23/04/2026

Fertilizantes: Caminhos para reduzir a vulnerabilidade do agro brasileiro

Fertilizantes: Caminhos para reduzir a vulnerabilidade do agro brasileiro

Colheita de feijão na Fazenda Primavera, em Sorriso (MT). Foto Tiago Queiroz Estadão

 

Por Celso Moretti

 

 

Agricultura de precisão, manejo sítio-específico e uso intensivo de dados permitem reduzir o consumo de fertilizantes sem perda de produtividade.

 

A escalada recente e das tensões no Estreito de Ormuz não é um evento distante. Trata-se de um sinal direto de risco para o agronegócio brasileiro. Por ali transita cerca de 20% do petróleo global - base energética da produção de fertilizantes nitrogenados. Em um país altamente dependente de importações, cada instabilidade geopolítica se traduz em aumento de custos e incerteza no campo. A vulnerabilidade brasileira é conhecida. O que falta é tratá-la como prioridade estratégica.

 

O Brasil consolidou-se como potência agrícola global, mas sobre bases frágeis no que diz respeito a insumos. Importa mais de 80% dos fertilizantes que consome. Isso expõe o produtor a choques externos - conflitos, sanções ou restrições comerciais - sobre os quais não há controle. Em 2025, o País bateu recorde: 45,5 milhões de toneladas de fertilizantes importados. O problema, longe de novo, se intensifica.

 

A resposta tem sido insuficiente. O Plano Nacional de Fertilizantes apresenta diretrizes corretas, mas sua implementação é lenta. O País acumula diagnósticos consistentes, mas carece de execução. Enquanto isso, o ambiente internacional se torna mais instável e menos previsível.

 

Reduzir a dependência externa não é escolha ideológica - é imperativo econômico. O primeiro passo é diversificar fornecedores.

 

A concentração atual - países do Golfo, Rússia, Belarus e China - amplia riscos desnecessários. Ampliar acordos com países como Marrocos e Canadá, além de estruturar contratos de longo prazo com garantias de fornecimento, é uma agenda pragmática. Mas diversificar não resolve o problema da dependência sozinho. É preciso produzir mais fertilizantes no Brasil. A retomada da indústria nacional, especialmente nitrogenados baseados em gás natural, deve ser prioridade.

 

investimento da Petrobras na Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN III), no Mato Grosso do Sul, com operação prevista apenas para 2029, evidencia o descompasso entre urgência e execução. O País reage lentamente a um problema que avança rapidamente. No caso do potássio, o entrave é institucional. Projetos como o de Autazes (AM) permanecem paralisados em meio a insegurança jurídica e conflitos socioambientais. Sem um modelo de governança que concilie exploração mineral e direitos territoriais, o Brasil continuará dependente, mesmo dispondo de reservas relevantes.

 

Há, porém, um caminho imediato e subexplorado: aumentar a eficiência no uso. Agricultura de precisão, manejo sítio-específico e uso intensivo de dados permitem reduzir o consumo sem perda de produtividade. Trata-se de uma mudança estrutural: sair da lógica média e avançar para a gestão de variabilidade.

 

Nesse campo, o Brasil tem vantagem competitiva. O avanço dos bioinsumos, como a fixação biológica de nitrogênio e bactérias mobilizadoras de fósforo, já permite reduzir o uso de fertilizantes em várias cadeias produtivas. Em determinadas culturas, ganhos de eficiência podem representar reduções de 10% a 20% no uso de fertilizantes, contribuindo diretamente para mitigar a dependência externa. É uma agenda que combina eficiência econômica e sustentabilidade - e pode ser ampliada rapidamente.

 

Outro ponto crítico é a logística. O custo do fertilizante não é apenas o preço de compra, mas também o de distribuição. Gargalos em portos, ferrovias e armazenagem elevam custos e reduzem competitividade. Investimentos no Arco Norte e na integração logística são essenciais para melhorar a eficiência do sistema.

 

No plano internacional, fertilizantes precisam ser tratados como insumos estratégicos. Em um setor que responde por quase 30% do PIB e 50% das exportações, segurança de abastecimento deve ser prioridade da diplomacia econômica. O Brasil precisa atuar de forma mais assertiva em acordos e fortalecer parcerias para reduzir sua exposição a choques externos.

 

A crise em Ormuz não cria o problema - apenas o torna mais visível. E, ao fazê-lo, abre uma oportunidade: transformar vulnerabilidade em estratégia. O objetivo não é autossuficiência, mas resiliência. A capacidade desejada de enfrentar choques sem comprometer a competitividade do setor que sustenta a economia brasileira. O diagnóstico já está feito. O risco, agora, é a inação (Celso Moretti é engenheiro agrônomo e ex-presidente da Embrapa; Estadão, 23/4/26)