Corrupção Lulista:Uma conexão entre respiradores, cannabis, Master e INSS
Por Paula Sousa
A história recente do Brasil parece um roteiro de cinema de quinta categoria, daqueles onde os vilões nem sequer tentam disfarçar o sotaque ou esconder os planos. Para o cidadão comum, que acorda cedo, paga uma das cargas tributárias mais abusivas do planeta e tenta sobreviver, o noticiário político é um teste diário de sanidade.
O governo de Lula da Silva, em sua terceira versão, tenta vender ao mundo a imagem de uma gestão pacificada, democrática e reconstruída. Mas, por trás dos discursos ensaiados e da maquiagem institucional, o que se vê é a reativação de uma velha conhecida engrenagem de poder. Uma máquina que mistura doleiros, banqueiros, desvios na saúde, fundos de pensão e, ironicamente, até o mercado nascente da maconha medicinal.
Se você acompanha a chamada "imprensa tradicional", provavelmente viu essas notícias de forma fragmentada, como se fossem acontecimentos isolados e sem qualquer relação entre si. Afinal, para a mídia esquerdista, que hoje atua como uma assessoria de imprensa de luxo do Palácio do Planalto, é muito mais conveniente tratar escândalos bilionários como "meras coincidências" ou "deslizes de terceiros". Mas quando ligamos os pontos, o que emerge não é um conjunto de acidentes, mas sim um mosaico homogêneo de capitalismo de compadrio.
O fio da meada: O retorno dos respiradores fantasmas ao STF
Para entender como o presente se conecta ao passado, precisamos voltar ao ano de 2020, o ápice da pandemia de COVID-19. Enquanto os brasileiros agonizavam em hospitais e o comércio fechava as portas, o chamado Consórcio Nordeste — uma associação de governadores da região — viu na crise uma oportunidade de ouro para gastar dinheiro público sem o incômodo das licitações. Sob a liderança de Rui Costa, então governador da Bahia e hoje ninguém menos que o ex-ministro chefe da Casa Civil de Lula, o consórcio fechou a compra emergencial de 300 respiradores artificiais.
O valor da brincadeira? R$ 48 milhões de reais. O modus operandi foi de uma audácia criminosa: os governantes pagaram o valor integral, à vista, de forma antecipada. E a empresa escolhida para salvar vidas não era uma fabricante de equipamentos médicos ou uma importadora tradicional de insumos hospitalares. Era a Hempcare, uma companhia cuja única experiência de mercado era a venda de derivados de maconha. O resultado era previsível: os respiradores nunca foram entregues, o dinheiro sumiu e os pacientes ficaram sem ar.
Conforme revelado pelo portal G1, esse inquérito que coloca Rui Costa no centro do núcleo político da trama acaba de retornar ao Supremo Tribunal Federal (STF). Quando questionado sobre o motivo de ter chancelado um contrato milionário com uma empresa de cannabis chamada Hempcare (termo em inglês para os cuidados com o cânhamo), a desculpa do ex-ministro foi uma obra-prima do cinismo nacional: ele alegou que "não sabia falar inglês" e, por isso, não associou o nome à maconha. Uma justificativa patética para quem comanda a pasta mais importante da esplanada dos ministérios.
A lavanderia financeira: Da Canabis ao Banco Master e à REAG
Mas para onde foram os R$ 48 milhões que deveriam ter comprado oxigênio para o povo? É aqui que a história ganha contornos de engenharia financeira sofisticada. O dinheiro não sumiu em malas de couro; ele foi pulverizado no sistema financeiro para ser lavado. Parte desses recursos circulou por fundos de investimento gerenciados pelo Grupo REAG. E quem aparece como figura central nessas movimentações? O empresário João Carlos Mansur, que no ano passado foi alvo de mandados de busca e apreensão.
Mansur não é um personagem qualquer. Ele é investigado por fraudes colossais no setor de combustíveis em parceria com facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho, dentro da chamada Operação Carbono Oculto. E, em uma "coincidência" que desafia as leis da probabilidade, o mesmo Mansur também está sob a lupa das autoridades por seu envolvimento direto no escândalo do Banco Master, controlado pelo banqueiro Daniel Bueno Vorcaro.
Os fundos de investimento da REAG e as operações do Master funcionavam, segundo as suspeitas, como uma gigantesca lavanderia. O mecanismo é simples: o operador cria dois fundos. O dinheiro "sujo" é injetado no fundo A, que convenientemente sofre um prejuízo financeiro colossal e quebra. Simultaneamente, o fundo B, alimentado por vias aparentemente lícitas, registra um lucro astronômico. Pronto. O dinheiro reaparece do outro lado da fresta do mercado financeiro, limpo, auditado e pronto para ser transformado em propina para políticos em Brasília ou em lucro para o crime organizado.
O celular de Vorcaro e o canal para chegar a Lula
O castelo de cartas começou a desmoronar de fato quando a Polícia Federal confiscou o telefone celular do banqueiro Daniel Vorcaro. Os relatórios da PF, obtidos e divulgados com exclusividade pelo jornal O Estado de S. Paulo (Estadão), revelaram diálogos estarrecedores entre Vorcaro e seu diretor comercial, Fernando Mascarenhas Filho, datados de 17 de julho de 2024.
Nas mensagens privadas, a cúpula do Banco Master comemorava entusiasticamente o fato de o mercado financeiro e o meio político enxergarem a instituição como "próxima ao governo federal, igual aos Irmãos Batista (da J&F)". Mascarenhas escreveu em tom de deboche: "Única coisa que falaram que somos próximos ao governo, igual os irmãos Batistas são. O que é verdade? rsrsrs". Ao que Vorcaro respondeu, demonstrando uma visão aguçada de marketing de guerrilha: "Isso aí é marketing para nós. Manda pro Lula e pra base aliada".
A engrenagem funcionava através de emissários. O diretor comercial sugeriu enviar os sinais de fumaça para o "Tio Guiga" — apelido do publicitário baiano Guilherme Sodré, homem de extrema confiança e trânsito livre dentro do Palácio do Planalto — e para o senador Jaques Wagner, atual ainda líder do governo Lula no Senado.
A Polícia Federal foi taxativa ao analisar esse material: os diálogos sugerem que, pelo menos entre 2024 e 2025, Jaques Wagner recebeu vantagens econômicas diversas de Daniel Vorcaro e de seu sócio, Augusto Lima, em troca de uma atuação política voltada a favorecer os interesses bilionários do Banco Master junto a órgãos federais. E essa relação não é nova. Augusto Lima já mantinha parcerias antigas na Bahia com o PT, operando negócios como a privatização da Empresa Baiana de Alimentos (EBAL) e a transformação do cartão "Cesta do Povo" no lucrativo "Crédito Cesta" durante os mandatos estaduais do partido.
O "capitalismo de compadrio" e a blindagem na Copa do Mundo
Quando a corda começou a apertar no pescoço do governo, a Polícia Federal deflagrou mandados de busca e apreensão autorizados pelo ministro do STF, André Mendonça. O alvo principal foi justamente o quarto de hotel de luxo que Jaques Wagner utiliza como residência fixa em Brasília. Lá, os agentes federais encontraram o clássico kit da corrupção tupiniquim: relógios de alto luxo e milhares de dólares e reais em espécie, totalizando cerca de R$ 250 mil em dinheiro vivo.
A reação do ecossistema petista foi imediata. Conforme publicado pelo portal Metrópoles, a defesa do senador correu ao STF para pedir a anulação da busca e a devolução dos bens, alegando falta de "contemporaneidade". Na velha imprensa lulista, veículos como o Brasil 247 correram para publicar editoriais alegando que Jaques Wagner estava sendo vítima de um "novo linchamento promovido pela direita e pela mídia golpista para atingir Lula".
A tática de distração em massa, contudo, é muito mais profunda e aproveita o calendário civil. Segundo análise publicada pelo jornal Valor Econômico, Lula tomou a decisão deliberada de manter Jaques Wagner na liderança do governo no Senado sob o cálculo explícito de que o escândalo policial seria "diluído e engolido" pela cobertura da Copa do Mundo de 2026. O governo conta com o fato de que o brasileiro médio estará mais preocupado com as atuações de Vinicius Júnior, Endrick e a recuperação física de Neymar do que com as investigações de lavagem de dinheiro da cúpula do poder.
Durante uma agenda pública recente em Belo Horizonte, Minas Gerais — reportada detalhadamente pelo jornal Correio da Manhã —, Lula aplicou à risca a estratégia do abafamento. Ao ser abordado por um repórter corajoso sobre as malas de dinheiro de Jaques Wagner, o presidente fingiu demência, ignorou o questionamento e respondeu apenas com um "joinha mudo", saindo apressado para interagir com crianças sobre futebol. É o método clássico do "eu não sei de nada", o mesmo usado no Mensalão e no Petrolão. Afinal, se o sítio de Atibaia e o triplex do Guarujá eram dos "amigos", por que o dinheiro no hotel de Brasília também não seria?
O efeito dominó e o verdadeiro dono do cofre
A esquerda gourmet tentou, desesperadamente, criar uma narrativa de falsa simetria para salvar a própria pele. Portais de esquerda tentaram requentar conversas antigas e irrelevantes do senador Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro sobre um patrocínio para um filme independente. Uma tentativa tola que não resultou em nenhuma linha de investigação policial, simplesmente porque não houve dinheiro público envolvido, não houve contrapartida institucional e nem sequer existia a chave do cofre nas mãos da oposição.
Como bem destaca o bom senso político, ninguém gasta milhões de reais para tentar corromper quem está na planície da oposição. A propina e o suborno buscam quem tem a caneta na mão, quem nomeia diretorias de bancos estatais e quem dita o rumo dos fundos públicos. O Banco Master não cresceu de forma meteórica no vácuo; ele orbitou o poder de turno. A mídia noticiou, inclusive, escândalos abafados envolvendo gerentes técnicos da Caixa Econômica Federal que foram sumariamente demitidos da instituição por terem se recusado a autorizar aportes financeiros temerários no Banco Master, enquanto o BRB (Banco de Brasília) injetava recursos na mesma praça.
Lula mantém Jaques Wagner no cargo não por lealdade ou amizade, mas por puro pavor do efeito dominó. Na atual conjuntura política, o presidente sofre de um isolamento severo. Figuras históricas que operavam o maquinário petista no passado — como Antonio Palocci, José Dirceu e José Genoíno — foram politicamente carbonizadas pelos desdobramentos da história. Sobraram apenas a velha guarda baiana: Jaques Wagner e Rui Costa. Lula não confia em nomes mais novos ou técnicos, como Fernando Haddad ou Camilo Santana, vistos nos bastidores como "petistas que entraram no ônibus ontem e já querem sentar na janelinha". Se o presidente rifar Jaques Wagner hoje para aplacar a opinião pública, o próximo dominó a cair será Rui Costa, seguido por Guido Mantega e todo o cordão de isolamento jurídico montado ao redor do Planalto.
A nova fronteira do lobby: A cannabis e o filho do presidente
E se você achava que a fixação da esquerda por empresas de maconha medicinal terminava na fraude dos respiradores de 2020, o enredo ganha mais um capítulo fascinante que ajuda a fechar este círculo. Uma matéria da agência G1 trouxe à tona uma viagem oficial de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, a Portugal, acompanhado pelo então presidente do INSS (conhecido nos bastidores do lobby como o "Careca do INSS"). O objetivo da comitiva? Visitar uma fábrica de cannabis medicinal da empresa World Cannabis.
Por que essa súbita obsessão do ecossistema governamental por empresas de maconha medicinal? A resposta reside na própria natureza econômica de um mercado nascente. Setores tradicionais da economia — como o mercado de automóveis, regulado pela Tabela FIPE, ou o mercado imobiliário — possuem margens de lucro engessadas, preços de referência claros e fiscalização eletrônica estrita. É virtualmente impossível justificar às autoridades que você comprou um veículo popular por mil reais e o revendeu por dois milhões sem acionar todos os alarmes do COAF.
Já o mercado de cannabis medicinal no Brasil é uma terra sem lei regulatória, uma novidade absoluta onde ninguém sabe ao certo quanto custa o grama do insumo, qual o valor real de uma consultoria técnica internacional ou quanto fatura uma startup do setor. Trata-se do ambiente perfeito para a prática do lobby e da emissão de notas fiscais infladas. Você pode criar uma empresa de fachada, declarar que ela presta consultoria sobre fitoterápicos, movimentar dezenas de milhões de reais oriundos de propinas do Banco Master ou de fundos de pensão do INSS, e justificar que o faturamento astronômico é fruto do "sucesso comercial" de um setor inovador.
O grande plano do governo Lula é apostar no anestesiamento coletivo. Eles acreditam piamente que a combinação entre o ufanismo da Copa do Mundo, a atuação de uma imprensa amestrada que foca em fofocas secundárias e a tradicional falta de memória do eleitorado brasileiro fará com que o escândalo do Banco Master, dos respiradores fantasmas da Bahia e do lobby da maconha evapore antes das próximas eleições.
Cabe ao jornalismo independente e aos cidadãos que ainda se recusam a ser tratados como idiotas manter os holofotes acesos sobre o esgoto que corre por baixo do carpete de Brasília. Eles querem o esquecimento; nós daremos a eles o registro indelével da história (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 22/6/2026)

