Expodireto reflete cautela do produtor diante de margens apertadas no campo
Faturamento desta edição não foi revelado, a exemplo do ano passado — Foto: Divulgação
Um dos principais eventos do calendário agrícola brasileiro, a feira foi realizada em Não-Me-Toque (RS) nesta semana.
A discussão sobre o endividamento agrícola, agravado por sucessivas frustrações de safras no Rio Grande do Sul, marcou a última edição da Expodireto Cotrijal, que se encerrou na última sexta-feira em Não-Me-Toque (RS). Uma das principais feiras do calendário agrícola nacional, a exposição ocorre desde o ano 2000, e só deixou de ser realizada em 2021, devido à pandemia de covid-19.
Desde o ano passado, a Cotrijal Cooperativa Agropecuária e Industrial, organizadora da Expodireto, deixou de divulgar o volume de negócios encaminhados ao final da feira.
Neste ano, segundo a organização da feira, o ambiente de negócios foi mais cauteloso, o que foi possível perceber em conversas com expositores e produtores rurais.
"No passado, conseguimos juntos com as empresas fazer um conceito de que aqui na Expodireto se compra mais barato, e as empresas já vêm com esse espírito de preços promocionais ou com descontos melhores, mas no geral, com certeza o produtor está mais cauteloso. Então eu não tenho aquela euforia de comercialização como havia em anos anteriores", afirmou o presidente da Cotrijal, Nei César Manica.
Durante a programação da feira, a Emater divulgou a sua estimativa de safra para o Rio Grande do Sul. O levantamento aponta que a safra de soja, principal cultura do Estado, deve chegar a 19 milhões de toneladas, 11% abaixo do que se previa inicialmente. O cenário foi agravado, mais uma vez, pela escassez de chuvas em algumas regiões.
Em um cenário de margens apertadas, o produtor rural Luiz Fernando de Oliveira Branco, 66 anos, de Coxilha (RS), adiou investimentos que estavam previstos para 2026. Os planos de instalar um sistema de irrigação ficaram para o ano que vem. Para reduzir custos, cortou em 20% a adubação aplicada na lavoura.
Com as variedades precoces, Branco calcula que irá colher em média 40 sacas de soja por hectare. A ideia, no início da safra, era colher 65 - mesmo número que ele ainda espera colher nas variedades mais tardias, o que irá depender do comportamento do clima.
"Foi uma safra em que nós tínhamos uma grande expectativa e em que mais uma vez estamos frustrados, por todas essas questões: custos de produção, baixa produtividade, preços baixos para vender. Mais uma vez estamos marcando o passo", resume o produtor, que é gerente técnico da Fazenda Cambará Agropecuária, que nesta safra semeou 1,3 mil hectares de soja e 270 de milho.
Alerta nos fertilizantes
No mercado de insumos, o ritmo de compras também reflete a postura mais cautelosa do produtor. Segundo Eduardo Monteiro, country manager da Mosaic no Brasil, o avanço das aquisições de fertilizantes neste ano está mais lento do que no mesmo período de 2024. Ele afirma que cerca de 28% do volume estimado para o mercado brasileiro já foi negociado, ante 38% no mesmo intervalo do ano passado.
A desvalorização das commodities também influencia nos números. A relação de troca está em 26 sacas de soja por tonelada de fertilizante, enquanto há um ano era de 24 sacas. Em 2020, esse número estava em 20 sacas. No milho, são 61 sacas por tonelada de produto, acima das 43 de um ano atrás.
"Essa postergação pode gerar uma concentração maior, e isso significa um afunilamento, e aí você tem um estresse logístico, que pode encarecer custos portuários, preço de frete", adverte.
Milho em alta
No mercado de sementes, não é apenas a soja que tem sustentado a demanda por tecnologia. Para Fabrício Passini, diretor de agronomia da Syngenta Seeds, o milho vem ganhando espaço nas lavouras do Sul e tem ajudado a manter o interesse por inovação no campo.
Segundo ele, a cultura tem sido vista pelos produtores como uma estratégia de resiliência nas propriedades, especialmente em um contexto de margens mais apertadas na agricultura.
"É um mercado que está pagando a conta do produtor. Conversando com produtores aqui na feira, todo mundo está falando em aumentar a área de milho", observa Passini.
Cautela nas máquinas
No segmento de máquinas e tecnologia embarcada, o cenário também reflete a cautela do produtor.
Segundo Arthur Paratella, da fabricante italiana ROJ, o mercado de equipamentos novos está mais travado, enquanto cresce a demanda por modernização de máquinas já existentes. A empresa produz motores elétricos brushless aplicados à agricultura.
Por outro lado, segundo o executivo, tem crescido opção pela modernização de máquinas usadas. A empresa está abrindo revendas para trabalhar o retrofit, mercado considerado mais aquecido.
"Com R$ 150 mil, R$ 200 mil, a sua máquina fica melhor do que uma de R$ 1 milhão. Então hoje o agricultor tem essa visão", afirma Paratella (Globo Rural, 14/3/26)

