Fertilizantes: Caminhos para reduzir a vulnerabilidade do agro brasileiro
Colheita de feijão na Fazenda Primavera, em Sorriso (MT). Foto Tiago Queiroz Estadão
Por Celso Moretti
Agricultura de precisão, manejo sítio-específico e uso intensivo de dados permitem reduzir o consumo de fertilizantes sem perda de produtividade.
A escalada recente e das tensões no Estreito de Ormuz não é um evento distante. Trata-se de um sinal direto de risco para o agronegócio brasileiro. Por ali transita cerca de 20% do petróleo global - base energética da produção de fertilizantes nitrogenados. Em um país altamente dependente de importações, cada instabilidade geopolítica se traduz em aumento de custos e incerteza no campo. A vulnerabilidade brasileira é conhecida. O que falta é tratá-la como prioridade estratégica.
O Brasil consolidou-se como potência agrícola global, mas sobre bases frágeis no que diz respeito a insumos. Importa mais de 80% dos fertilizantes que consome. Isso expõe o produtor a choques externos - conflitos, sanções ou restrições comerciais - sobre os quais não há controle. Em 2025, o País bateu recorde: 45,5 milhões de toneladas de fertilizantes importados. O problema, longe de novo, se intensifica.
A resposta tem sido insuficiente. O Plano Nacional de Fertilizantes apresenta diretrizes corretas, mas sua implementação é lenta. O País acumula diagnósticos consistentes, mas carece de execução. Enquanto isso, o ambiente internacional se torna mais instável e menos previsível.
Reduzir a dependência externa não é escolha ideológica - é imperativo econômico. O primeiro passo é diversificar fornecedores.
A concentração atual - países do Golfo, Rússia, Belarus e China - amplia riscos desnecessários. Ampliar acordos com países como Marrocos e Canadá, além de estruturar contratos de longo prazo com garantias de fornecimento, é uma agenda pragmática. Mas diversificar não resolve o problema da dependência sozinho. É preciso produzir mais fertilizantes no Brasil. A retomada da indústria nacional, especialmente nitrogenados baseados em gás natural, deve ser prioridade.
O investimento da Petrobras na Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN III), no Mato Grosso do Sul, com operação prevista apenas para 2029, evidencia o descompasso entre urgência e execução. O País reage lentamente a um problema que avança rapidamente. No caso do potássio, o entrave é institucional. Projetos como o de Autazes (AM) permanecem paralisados em meio a insegurança jurídica e conflitos socioambientais. Sem um modelo de governança que concilie exploração mineral e direitos territoriais, o Brasil continuará dependente, mesmo dispondo de reservas relevantes.
Há, porém, um caminho imediato e subexplorado: aumentar a eficiência no uso. Agricultura de precisão, manejo sítio-específico e uso intensivo de dados permitem reduzir o consumo sem perda de produtividade. Trata-se de uma mudança estrutural: sair da lógica média e avançar para a gestão de variabilidade.
Nesse campo, o Brasil tem vantagem competitiva. O avanço dos bioinsumos, como a fixação biológica de nitrogênio e bactérias mobilizadoras de fósforo, já permite reduzir o uso de fertilizantes em várias cadeias produtivas. Em determinadas culturas, ganhos de eficiência podem representar reduções de 10% a 20% no uso de fertilizantes, contribuindo diretamente para mitigar a dependência externa. É uma agenda que combina eficiência econômica e sustentabilidade - e pode ser ampliada rapidamente.
Outro ponto crítico é a logística. O custo do fertilizante não é apenas o preço de compra, mas também o de distribuição. Gargalos em portos, ferrovias e armazenagem elevam custos e reduzem competitividade. Investimentos no Arco Norte e na integração logística são essenciais para melhorar a eficiência do sistema.
No plano internacional, fertilizantes precisam ser tratados como insumos estratégicos. Em um setor que responde por quase 30% do PIB e 50% das exportações, segurança de abastecimento deve ser prioridade da diplomacia econômica. O Brasil precisa atuar de forma mais assertiva em acordos e fortalecer parcerias para reduzir sua exposição a choques externos.
A crise em Ormuz não cria o problema - apenas o torna mais visível. E, ao fazê-lo, abre uma oportunidade: transformar vulnerabilidade em estratégia. O objetivo não é autossuficiência, mas resiliência. A capacidade desejada de enfrentar choques sem comprometer a competitividade do setor que sustenta a economia brasileira. O diagnóstico já está feito. O risco, agora, é a inação (Celso Moretti é engenheiro agrônomo e ex-presidente da Embrapa; Estadão, 23/4/26)

