Diesel verde avança e abre nova fronteira energética - Por Pedro Côrtes
Diesel Verde Imagem IA Copilot
Novas tecnologias prometem substituir diesel convencional sem necessidade de adaptação dos motores, mas custo, oferta e logística ainda impedem efeito imediato sobre preços e inflação no Brasil
O avanço de combustíveis renováveis capazes de substituir diretamente o diesel fóssil começa a ganhar tração no Brasil, impulsionado por testes operacionais, retomada de investimentos industriais e pressão crescente por descarbonização.
Ainda assim, a distância entre a promessa tecnológica e o impacto macroeconômico permanece significativa — sobretudo em um país estruturalmente dependente de diesel importado.
Nos últimos meses, diferentes iniciativas convergiram para um mesmo objetivo: viabilizar combustíveis do tipo “drop-in”, capazes de operar em motores convencionais sem necessidade de adaptação.
É o caso de soluções baseadas em HVO (óleo vegetal hidrotratado) e novos biodieseis avançados, além de projetos nacionais que testam o uso integral desses combustíveis em frotas pesadas e máquinas agrícolas.
Do ponto de vista técnico, a premissa é sólida: ao replicar características físico-químicas do diesel fóssil, esses combustíveis conseguem manter desempenho, torque e eficiência energética.
O problema está menos na engenharia e mais na economia. A produção desses combustíveis ainda é limitada e, em muitos casos, mais cara do que o diesel tradicional.
Projetos recentes indicam custos superiores aos do biodiesel convencional e dependência de matérias-primas como óleos vegetais e gorduras animais, cuja oferta é disputada por diferentes cadeias produtivas — incluindo alimentos e exportações. Esse fator impõe um teto imediato à expansão.
No plano industrial, a decisão da Petrobras de reabrir a usina de biodiesel em Quixadá reforça a sinalização de retomada estratégica do setor.
A iniciativa se soma ao avanço regulatório que elevou a mistura obrigatória de biodiesel ao diesel para níveis mais altos, consolidando o país como um dos principais mercados globais de biocombustíveis.
Ainda assim, trata-se de um movimento de médio prazo: a reativação de plantas industriais, a ampliação da capacidade produtiva e a consolidação de cadeias logísticas exigem tempo e capital.
No campo, onde o diesel é insumo crítico, a possibilidade de substituição direta tem apelo imediato. Máquinas agrícolas equipadas com motores compatíveis com combustíveis renováveis já operam em testes, com ganhos reportados de eficiência e redução relevante de emissões.
Em um cenário de petróleo volátil e risco geopolítico elevado, esses combustíveis funcionam como uma espécie de hedge energético parcial, reduzindo a exposição ao diesel importado.
Mas o impacto macroeconômico segue limitado. O Brasil consome dezenas de bilhões de litros de diesel por ano, volume que não pode ser rapidamente substituído por combustíveis ainda em fase de expansão.
Mesmo com políticas públicas favoráveis e investimentos industriais, a escala necessária para alterar preços de forma estrutural ainda está distante.
A leitura de mercado é clara: o país não está diante de uma substituição imediata do diesel, mas sim de um processo gradual de diversificação energética.
No curto prazo, o diesel renovável tende a atuar como complemento — relevante do ponto de vista ambiental e estratégico, mas ainda insuficiente para alterar o equilíbrio de preços, fretes e inflação.
No médio prazo, porém, o avanço dessa agenda pode redefinir a dinâmica do setor, especialmente se combinado com expansão de oferta, ganhos de escala e maior previsibilidade regulatória.
Há, contudo, um precedente relevante. A trajetória do etanol combustível como alternativa à gasolina mostra que mudanças na matriz energética brasileira não ocorrem de forma abrupta, mas por acúmulo de escala, política pública e competitividade econômica.
O etanol levou décadas para consolidar participação relevante, sustentado por programas governamentais, ganhos de produtividade e adaptação tecnológica da frota. O diesel renovável pode seguir caminho semelhante: hoje ainda marginal em termos de volume, mas potencialmente estruturante no longo prazo (Pedro Côrtes é professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país; CNN, 26/3/26)

