Drex: Caminho para o crédito social chinês no Brasil – Por Paula Sousa
Imagem Reprodução Blog Click, Petróleo e Gás
Quem assistiu ao episódio “Queda Livre” da série Black Mirror talvez tenha sentido calafrios ao imaginar um futuro em que toda a sua vida depende de uma pontuação social. Na trama, a protagonista precisa manter notas altas para alugar um apartamento novo, mas, ao tentar desesperadamente agradar e conquistar pontos, vê sua vida se desmoronar. Tudo que parecia ser apenas uma “métrica social” se transforma em um pesadelo distópico de exclusão, humilhação e desespero.
Esse enredo fictício não está tão distante da realidade. O que na televisão parece apenas ficção científica, em países como a China já se tornou realidade com o crédito social — e no Brasil, pode estar se aproximando perigosamente através do Drex, o Real Digital.
O que é o Crédito Social Chinês?
Na China, o governo implementou um sistema que avalia e controla o comportamento dos cidadãos. A cada ação, pontos são ganhos ou perdidos: obedecer ao regime aumenta sua pontuação, enquanto criticar o governo, protestar, participar de cultos religiosos ou até se associar a pessoas “malvistas” reduz drasticamente a nota.
As consequências são reais e cruéis: quem tem baixa pontuação pode ser impedido de viajar, acessar crédito, matricular filhos em boas escolas, usar transporte público e até comprar certos produtos. Pior: o sistema incentiva a delação, premiando quem denuncia vizinhos e conhecidos. Uma repetição moderna das práticas mais sombrias da história, como na Alemanha nazista, quando cidadãos denunciavam uns aos outros para agradar ao regime.
O Drex e o risco brasileiro
O Drex, moeda digital centralizada pelo Banco Central, é vendido ao público como modernidade e praticidade. Mas, na prática, significa que todo o dinheiro estará sob controle direto do governo. Cada transação poderá ser rastreada, analisada e — se houver vontade política — bloqueada.
Imagine os cenários:
Durante a pandemia, quem não tivesse o calendário vacinal em dia poderia ter o Drex bloqueado.
Quem ousasse comprar medicamentos “não aprovados” teria a transação cancelada.
Quem criticasse políticas do governo nas redes sociais poderia ser punido com restrições financeiras.
Até compras simples, como ração para animais, poderiam ser questionadas se o dono não estivesse cadastrado no sistema oficial.
Esse último ponto não é teoria: o governo brasileiro lançou um programa de cadastro de pets, alegando ser apenas um registro para organização. Mas basta olhar para fora: na Alemanha, algo semelhante gerou bilhões em impostos sobre animais domésticos. Aqui, dizem que não será para cobrar imposto.
Mas já ouvimos esse discurso antes: foi a mesma justificativa usada na taxação das “blusinhas da Shein”, quando a primeira-dama Janja declarou que “o imposto é para a empresa, não para o cliente”. No fim, quem paga a conta sempre é o povo. E da mesma forma, estão discutindo taxações sobre movimentações bancárias, incluindo o Pix. O roteiro se repete.
A admiração pelo modelo chinês
Não é coincidência que parte da elite política e jurídica brasileira admire abertamente o modelo chinês. O ministro Gilmar Mendes, do STF, já declarou que o tribunal vê com bons olhos a governança daquele país. Lula, por sua vez, se reuniu nos EUA com representantes do governo chinês para tratar justamente do controle das redes sociais — a mesma pauta que hoje ameaça a liberdade digital no Brasil.
Enquanto isso, a China avança silenciosamente sobre nossa soberania: compra terras agrícolas, minas de exploração, empresas de energia, estatais estratégicas e até veículos de comunicação, como a Band. Passo a passo, cria raízes no coração da economia e da informação brasileira.
O risco do fim do dinheiro físico
Outra preocupação é a tentativa de acabar com o papel-moeda. A recente PEC anti-drex protocolada no Congresso de autoria da Deputada Federal Júllia Zanatta, busca justamente impedir isso, proíbe o Banco Central de criar uma moeda digital sem passar pelo Congresso Nacional, garantindo que o dinheiro físico continue existindo. O artigo 5º proíbe a extinção do papel moeda como meio de pagamento de curso forçado no território nacional. Porque, sem ele, a população ficaria 100% dependente de carteiras digitais controladas pelo Estado. E o que acontece quando o governo decide que você “ não está se comportando ”? Simples: seu dinheiro deixa de existir para você .
Caminho para o totalitarismo
A história mostra que nenhum regime autoritário nasce declarando-se ditadura. Sempre começa com promessas de ordem, progresso e modernidade. Mas, aos poucos, a liberdade é substituída por vigilância, censura e punição social.
Hoje, temos o exemplo claro da China. Amanhã, pode ser o Brasil. O Drex, somado a iniciativas como o cadastro de pets, a taxação de compras e o controle das redes sociais, aponta para um futuro em que a liberdade individual não será mais um direito, mas um privilégio concedido pelo Estado.
A ficção de Black Mirror já mostrou o horror de viver preso a uma pontuação social. A China já demonstrou que isso pode ser realidade. E o Brasil, se não resistir, pode ser o próximo capítulo dessa distopia. (Paula Sousa, historiadora, professora e articulista; 30/9/2025)

