Crime em família? A casa caiu para Lula e seu Lulinha – Por Paula Sousa
Tem gente que herda sobrenome. Tem gente que herda empresa. E tem gente que herda uma fila de gente disposta a fazer negócio só porque o pai mora no Planalto. Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, é dessa terceira categoria — e a Polícia Federal acabou de mostrar o preço disso.
Nesta quinta-feira (20/08), a revista Veja, em reportagem assinada por Ricardo Chapola e Laryssa Borges, divulgou trechos de um inquérito sigiloso da PF que investiga tráfico de influência envolvendo Lulinha, a lobista Roberta Luchsinger, o empresário Fernando Bittar e o ex-chefe de gabinete da Presidência, Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola. O material foi confirmado por Poder360 e O Antagonista. Não é fake, não é print photoshopado de grupo bolsonarista: é relatório de delegado da Polícia Federal.
E o relatório não é sutil. Segundo os investigadores, existe um "núcleo de atuação permanente e coordenada" formado por Roberta, Lulinha e Bittar, dedicado a intermediar interesses privados dentro da administração pública federal — o nome bonito para "vender proximidade com o poder". Lulinha, dizem os delegados, aparece com "elevada relevância" nas conversas, mesmo adotando "postura de menor exposição". Tradução: ele deixava a Roberta fazer o trabalho sujo enquanto ficava de fora da foto.
"Somos uma coisa só"
A frase que resume tudo não é minha, é da própria Roberta. Em mensagem recuperada pela PF, ela escreveu que ela, Lulinha e Bittar eram praticamente irmãos — quando um falava, todos falavam. Segundo o relatório, ela descrevia o papel do filho do presidente como o de quem "não faz nada" no dia a dia e "só entra em campo quando precisa", justamente para se preservar. Isso não é teoria da conspiração de bolsonarista raivoso no Twitter. Isso está escrito no inquérito, com nome, sobrenome e captura de tela.
E tem mais: segundo a Veja, Roberta contou que o próprio Lula, em conversa pessoal, ofereceu a ela qualquer cargo que quisesse no governo. Ela recusou — preferiu continuar sócia informal do filho do presidente, faturando fora da folha de pagamento e fora da fiscalização. Interessante escolha para quem, segundo as mensagens, tinha meta de faturar R$ 100 milhões sozinha só em 2024.
Cem milhões. Não é erro de digitação. É o valor que ela mesma escreveu quando perguntaram se estava desmotivada. A resposta foi de um deboche digno de aplausos: disse que era "modesta".
O negócio de 626 milhões que quase passou batido
O prato principal do esquema, segundo O Globo, era um contrato para vender 1,2 milhão de frascos de remédio à base de canabidiol ao SUS, sem licitação, por R$ 626 milhões — negócio da empresa World Cannabis, ligada a Antônio Carlos Camilo Antunes, o operador conhecido como Careca do INSS, o mesmo nome do escândalo bilionário de descontos indevidos em aposentadorias que já rendeu 48 indiciamentos na Operação Sem Desconto.
A minuta do contrato chegou a ser enviada por Roberta a Marcola. Não assinaram — não porque alguém teve escrúpulo, mas porque o escândalo do INSS estourou antes e a operação teve que ser abortada às pressas. Quem defende que "não teve crime porque não assinou o contrato" devia aplicar a mesma lógica em assalto: só é crime se o ladrão conseguir sair com a grana.
E não foi só esse negócio. Há indícios de tratativas envolvendo a Dataprev, com uma empresa de tecnologia que soma R$ 55 milhões em contratos vigentes com o governo federal — e mais um quarto inquérito, sob relatoria de Flávio Dino, ainda em sigilo, sobre outras frentes de influência.
A fuga que virou "férias"
As mensagens mostram Roberta escrevendo, em janeiro de 2025, que precisava "destravar" negócios porque tinha que tirar Fábio e a família do país até junho. Lulinha se mudou para Madri pouco depois. A versão pública, claro, foi outra: passeio, visita à família, nada demais, volto quando quiser. A versão nas mensagens é uma corrida contra o relógio para tirar o filho do presidente do alcance de quem estava prestes a bater à porta.
Há quem acredite em coincidência.
A lei sob encomenda
Tem print que fala mais que qualquer editorial. Em mensagem de 12 de maio de 2024, divulgada pela própria Veja, Roberta Luchsinger contou a Gustavo Gaspar que havia dito a Fábio para "articular logo o negócio do canabidiol" — e que, se ele fizesse isso, chegariam a ir para a África juntos. Na sequência, ela soltou a frase que devia estar emoldurada no Planalto: contou que, se o negócio andasse, cogitava-se pedir ao presidente que fizesse "até lei" para viabilizar — com direito a "rsrs" no final, porque para eles isso é assunto de piada de grupo de zap, não crime. A resposta de Gustavo foi só um "kkkk que exagero". Curioso como ninguém no grupo achou aquilo absurdo o bastante para negar — só engraçado o bastante para rir.
A CPMI que morreu de propósito
Antes desse vazamento, já tinha existido uma tentativa de investigar Lulinha por dentro do Congresso: a CPMI do INSS. Uma testemunha chegou a declarar, na época, que o filho mais velho do presidente atuava a serviço do Careca do INSS e em parceria com Roberta.
A comissão foi encerrada sem avançar, sob pressão de Alcolumbre e Hugo Motta, aliados do governo dentro do próprio Congresso.
Ou seja: quando a apuração dependia de vontade política, ela morreu na gaveta. Só sobreviveu porque a Polícia Federal, mexendo em outro caso — a Operação Sem Desconto —, esbarrou nas mesmas conversas por acidente. Não foi fiscalização. Foi sorte de investigação cruzada.
Um sítio, um filho, o mesmo roteiro
Quem acompanha a carreira política de Lula reconhece o roteiro de longe. O sítio de Atibaia é o exemplo mais didático: registrado em nome de terceiros — entre eles, coincidentemente, o mesmo Fernando Bittar que aparece agora ao lado de Lulinha —, frequentado pela família, mas oficialmente "não é do Lula". Décadas de investigação depois, ficou estabelecido que era dele na prática, mesmo sem estar no papel. O esquema de agora segue a mesma arquitetura: o nome do presidente nunca assina nada, mas está em todo lugar que importa.
O manual de sempre: "eu não sabia de nada"
Se tem uma frase que resume trinta anos de governo Lula é essa: "eu não sabia". Não sabia do mensalão. Não sabia do petrolão. Não sabia do sítio de Atibaia — aquele mesmo, registrado em nome de terceiros, frequentado pela família, que o próprio Judiciário já reconheceu como sendo dele na prática. E agora, adivinha, não vai saber também do esquema do filho.
O problema é que 2026 não é 2005. A informação está descentralizada, o inquérito vazou, o relatório tem nome de delegado embaixo. Não tem "não sabia" que resista a print de WhatsApp recuperado por perícia forense. A defesa de Lulinha já classificou tudo como perseguição e vazamento seletivo — o manual de sempre, o mesmo usado por praticamente todo investigado nos últimos vinte anos de Brasil.
Por que ninguém é preso, mesmo com tudo isso na mesa
Porque o jogo não é sobre provas, é sobre tempo. Enquanto o processo tramita, a narrativa de perseguição já está pronta, a militância já decidiu que é fake, e o noticiário segue para o próximo escândalo antes que este termine de ser digerido. Funcionou com o mensalão. Funcionou com o petrolão. Está funcionando de novo.
A pergunta que fica não é se a família Lula sabia. As mensagens, os contratos, as minutas e os R$ 100 milhões de meta já responderam isso. A pergunta é outra: quantas vezes mais o eleitor brasileiro vai aceitar pagar a conta e, ainda assim, devolver o troco?
Vale registrar, para quem exige o disclaimer: nada disso é condenação. É inquérito, sob sigilo, sujeito a contraditório, e a defesa de Lulinha já nega qualquer negócio fechado ou vantagem indevida. Mas convenhamos — para quem levou trinta anos ouvindo "não sabia de nada", o ônus da dúvida já foi gasto faz tempo.
Fontes: Veja (Ricardo Chapola e Laryssa Borges), O Globo, Poder360, O Antagonista.
Sobre a autora
Paula Sousa é historiadora, professora com 8 anos de docência nas áreas de Humanas e pós-graduada em Gestão Pública. Com especializações que vão do Processo Legislativo e Finanças à Inteligência Artificial Generativa, é articulista e roteirista focada em geopolítica, história e socioeconomia — com produções para veículos como o Visão Libertária. É também palestrante e membro do Instituto Cultural Voluntários pelo Brasil (21/8/2026)

