2 milhão de toneladas para 1,7 milhão no mesmo período. Não foi diferente com o milho. As exportações americanas caíram, e as brasileiras, apesar de a China estar com menor presença no mercado externo, subiram.

O Brasil continua sendo um importante fornecedor para os chineses, mas, para manter exportações de seus itens industrializados para os Estados Unidos, a China deverá elevar as compras de produtos relativos ao agronegócio dos americanos (Folha, 17/3/26)

SEGUNDA  CHAMADA – EDITORIA USINAS

Raízen e GPA deixam Ibovespa em meio a pedidos de recuperação extrajudicial REPETIR LOGO RAÍZEN EM PRETO

Grupo Pão de Açúcar anunciou acordo com credores na última terça-feira (10); Raízen na quarta (11).

O GPA (Grupo Pão de Açúcar) e a Raízen foram retirados do Ibovespa e dos demais índices da B3, confirmou a companhia organizadora da bolsa brasileira nesta segunda-feira (16).

 

A retirada da listagem dos papéis das companhias vem após ambas terem anunciado processos de recuperação extrajudicial. O GPA anunciou seu acordo com credores na terça-feira (10) e a Raízen na quarta (11).

 

No caso do GPA, os papéis passaram a ser negociados sob o título de "Recuperação Extrajudicial" no dia 11; já os da Raízen, 12.

 

Os títulos foram excluídos dos índices em que estavam listados ao seu preço de fechamento após o encerramento do pregão regular dos dias citados, e foram "redistribuídas proporcionalmente aos demais integrantes da carteira com o pertinente ajuste nos redutores".

 

Recuperação extrajudicial

 

O processo é menos amplo que a recuperação judicial tradicional, podendo ser focado em uma classe específica de dívidas e tendo menor envolvimento da justiça no decorrer do processo.

 

Ao longo dos últimos 20 anos, foram registrados 288 casos de recuperação extrajudicial, segundo levantamento do OBRE (Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial). Só em 2025, um recorde de 78 processos do tipo foi anunciado. Este ano já são sete.

 

Ambos os casos da última semana figuram entre as dez maiores recuperações extrajudiciais da história.

 

GPA

De acordo com fato relevante do varejista, o plano abrange determinadas obrigações de pagamento sem garantia que não constituem obrigações correntes ou operacionais da companhia, no montante total de aproximadamente R$ 4,5 bilhões.

 

"Ficam expressamente excluídas obrigações correntes junto a fornecedores, parceiros e clientes, bem como obrigações trabalhistas, que não serão afetadas", afirmou a empresa.

 

O acordo teve autorização unânime do conselho de administração.

 

Segundo o GPA, operações de lojas deverão seguir funcionando normalmente.

 

Raízen

 

No caso da Raízen, o plano envolve a renegociação de aproximadamente R$ 65,1 bilhões em obrigações, além de créditos intercompany (ou, como chamou a companhia, "créditos sujeitos").

 

Ao se debruçar sobre o plano apresentado pela empresa à CVM (Comissão de Valores Mobiliários), e somando estes aos outros R$ 65,1 bilhões, a dívida da companhia pode chegar a R$ 98,63 bilhões, segundo o OBRE.

 

A medida foi apresentada em conjunto com determinadas controladas e tem como objetivo viabilizar a reestruturação de dívidas financeiras quirografárias do grupo. De acordo com a companhia, o processo foi estruturado de forma consensual com seus principais credores financeiros.

 

Segundo a empresa, credores que representam mais de 47% das dívidas financeiras quirografárias já aderiram ao plano de recuperação extrajudicial.

 

Após o processamento da recuperação, o grupo terá standstill de 90 dias - prazo em que haverá suspensão temporária do pagamento de juros - para alcançar o percentual mínimo necessário para a homologação judicial do plano, o que possibilitará a vinculação de 100% dos "créditos sujeitos" a novos termos e condições de pagamento a serem definidos.

 

São apresentados dois caminhos para esses "créditos sujeitos" no fato relevante, de modo que o plano poderá envolver:

 

·         A conversão de parte dos "créditos sujeitos" em participação acionária na companhia;

·         A substituição de parte dos "créditos sujeitos" por novas dívidas.

·          

Ademais, o plano prevê a possibilidade de capitalização do grupo por seus acionistas e reorganizações societárias destinadas à segregação de parte dos negócios atualmente conduzidos pelo grupo.

 

O plano busca dar à empresa um ambiente protegido para preservar caixa, especialmente com a aproximação do início da safra de cana-de-açúcar, período que exige maior capital de giro.

 

A recuperação extrajudicial suspende apenas o serviço das dívidas financeiras, enquanto os pagamentos a fornecedores seguem normalmente (CNN, 16/3/54)