Estudo: A eleição que a imprensa cobre não é a eleição que as redes falam
Eleitores ocorrem no mês de outubro-26. Foto Nelson Jr. Ascom TSE
Por Renato Dolci
Uma análise de 5.417 manchetes e 508 mil posts mostra que a eleição de 2026 acontece em duas esferas desconectadas. A imprensa concentra a cobertura em articulação política e economia, enquanto as redes são dominadas por debates culturais e morais, quase ausentes no noticiário
À medida que o Brasil se aproxima do ciclo eleitoral de 2026, uma análise sistemática de dados revela uma fragmentação profunda na esfera pública. De um lado, a mídia tradicional, estruturada em torno de pesquisas de intenção de voto, alianças partidárias e indicadores econômicos. Do outro, as redes sociais, um ecossistema onde a relevância é determinada pelo poder de mobilização de narrativas identitárias e de confronto sobre a forma como cada espectro enxerga o que é certo para o país.
Para mapear essa divisão com rigor, realizei uma coleta e análise de dados abrangente, comparando a cobertura de seis temas eleitorais em ambas as plataformas ao longo de 2026. Os resultados indicam que os temas que dominam a pauta jornalística são bastante tímidos nas redes, e vice-versa. A diferença de cobertura em alguns temas chega a 27,82 pontos percentuais.
A divisão da atenção
- Cobertura na mídia tradicional
A mídia tradicional dedica sua atenção principalmente a dois temas: articulação política (34,21% das menções) e economia (28,58%). Juntos, esses dois temas representam 62,79% de toda a cobertura jornalística sobre as eleições de 2026.
A narrativa jornalística é estruturada em torno do "jogo político": quem se alinha com quem, qual é a viabilidade de cada candidato, como as alianças se formam. Manchetes sobre a possível candidatura de Flávio Bolsonaro, o posicionamento de Tarcísio de Freitas e as estratégias de Lula para a reeleição dominam a pauta. A economia aparece como o pano de fundo que pode selar o destino da eleição, com discussões sobre inflação, dólar e crescimento do PIB. Segurança pública é tratada como um tema de gestão, com análises sobre políticas de segurança de diferentes governadores.
- Cobertura nas redes sociais
As redes sociais apresentam uma distribuição radicalmente diferente. O tema dominante é debate cultural/moral (26,79% das menções), seguido por segurança pública (22,45%) e economia (14,54%). Os temas que dominam a mídia, como articulação política (6,39%), são bastante marginais.
A narrativa nas redes é movida por pautas de identidade, valores e confronto. Debate cultural/moral abrange discussões sobre costumes, gênero, religião, educação e a "ideologia de esquerda" versus "valores tradicionais". Segurança pública é discutida não como política pública, mas como medo e insegurança, frequentemente associada a um espectro político específico.
Economia, diferentemente da mídia, aparece com peso significativo nas redes (14,54%), refletindo discussões sobre custo de vida, inflação e impacto nas famílias. Declarações de pré-candidatos aparecem como majoritariamente críticas sobre frases e vídeos repercutidos na imprensa, reforçando visões antagônicas e manifestações de discordância e, por muitas vezes, ódio e ofensas.
- O abismo de cobertura
A diferença de cobertura entre as duas plataformas é dramática:
O tema com maior dissonância é debate cultural/moral, com uma diferença de 23,61 pontos percentuais. O tema que é praticamente marginal na imprensa (3,19%) é o mais discutido nas redes (26,79%) — uma inversão quase completa de prioridades. Em seguida, articulação política (27,82 pontos de diferença) mostra que o principal assunto da imprensa é praticamente irrelevante nas redes sociais.
Engajamento: A força multiplicadora das redes
Enquanto a cobertura em menções já revela uma divisão, o engajamento (curtidas, compartilhamentos, comentários) amplifica essa diferença de forma exponencial. Na mídia tradicional, cada menção gera um engajamento médio de 3.400 interações. Nas redes sociais, o engajamento varia dramaticamente por tema.
Quando esse ajuste é feito, apenas um tema mantém vantagem estrutural nas redes sociais: debate cultural/moral, cujo engajamento médio por menção é mais de três vezes superior ao da mídia tradicional. Em todos os demais temas, a lógica se inverte.
Articulação política e economia, que concentram grande parte da agenda jornalística, apresentam engajamento unitário extremamente baixo nas redes, indicando circulação ampla, mas pouca mobilização efetiva.
Segurança pública e declarações de pré-candidatos revelam um padrão intermediário: são temas recorrentes e emocionalmente carregados, mas cuja capacidade de gerar reação por post é limitada quando controlada pela frequência.
O resultado aponta que a assimetria entre mídia e redes não se explica apenas pela viralidade, mas por um fenômeno mais específico: a hiper-eficiência das pautas morais em converter cada publicação em atenção ativa, turbinadas pelo algoritmo, enquanto os demais temas dependem de repetição massiva para produzir impacto.

Distribuição de engajamento: concentração vs. dispersão
A distribuição de engajamento revela outra dimensão da divisão. Na mídia tradicional, o engajamento é relativamente disperso entre seus temas prioritários: articulação política (34,21%) e economia (28,58%) somam 62,79% do engajamento total. Nas redes sociais, a concentração é muito maior: debate cultural/moral sozinha consome 54,54% de todo o engajamento, enquanto articulação política e Justiça Eleitoral somam apenas 3,93%.
Distribuição de engajamento - mídia tradicional:
- Articulação política: 34,21%
- Economia: 28,58%
- Segurança Pública: 16,52%
- Justiça Eleitoral: 11,74%
- Declarações de pré-candidatos: 5,78%
- Debate cultural/moral: 3,19%
Distribuição de engajamento - redes sociais:
- Debate cultural/moral: 54,54%
- Segurança pública: 27,57%
- Declarações de pré-candidatos: 11,21%
- Economia: 2,76%
- Justiça Eleitoral: 2,08%
- Articulação política: 1,85%
Essa concentração sugere que as redes sociais operam em lógica de "tudo ou nada": um tema que mobiliza identidade e confronto domina absolutamente a conversa, enquanto temas pragmáticos tendem a ser mais marginalizados. A economia, embora tenha 14,54% de menções nas redes, representa apenas 2,76% do engajamento total — indicando que as pessoas falam sobre economia, mas não se engajam intensamente com o tema.
Conclusão: o voto será decidido fora da imprensa
Os dados revelam algo que nenhuma pesquisa de intenção de voto ainda consegue capturar: o Brasil está testemunhando duas eleições de 2026 acontecendo em universos paralelos. A eleição da mídia tradicional, estruturada em torno de pragmatismo político e econômico, segue as regras do xadrez institucional. A eleição das redes sociais, movida por narrativas de identidade e confronto, segue a lógica do engajamento emocional.
Mas há algo mais profundo em jogo. A assimetria não é meramente temática, mas epistemológica: as duas esferas públicas operam com diferentes critérios de relevância, diferentes métricas de sucesso e diferentes formas de mobilização. Um candidato pode liderar nas pesquisas tradicionais (baseadas em intenção de voto) e estar em desvantagem no engajamento digital (baseado em reação emocional). Inversamente, um candidato pode dominar as redes sem ter necessariamente mais votos (Renato Dolci é cientista político (PUC-SP) e mestre em Economia (Sorbonne). Atua há mais de 15 anos com marketing digital, análise de dados e pesquisas públicas e privadas de comportamento digital; CNN Brasil, 19/2/26)

