20/05/2026

Diga-nos com quem caminhas...E o Brasil entenderá o recado

Diga-nos com quem caminhas...E o Brasil entenderá o recado

Por Rodrigo Simões

 

Existem homenagens que unem. Outras, inevitavelmente, dividem.
E quando uma instituição construída sobre a solidariedade do povo brasileiro abre espaço para gestos com forte simbolismo político, o desconforto aparece — especialmente em um país profundamente polarizado e cansado de ver a política ocupar espaços que deveriam ser exclusivamente humanos.

 

A homenagem prestada por Henrique Prata, presidente do Hospital de Amor de Barretos, ao presidente Lula, gerou exatamente essa sensação em milhares de brasileiros.

Não pela importância do hospital.
Não pelo trabalho realizado.
Mas pelo momento, pela narrativa e pelo simbolismo do gesto.

 

Uma homenagem que gerou incômodo

 

Ao destacar a “parceria histórica de mais de 20 anos” com Lula, Henrique Prata acabou reacendendo um debate inevitável: afinal, quem realmente sustentou e fez crescer o Hospital de Amor ao longo das décadas?

A resposta é conhecida em todo o Brasil.

 

O hospital é do povo

 

O Hospital de Amor não nasceu da política. Nasceu da solidariedade.

Foi construído com leilões, campanhas, doações anônimas, produtores rurais, pecuaristas, empresários, voluntários e milhões de brasileiros simples que abriram o bolso para salvar vidas.

Talvez tenha faltado lembrar disso naquele momento.

 

O coração de quem ajuda

 

A frase de um importante produtor rural traduz o sentimento de muita gente:

“Fico imaginando como está o coração do voluntário, do pecuarista, do produtor rural que, todos os anos, especialmente aqui em Rondônia, se organiza para realizar leilões que destinam recursos ao Hospital de Amor.”

Não se trata de revolta.
Mas de frustração silenciosa.

Quem ajuda por amor à vida espera neutralidade de instituições que representam esperança para milhares de famílias.

 

Quando a política entra no hospital

 

O problema não está em relações institucionais. Elas existem e são necessárias.

O ponto de desconforto surge quando uma instituição de saúde — admirada nacionalmente — transmite sinais de alinhamento político em um ambiente que deveria ser exclusivamente dedicado ao acolhimento, à saúde e à humanidade.

Hospitais salvam vidas.
Não deveriam dividir consciências.

 

O peso da memória

 

O brasileiro também carrega memória política.

E Lula, gostem ou não seus apoiadores, sempre estará associado aos maiores escândalos de corrupção da história recente do país.

E corrupção mata.

Mata quando falta remédio.
Mata quando falta leito.
Mata quando falta estrutura.
Mata silenciosamente todos os dias.

 

O agro que sustenta

 

Somente no último ano, mais de 22 mil cabeças de gado foram arrecadadas e leiloadas em prol do Hospital de Amor.

Esse número impressiona porque revela algo maior que estatística: revela sacrifício coletivo.

O produtor rural ajuda porque acredita na vida.
O voluntário ajuda porque acredita nas pessoas.
A sociedade ajuda porque acredita na missão do hospital.

Não é política.
É humanidade.

 

Respeito não significa silêncio

 

É importante deixar claro: o Hospital de Amor merece respeito.

O trabalho realizado pela instituição é gigantesco, transformador e digno de reconhecimento permanente. Sua diretoria, equipes médicas, funcionários e voluntários construíram uma das maiores referências humanitárias do Brasil.

Mas exatamente por isso, muitos brasileiros esperam equilíbrio, prudência e neutralidade em gestos públicos que inevitavelmente carregam peso político.

 

O dinheiro é do povo, não do governante

 

Outro ponto que precisa ser dito com clareza: recursos públicos não pertencem ao presidente da República ou a qualquer autoridade política.

Quando um governo anuncia verbas, investimentos ou repasses, é importante lembrar que o dinheiro não saiu do bolso pessoal de ninguém. Saiu do bolso do trabalhador brasileiro, do produtor rural, do empresário, do comerciante e de milhões de pessoas que pagam impostos diariamente.

Governante não faz caridade com dinheiro público.
Governante administra recursos da sociedade.

 

O hospital é do povo

 

Instituições gigantes precisam compreender a dimensão simbólica de cada movimento.

Porque, no fim, o brasileiro observa.
O voluntário sente.
O produtor lembra.
E a sociedade brasileira sabe muito bem quem, durante décadas, ajudou verdadeiramente a manter o Hospital de Amor funcionando: O povo

 

(Rodrigo Simões é Jornalista • Administrador de Empresas; Pós-graduado em Gerente de Cidades – FAAP;
2× Vereador por Ribeirão Preto • Presidente da Câmara (2017); Ex-Presidente da FUNTEC; Colunista – BrasilAgro; Apresentador do Podcast Clube do Povo; 20/5/26)