Do fiasco climático à blindagem do poder – Por Paula Sousa
Imagem Poder360- Reprodução
O cenário político do Brasil é previsível, quase como uma comédia de mau gosto. A desastrosa COP30, (será sempre lembrada como FLOP30) evento climático que deveria ser o principal destaque diplomático do ano acabou se tornando um fiasco global, completamente sem importância. E, assim que esse fiasco terminou, o presidente — que, sejamos sinceros, não está nem aí para o planeta — voltou imediatamente ao que sempre foi sua prioridade: garantir a própria sobrevivência no poder.
A indicação de um antigo aliado para o cargo mais elevado no Judiciário vai além de um simples ato administrativo; trata-se de uma estratégia deliberada, destinada a garantir a proteção jurídica do líder do Executivo e de todo um grupo que o apoia. Essa é a essência da trama em curso: converter o Supremo Tribunal, a instância final da Justiça, em um escudo pessoal contra possíveis problemas legais.
Lealdade acima da luz jurídica
O nome sugerido foi Jorge Messias, o "Bessias", office boy de Dilma Rousseff, que é conhecido por sua total submissão ao presidente, e foi colocado na disputa sem considerar quaisquer classificações de conhecimento jurídico previstas. Não se trata de competência, mas de lealdade absoluta. Esta é a terceira vez em que Lula exerce seu direito constitucional para nomear um aliado de confiança no Supremo Tribunal Federal. Três soldados já estão estrategicamente posicionados, criando um tripé de suporte que assegura uma maioria coesa.
A mensagem é clara: o Judiciário não atua como guardião da lei, mas como um instrumento da agenda política. O líder petista, sempre focado em sua própria sobrevivência, tem consciência de que, quanto mais aliados tiver no STF, maiores serão suas chances de evitar qualquer complicação judicial.
A decisão quebrou um acordo político que havia sido feito nos bastidores. O compromisso não oficial com Davi Alcolumbre, o líder do Senado, foi simplesmente desconsiderado. Ele, que havia usado sua influência para tentar garantir a carga vitalícia para sua proteção, ao senador Rodrigo Pacheco, acabou sendo tratado com um desdém humilhante. O frustrado aspirante ao cargo representa o aliado usado e descartado, um sujeito que atuou como peão de batalha e, ao final, foi deixado de lado.
A insurgência e a morosidade como vingança
A resposta do Senado foi rápida e contundente, a ponto de alguns classificarem a situação como uma "guerra santa" contra o Executivo. O líder do colegiado, se sentiu traído, não apenas expressou seu descontentamento, mas também começou uma batalha nos bastidores para barrar a ascensão do indicado.
O Senado possui uma vantagem significativa: não há um prazo para analisar a indicação. Não há lei que obrigue a casa a votar com rapidez. Por essa razão, o atraso se torna a arma mais eficaz dos parlamentares. A estratégia é simples: não rejeitar, apenas adiar. Permitir que a sabatina e a votação presas à lentidão burocrática, fazendo com que o processo se arraste.
Essa demora estratégica afeta diretamente o governo e favorecendo a oposição, uma vez que o principal adversário do Planalto agora é o calendário eleitoral.
O cálculo cínico da eleição futura
A estratégia de empurrar com a barriga tem como objetivo adiar a decisão até o ano das eleições do próximo ano ou até mesmo depois disso. Durante o período eleitoral, a pressão sobre os parlamentares para satisfazer suas bases aumenta significativamente. Aprovar um aliado ideológico do presidente pode se tornar um fardo eleitoral complicado de suportar.
O sonho da oposição, embora seja quase impossível, é que a vaga permaneça em aberto até a próxima eleição presidencial. Caso isso ocorra e um candidato de direita assuma, ele poderia nomear um novo ministro, corrigindo o atual desequilíbrio no Supremo.
Se a direita conseguir nomear novos ministros para as vagas que surgirem – inclusive por aposentadorias - a balança de poder na Corte pode mudar. Isso permitiria, pelo menos em teoria, acabar com os abusos cometidos nos últimos anos, cessar a perseguição política aos opositores e desmantelar o sistema de censura e controle usado pelo Estado para restringir a informação.
A casta privilegiada: o País como penhora
O atrito com o Senado vai além do conflito pela indicação; ele expõe a agenda ideológica que a elite socialista de Brasília busca estabelecer. O indicado atuará não apenas como protetor jurídico-político do presidente, mas também como voto determinante em questões que impactam diretamente a economia, segurança e liberdade do cidadão comum.
Mais um juiz, alinhado ideologicamente, será um voto garantido para aumentar a carga tributária sobre a classe produtiva. Debate-se no STF a regulamentação de contratos de prestação de serviço (como motoristas de aplicativo e microempreendedores), sob a justificativa de “justiça social”. Na prática, é a fome insaciável de impostos do governo falando alto. É uma tentativa de impor mais cobranças obrigatórias, tirando uma parte considerável da renda de quem trabalha por conta própria. Lula e Haddad querem o dinheiro do povo e conta com seus aliados de toga para preparar o caminho desse saque legalizado.
Essa casta privilegiada de Brasília, que se considera “elite”, se comporta como se o país fosse um bem que pode ser hipotecado sempre que atenda aos seus próprios interesses. Para se manterem protegidos e preservarem sua visão de mundo que oprime os produtores, eles sacrificam o bem-estar de toda a população. A indicação de “Bessias”, em última análise, é uma maneira de punir a sociedade como um todo para favorecer um pequeno grupo privilegiado.
O desfecho provável
O presidente do Senado, irritado, já está usando seu poder para aprovar projetos que prejudicam as contas públicas — as famosas “pautas-bomba”. A intenção é clara: aumentar o custo político da indicação. Mas existe a chance de que, depois de toda a pressão, o Senado ceda e o office boy seja aprovado após um acordo caro, envolvendo emendas e vantagens. Se isso acontecer, o País será prejudicado duas vezes: pelo gasto político-financeiro da negociação e pela indicação ideológica garantindo mais poder ao Supremo.
Apesar de toda essa expectativa, o cenário mais provável é que o indicado seja aprovado. A tradição do Senado de ceder ao Executivo é quase inabalável, sustentada pelo medo da retaliação futura de quem assume a cadeira no STF.
O único consolo para quem observa tudo isso com descrença é que, independentemente do resultado, a briga já vale a pena. Quanto mais Executivo e Legislativo se enfrentam publicamente, mais exposta fica a estrutura deteriorada do poder. O conflito revela uma verdade simples: a política brasileira não é guiada por mérito, mas por interesse, e os Tribunais Superiores funcionam, hoje, como pilares de um projeto de poder que ignora a lei em nome da proteção pessoal de seu líder.
Que a disputa dure bastante, porque é no caos dos poderosos que nasce a única chance de o povo acordar (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 24/11/2025)

