Confinamento segue firme apesar de custos altos e incertezas na demanda
Gado Confinado- Foto FS-Divulgação.jpg
A tendência é que o bezerro siga essa trajetória de alta, pressionando ainda mais o custo total da operação.
Após um primeiro trimestre marcado por valorização consistente da arroba do boi gordo, sustentada principalmente pela retenção de fêmeas e consequente redução da oferta de carne, o setor começa a recalibrar as expectativas diante de mudanças importantes na dinâmica de oferta, custos e mercado externo para o primeiro giro do confinamento.
A intenção do pecuarista de confinar animais segue firme, impulsionada sobretudo por preços melhores da alimentação. Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com os preços elevados dos animais de categorias mais jovens e do comportamento das exportações e os limites das cotas chinesas para a carne bovina brasileira.
Em fevereiro, a taxa de ocupação dos confinamentos ficou em 52,6%, patamar considerado dentro da normalidade para o período chuvoso. No entanto, o Índice de Reposição de Gado alcançou 1,328, acima do registrado no mesmo período de 2025, quando foi de 1,227.
Esse avanço indica que o ritmo de entrada de animais está mais acelerado neste ano, elevando gradualmente a lotação dos confinamentos e sinalizando uma oferta mais robusta de bois terminados a partir de maio.
Essa leitura é reforçada pelo pecuarista Lorenzo Junqueira, que observa uma mudança clara no comportamento do mercado ao longo do semestre. Segundo ele, o início do ano foi marcado por uma arroba firme, sustentada pela menor disponibilidade de animais, mas a entrada mais intensa de gado no confinamento a partir de fevereiro deve trazer reflexos a partir de junho, quando a oferta tende a aumentar de forma sazonal.
De acordo com o consultor da Agromove, Alberto Pessina, a reposição deve desafiar o confinamento neste ano. O boi magro — animal jovem, geralmente um novilho ou garrote, com cerca de 360 kg, ainda em fase de recria e pronto para entrar na etapa de engorda em confinamento — apresentou forte valorização e, em determinados momentos, chegou a custar entre 10% e 20% acima da arroba do boi gordo, elevando o custo de entrada no sistema.
“A tendência é que o bezerro siga essa trajetória de alta, pressionando ainda mais o custo total da operação”, informou Pessina.
Na prática, isso significa que uma parcela significativa do investimento do confinador está concentrada na compra do animal, reduzindo a margem de manobra mesmo em um ambiente de alimentação mais barata. A relação entre custo de produção e preço de venda segue bastante apertada, o que exige maior eficiência na gestão e no planejamento.
Apesar desse aperto, muitos produtores avaliam que o momento ainda é oportuno para aquisição de animais, considerando a expectativa de preços relativamente firmes para a arroba ao longo do primeiro semestre. A decisão de confinar passa, portanto, por uma análise cuidadosa da relação de troca e das oportunidades de mercado.
Outro fator central nesse contexto é o comportamento das exportações, especialmente para a China. O avanço no preenchimento das cotas de importação de carne bovina brasileira levanta dúvidas sobre o ritmo das compras ao longo do restante do ano.
Caso essas restrições se intensifiquem, o mercado interno pode absorver maior volume de carne, o que tende a reduzir o ímpeto de alta dos preços.
A ainda assim, a avaliação predominante entre analistas e agentes do setor é de que há pouca probabilidade de queda acentuada nas cotações. O cenário mais provável é de estabilidade ou de altas mais contidas, sustentadas pela oferta ainda ajustada em função da retenção de fêmeas.
Custos com a alimentação
Um dos principais fatores que sustentam a decisão do pecuarista de investir no confinamento neste primeiro giro é o alívio nos custos de alimentação.
Os preços do milho e da soja estão mais baixos em relação ao mesmo período do ano passado, favorecidos por boas safras tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, o que melhora significativamente a relação de troca para o confinador.
De acordo com o ICAP (Índice de Custo Alimentar Ponta), os gastos com alimentação no confinamento apresentaram comportamentos distintos entre as principais regiões produtoras no início do ano. Em relação a janeiro, houve recuo de 6,04% nos custos no Centro-Oeste, enquanto no Sudeste foi registrada alta de 2,76%.
Na comparação com fevereiro de 2025, a diferença se torna ainda mais evidente. O Centro-Oeste acumulou queda de 14,04% nos custos alimentares, refletindo um cenário mais favorável ao confinador, ao passo que o Sudeste apresentou leve avanço de 0,16% no mesmo período.
Segundo a Ponta Agro, o alívio observado no Centro-Oeste está diretamente ligado à redução de 7,14% nos preços de insumos energéticos, como sorgo grão seco e casca de soja, enquanto o milho grão seco permaneceu estável. Já no Sudeste, o principal fator de pressão veio do aumento expressivo de 17,3% nos custos com volumosos, o que elevou o custo total da dieta.
A empresa destaca que esse movimento acabou ampliando novamente a diferença de custos entre as regiões, após um período de maior aproximação observado no final de 2025.
Com base nesses dados, a Ponta Agro estima que a margem do confinamento no Centro-Oeste tenha alcançado R$ 197,27 por arroba, resultando em um lucro aproximado de R$ 1.028 por cabeça. No Sudeste, o custo foi calculado em R$ 215,10 por arroba, com lucro ligeiramente inferior, de R$ 1.021 por animal.
Mercado futuro
As expectativas para o mercado futuro do boi gordo refletem um cenário de relativa estabilidade com viés de alta moderada, embora marcado por incertezas importantes.
As indicações atuais apontam para preços ainda sustentados até abril e maio, em linha com a menor oferta de animais prontos. A partir de junho, o aumento da disponibilidade de bois oriundos do confinamento pode limitar movimentos mais expressivos de valorização (CNN, 6/4/26)

