24/09/2025

De onde veio o dinheiro que bancou festas e viagens de Faesp aos EUA?

O presidente sub judice Tirso Meirelles e sua Juliana Farah durante “evento” bancado com verbas recolhidas pelos produtores rurais ao Senar/SP e promovido em Ribeirão Preto. Fotos Reprodução Tribuna Ribeirão

 

Por Paula Sousa

 

Os produtores rurais paulistas, que religiosamente recolhem a contribuição obrigatória de 0,2% sobre cada nota fiscal emitida, acreditam estar financiando programas de formação profissional, assistência técnica e promoção social no campo.

 

Mas, ao que tudo indica, esse recurso tem sido usado para outras finalidades que nada tem a ver com as descritas anteriormente.

 

De onde saiu a verba para bancar festas, viagens e autopromoção de dirigentes da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de São Paulo (Senar/SP)?

 

A denúncia mais recente envolve a presença de Juliana Farah, companheira de Tirso Meirelles – presidente da Faesp sub judice após ter sua eleição anulada por irregularidades em dezembro de 2023 – no Women in Agribusiness Summit 2025, em Orlando (EUA).

 

O evento, sem relevância científica ou tecnológica compatível com o protagonismo do agro brasileiro, contou com patrocínio pago pela Faesp/Senar.

 

Dinheiro público do campo, festa privada nos salões

 

Juliana Farah, à frente da Comissão “Semeadoras do Agro”, tem sido apontada por lideranças rurais como responsável por uma agenda de encontros sociais e festivos sem ligação real com as necessidades das produtoras. Ainda assim, o custeio dessas viagens e eventos tem saído diretamente do bolso dos agricultores e pecuaristas paulistas.

 

Enquanto isso, o superintendente do Senar/SP, Mário Antonio de Moraes Biral, já notificou sindicatos rurais sobre a suspensão de pagamentos por “falta de previsão financeira”. Ou seja: faltam recursos para cumprir obrigações básicas, mas, parece que sobra dinheiro para viagens internacionais em hotéis de luxo como o Hyatt, onde, supostamente Juliana Farah estaria hospedada durante o evento em Orlando.

 

O silêncio e as perguntas sem resposta

 

Até agora, nem Tirso Meirelles, nem Juliana Farah esclareceram:

 

•        Qual foi o valor do patrocínio pago pela Faesp/Senar ao WIA Summit 2025?

 

•        Quem autorizou o uso dos recursos?

 

•        Quanto custaram passagens, hospedagem e diárias da comitiva? Foram adquiridas em classe executiva ou primeira classe?

 

•        Qual a relevância efetiva desses eventos para os produtores rurais paulistas que financiam o Senar?

 

Esse silêncio ecoa as críticas feitas recentemente por sindicatos rurais de Ribeirão Preto e Araraquara, que denunciam as arbitrariedades e descumprimento de decisões judiciais pelo presidente sub judice.

 

Festas, caravanas e maquiagem verde

 

Não se trata de um caso isolado. Em setembro, Juliana Farah organizou um evento em Ribeirão Preto para cerca de 3 mil mulheres, com todas as despesas pagas. Logo depois, promoveu no Rio de Janeiro a suposta iluminação do Cristo Redentor em homenagem ao agronegócio – ato desmentido ao se comprovar que as imagens publicadas eram de uma campanha de 2022 do Ministério da Saúde.

 

Esses episódios revelam um padrão: uso de recursos do Senar para ações de autopromoção, festas e viagens, sem transparência, sem prestação de contas e sem resultados concretos para o campo.

 

O produtor paga, a conta não fecha

 

Enquanto isso, as cadeias produtivas da cana-de-açúcar e da citricultura – fundamentais para a economia paulista – enfrentam perseguições políticas por integrarem o movimento de oposição “Nova Faesp”. Sindicatos denunciam exclusão no repasse de recursos e falta de diálogo.

 

Produtores e lideranças do setor, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, lamentam que atitudes personalistas estejam dividindo a representação do agro, prejudicando sua imagem no exterior e transformando a contribuição obrigatória em caixa de autopromoção.

 

Hora de cobrar transparência

 

A contribuição ao Senar não é opcional. Produtores rurais – pequenos, médios e grandes – são obrigados a repassar parte de sua receita bruta ao sistema. Esses valores deveriam ser investidos em formação técnica, modernização do setor e fortalecimento da produção rural.

 

No entanto, as denúncias mostram um quadro alarmante: falta de transparência, desvio de finalidade e descaso com o dinheiro do produtor.

 

É urgente que o caso seja investigado e os órgãos de fiscalização atuem para esclarecer: quem autorizou, quanto foi gasto e de onde saiu o dinheiro que banca essas viagens internacionais e festas promovidas pela Faesp/Senar?

 

Os produtores paulistas merecem respostas (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 24/9/25)