Com R$ 150 mi de Itaipu, parque em Belém tem só 1/3 de obras prontas
Foto Carlos Fabal AFP
- OUTRO LADO: Itaipu Binacional admite o atraso e diz que notifica Prefeitura de Belém
- Projeto do Parque Urbano Igarapé São Joaquim, no caminho do aeroporto, já havia empurrado ações de urbanismo nos bairros para depois da conferência da ONU
Descrito pela Prefeitura de Belém como um futuro "cartão de visitas", por estar no caminho do aeroporto, o Parque Urbano Igarapé São Joaquim é um espaço com amontoados de terra revirada, vigas em movimento, canal sem tratamento e máquinas pesadas operadas por trabalhadores.
A menos de 20 dias da COP30, a conferência do clima da ONU, as obras do parque, incluídas no conjunto de ações voltadas ao evento, estão muito atrasadas.
O que era para ser um "cartão de visitas" aos participantes da cúpula, que devem passar pelo local no caminho do aeroporto, tornou-se uma das intervenções mais lentas dentre as pensadas para a conferência.
A cidade receberá milhares de convidados a partir de 6 e 7 de novembro, quando ocorre o encontro de chefes de Estado e de governo. Logo depois, de 10 a 21, será realizada a COP30.
As obras são uma responsabilidade da Prefeitura de Belém, que é comandada por Igor Normando (MDB), primo de segundo grau do governador do Pará, Helder Barbalho (MDB).
O próprio andamento das obras informado pela prefeitura, num espaço na internet dedicado às iniciativas do município para a COP30, confirma o atraso.
Segundo a prefeitura, a primeira etapa do projeto –que é a área de 720 m de lado a lado de uma avenida, no entorno de um trecho do canal São Joaquim– tem 36,33% de execução. A atualização foi feita na última quinta-feira (16).
Dos R$ 174 milhões previstos em investimentos no projeto, R$ 150 milhões são bancados pela usina hidrelétrica de Itaipu Binacional. Os investimentos da usina em obras de infraestrutura em Belém, voltadas à COP30, somam R$ 1,3 bilhão.
Itaipu Binacional confirma o atraso. "Itaipu reconhece que a obra está atrasada e vem notificando e acompanhando o assunto junto à prefeitura", disse, em nota. A execução das obras é de responsabilidade do município, ressalta.
A Prefeitura de Belém afirmou, em nota, que o projeto vai promover transformação urbana e social, com criação de espaços que poderão abrigar manifestações culturais, como rodas de carimbó e cultos. As próximas etapas contemplam urbanização das margens do canal na área do Mirandinha, com paisagismo, drenagem e pavimentação, disse o município.
"A transposição sobre o canal São Joaquim funcionará como um pórtico simbólico de entrada da cidade, comunicando aos visitantes da COP30 o compromisso da gestão municipal com a valorização e requalificação de áreas antes esquecidas."
Operários atuam na instalação de bases no igarapé que funcionarão como uma transposição para o outro lado da ponte sobre o canal. Também está prevista a instalação de passarelas de pedestres —parte de uma passarela está no local.
Não há, até agora, qualquer sinal de intervenções para melhoria da urbanização da área, com reconstituição da vegetação e instalação de equipamentos de lazer nas margens do canal, como está previsto no projeto.
O Parque Urbano Igarapé São Joaquim fica numa área povoada de Belém, uma região mais periférica, carente de equipamentos urbanos de lazer e de serviços básicos, como coleta e tratamento de esgoto.
Segundo Itaipu, um convênio de R$ 165 milhões garante a realização das obras, com desembolsos feitos conforme a execução física do empreendimento.
"Até o momento, foram repassados cerca de R$ 76 milhões, dos quais R$ 50 milhões já foram aplicados na obra", afirmou. "A prefeitura e a empresa contratada se comprometeram a entregar a primeira fase do projeto, que compreende todo o entorno da ponte da avenida Júlio César, duas novas passarelas metálicas e trapiches de madeira."
Durante a COP30, o local não estará em obras, segundo Itaipu. "Até essa entrega parcial, serão desembolsados cerca de R$ 100 milhões."
Em abril, a Folha mostrou que o projeto do parque São Joaquim se concentrou na primeira etapa –a parte mais visível a quem passa pelo local, no caminho do aeroporto de Belém, e que agora está atrasada– e empurrou ações de saneamento e urbanismo nos bairros para depois da COP30.
Naquele momento, já havia atraso nas obras do parque, e a prefeitura dizia que a intenção era entregar o empreendimento antes do início da conferência da ONU.
"O primeiro trecho, que compreende 720 metros, tem previsão de entrega para antes da COP30, passando o local a ser um cartão de visitas da capital paraense para os turistas que chegarem", afirmou a prefeitura naquela ocasião.
O projeto inclui benfeitorias como ciclovias e praças, reconstrução de passarelas, vias para transporte público e reflorestamento das margens. As calçadas e novas construções, para lanchonetes, por exemplo, seriam feitas no estilo palafitas, para evitar aterramentos, que prejudicariam o leito do igarapé.
O canal São Joaquim tem cerca de 9 km de extensão. A área de influência é estimada em 31 km2. Recebe dejetos sem tratamento de uma área densamente povoada, de bairros como Sacramento, Telégrafo e Barreira. As margens perderam a vegetação original e são tomadas por lixo na maior parte do curso (Folha, 22/10/25)

