Do campo aos números: A estrutura por trás do cooperativismo paulista
Por Rodrigo Simões
Em 1939, assistência jurídica, orientação técnica, contabilidade e estatística já formavam uma estrutura de apoio às cooperativas paulistas. Nos registros preservados por Otacílio Tomanik, aparece um princípio que atravessou gerações: produzir é essencial, mas organização, conhecimento e gestão são indispensáveis para transformar produção em desenvolvimento.
Nas páginas amareladas de um relatório escrito há quase nove décadas, algumas palavras parecem pertencer muito mais ao presente do que ao passado: assistência jurídica, contabilidade, orientação técnica, estatística, balanços, gestão, regularização, informação. É mais uma demonstração de como os documentos preservados por Otacílio Tomanik conseguem aproximar duas épocas aparentemente tão distantes.
Estamos em 1939. O cooperativismo paulista avançava, novas sociedades se organizavam e o poder público começava a compreender que estimular a cooperação não significava simplesmente incentivar produtores a se reunirem. Era preciso construir condições para que essas organizações sobrevivessem, funcionassem corretamente e se desenvolvessem.
É exatamente esse universo que Tomanik apresenta ao registrar os trabalhos da Secção de Assistência e Estatística, divididos em três grandes frentes: Assistência Jurídica; Assistência Técnica, Contábil e orientação do funcionamento das cooperativas; e Serviços de Estatística.
A primeira delas revela um cooperativismo que já precisava enfrentar questões que continuam absolutamente atuais.
Segundo o relatório, a Assistência Jurídica alcançou resultados considerados “dos mais satisfatórios”. Consultas verbais e escritas eram respondidas sobre questões jurídicas e fiscais. O Departamento orientava as cooperativas na obtenção dos benefícios previstos em lei e mantinha entendimentos com a Diretoria Geral da Receita para melhorar a interpretação das normas aplicáveis ao setor.
Os resultados eram concretos.
O documento registra reduções e isenções de impostos e até o cancelamento de multas consideradas irregularmente impostas a cooperativas do interior paulista. Também eram acompanhados processos apresentados por sociedades interessadas na obtenção de benefícios fiscais.
Mas a atuação jurídica não se limitava aos tributos.
Reuniões de associados e assembleias gerais eram analisadas sob o ponto de vista legal. Pareceres eram emitidos para garantir o cumprimento dos estatutos e da legislação. Quando necessário, orientações específicas eram encaminhadas diretamente às cooperativas.
Em outros casos, o trabalho ia ainda mais longe.
Cooperativas paralisadas eram localizadas, sua situação analisada e medidas de recuperação recomendadas. Quando havia necessidade, eram aconselhadas assembleias gerais extraordinárias para adequação dos estatutos às leis vigentes e permitir a regularização da sociedade. Quando a recuperação não era possível, também se orientava a dissolução legal.
Há, nesse trecho, uma lição importante.
O cooperativismo já compreendia que crescer não era apenas abrir novas cooperativas. Era também cuidar daquelas que já existiam, corrigir problemas e garantir segurança para sua continuidade.
Tomanik registra ainda estudos sobre a situação fiscal das cooperativas, incluindo a organização de um quadro com informações relativas aos impostos estaduais de 39 cooperativas, encaminhado à Diretoria Geral da Receita.
Logo depois, o relatório entra em outra dimensão fundamental: a Assistência Técnica e Contábil.
E é justamente nesse ponto que o documento ganha uma riqueza extraordinária, porque deixa os conceitos gerais e apresenta situações vividas em diferentes regiões de São Paulo.
Houve viagem a Taubaté para levantamento de livros e balanço da Cooperativa dos Citricultores. A Cooperativa dos Trabalhadores em Madeira do Estado de São Paulo recebeu orientação para organizar seu serviço de contabilidade. Uma multa municipal foi revista. A Estrada de Ferro Sorocabana e a Diretoria de Viação foram procuradas para conseguir redução de frete ferroviário de materiais destinados à construção da sede de uma cooperativa de Presidente Prudente.
O relatório registra ainda a aproximação entre cooperativas de citricultores para o fornecimento de laranjas em larga escala, orientação à Cooperativa Agrícola de Juqueri para buscar redução de uma taxa e assistência ao Banco de Boituva para regularização de sua contabilidade.
Em Sorocaba, técnicos realizaram viagens de inspeção à Cooperativa de Consumo dos Operários, orientando a abertura dos livros de escrituração e oferecendo assistência para melhorar seu funcionamento. Na mesma oportunidade, foi realizada uma palestra sobre cooperativas de consumo.
São João da Boa Vista aparece nos registros relacionados à orientação para implantação da pasteurização obrigatória do leite destinado ao consumo público. Também aparecem cooperativas de Santos, Lapa, produtores de mandioca, citricultores e diferentes organizações do interior.
É praticamente um mapa da assistência técnica ao cooperativismo paulista em 1939.
E aqui surge talvez uma das conexões mais interessantes com o presente.
Hoje falamos em assistência técnica, extensão rural, governança, gestão profissional, planejamento tributário, controles internos, acesso a mercados e capacitação. Mudaram as ferramentas. Mudaram as tecnologias. Mudou a velocidade da informação.
A necessidade, entretanto, permanece praticamente a mesma: quem produz precisa também saber administrar, organizar e comercializar.
O relatório de 1939 já demonstrava isso.
E havia ainda uma terceira frente que chama especialmente a atenção: a estatística.
Muito antes dos computadores, das plataformas digitais, dos painéis de indicadores e dos bancos de dados, o Departamento buscava conhecer numericamente o cooperativismo paulista.
Um questionário foi enviado às cooperativas para reunir os elementos necessários à elaboração de estatísticas do setor. Criou-se um sistema de fichas para organizar informações administrativas, econômicas e financeiras. Foi produzido um mapa das cooperativas existentes no Estado, identificando sua localização por município, além de diagramas sobre o número de sociedades por rodovias e estudos comparativos das operações em relação ao capital social.
Também foi organizado um quadro sobre o consumo de gêneros nas cooperativas de consumo.
É difícil ler esse trecho sem estabelecer uma ligação direta com o presente.
O que hoje chamamos de inteligência de dados começava, naquele tempo, com fichas, questionários, mapas, tabelas e muita organização.
O próprio relatório afirma que aquele levantamento permitia conhecer a posição do cooperativismo e observar o seu crescimento em São Paulo.
E os números finais ajudam a dimensionar o trabalho.
Somente a Secção de Assistência e Estatística registrou, entre outras atividades, 1.666 movimentações de autos, 3.127 despachos do chefe da Secção, 208 informações, 45 pareceres, 566 ofícios, 498 questionários estatísticos recebidos, 109 pessoas atendidas, 52 visitas às cooperativas e 249 balancetes e balanços estudados.
Não são apenas números.
São evidências de uma estrutura administrativa que procurava acompanhar um movimento econômico e social em expansão.
É justamente por isso que os registros de Otacílio Tomanik têm tamanho valor histórico. Ele não preservou somente acontecimentos. Preservou procedimentos, números, dificuldades, soluções e uma forma de pensar o desenvolvimento do cooperativismo.
Ao revisitarmos essas páginas em 2026, percebemos que muitas das palavras mudaram, algumas estruturas desapareceram e novas instituições surgiram. A tecnologia transformou completamente a maneira de administrar uma cooperativa.
Mas os fundamentos permanecem.
Segurança jurídica. Assistência técnica. Contabilidade confiável. Informação. Estatística. Gestão. Conhecimento da realidade. Apoio ao produtor.
Em 1939, tudo isso já estava colocado no papel.
E talvez esteja justamente aí uma das grandes contribuições desta série MEMÓRIAS DO AGRO: mostrar que muito do que hoje apresentamos como moderno começou a ser construído décadas atrás, pelo trabalho de pessoas que compreenderam que o desenvolvimento do campo precisava de instituições fortes e organização.
Otacílio Tomanik foi um desses guardiões.
Ao registrar detalhadamente aquela estrutura, ele deixou para as gerações seguintes mais do que um relatório administrativo. Deixou uma fotografia de um momento em que São Paulo começava a transformar a organização dos produtores em instrumento de desenvolvimento.
Quase nove décadas depois, a mensagem continua atual: produzir faz o campo avançar. Mas é organização, conhecimento e gestão que permitem transformar produção em futuro (Rodrigo Simões; Jornalista / Administrador de Empresas / Gestor Público; Mtb 32.591/SP; 2/10/26)

