22/05/2026

Flávio ganha força após convite de Trump - Por Paula Sousa

A engrenagem político-midiática brasileira parece ter entrado em modo turbo. Nos últimos dias, a velha imprensa tentou transformar um áudio vazado de Flávio Bolsonaro pedindo patrocínio privado para uma cinebiografia em uma “crise institucional”, enquanto o escândalo envolvendo Lula, ministros, Banco Central e o Banco Master recebeu um silêncio quase litúrgico.

 

A diferença de tratamento é tão escancarada que chega a ser caricata. De um lado, jornais e blogs aliados ao governo tentam fabricar a ideia de que Flávio estaria isolado politicamente. Do outro, praticamente ignoram denúncias envolvendo o uso da máquina estatal para socorrer interesses ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro. O problema para o velho consórcio midiático é que o monopólio da narrativa acabou. O público aprendeu a enxergar as costuras do espetáculo.

 

A fábrica de “crises”

 

O roteiro é conhecido: um grande veículo publica uma suposta crise interna baseada em “fontes próximas”, e imediatamente blogs governistas replicam aquilo como fato consumado. O alvo agora é Flávio Bolsonaro.

O Globo publicou que a cúpula do PL teria estabelecido um “prazo de 15 dias” para avaliar a viabilidade da candidatura do senador após conversas envolvendo Daniel Vorcaro. Em seguida, o Brasil 247 correu para ampliar o incêndio artificial com manchetes afirmando que Valdemar Costa Neto avaliaria se Flávio continuaria ou não candidato.

 

Tudo embalado pelo velho truque das “fontes anônimas”. Um teatro previsível: cria-se um ambiente fictício de instabilidade para tentar assustar aliados do Centrão e dificultar alianças estaduais em torno do nome do senador.

O Brasil 247 ainda publicou declarações do ministro Paulo Pimenta aconselhando aliados de Flávio a “saltarem fora logo”, insinuando até prisão do senador. A ironia parece saída de um roteiro satírico: integrantes de um governo cercado de escândalos financeiros posando de fiscais da moralidade pública.

 

Como se não bastasse, parte da imprensa tentou transformar Michelle Bolsonaro em personagem de novela mexicana política, sugerindo que ela estaria “feliz” com um suposto enfraquecimento do enteado. A própria Gazeta do Povo registrou que Michelle evitou alimentar o falatório e respondeu apenas: “Tem que perguntar para ele.”

O jornalismo militante sente saudade da época em que manchetes derrubavam candidaturas sozinhas. O problema é que o eleitor brasileiro já desenvolveu anticorpos contra esse tipo de encenação.

 

O Caso Master e o socorro aos bilionários

 

Enquanto rios de tinta são gastos em torno de um áudio sobre patrocínio privado, o verdadeiro escândalo financeiro segue quase blindado. O Caso Master desmonta o discurso do PT como suposto inimigo das elites financeiras. Na prática, o partido aparece mais uma vez operando para proteger interesses bilionários.

 

Veículos como Diário do Poder, Gazeta do Povo e o blog de Daltro Emerenciano revelaram o volume (Algo em torno de R$ 636 milhões) de recursos públicos destinados à Biomm, fábrica de insulina ligada ao Banco Master e da qual Daniel Vorcaro é um dos principais investidores.

 

O problema não é apenas o valor. O centro da discussão é o risco moral e político de direcionar centenas de milhões do dinheiro público para uma estrutura ligada a um banqueiro em dificuldades financeiras.

A situação fica ainda mais delicada diante da revelação feita pelo jornalista Cláudio Dantas de que Márcio Pochmann, atual presidente do IBGE indicado por Lula, ocupava cargo no conselho da Biomm, recebendo remunerações elevadas enquanto a empresa recebia aportes públicos.

 

A reunião no Planalto

 

O coração do Caso Master, porém, estaria em uma reunião realizada no Palácio do Planalto no fim de 2024.

Segundo reportagens do Poder360 e do UOL, baseadas em mensagens obtidas pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero, Daniel Vorcaro teria recorrido ao então ex-ministro Guido Mantega, que atuava como consultor do Banco Master, para buscar apoio político junto a Lula.

 

Naquele momento, o Banco Master negociava uma solução privada: a venda do banco ao BTG Pactual pelo valor simbólico de R$ 1, numa operação típica de mercado para evitar colapso maior.

 

Mas, segundo os relatos divulgados, Lula teria reagido contra a venda e prometido uma solução após a troca de comando no Banco Central. A reunião teria contado também com Gabriel Galípolo.

Mensagens atribuídas a Vorcaro mostram o banqueiro comemorando o encontro logo após sair do Planalto, descrevendo a conversa como “muito forte”.

 

Pouco tempo depois, Roberto Campos Neto deixou o Banco Central e Galípolo assumiu a presidência da instituição.

 

O contra-ataque de Flávio

 

Flávio Bolsonaro decidiu partir para o confronto direto.

 

No Senado, lançou um desafio público para que Daniel Vorcaro e Augusto Lima fossem convocados para uma CPMI. O senador afirmou:

“Eu quero Daniel Vorcaro sentado naquela CPMI falando qual era a relação dele comigo, com Lula e com Alexandre de Moraes. Eu não tenho nada a esconder.”

 

O senador também lembrou escândalos históricos ligados ao PT, como o Petrolão, e citou investigações envolvendo descontos indevidos em aposentadorias do INSS.

O recado foi claro: se querem falar sobre Vorcaro, então que se investigue toda a rede de relações envolvendo governo, Banco Central e dinheiro público.

 

Washington muda o jogo

 

Quando a imprensa parecia satisfeita com a narrativa de desgaste, veio a notícia que causou curto-circuito em Brasília: Donald Trump convidou Flávio Bolsonaro para uma agenda oficial nos Estados Unidos.

A revelação feita pelo jornalista Cláudio Dantas caiu como uma bomba no ambiente político.

 

A reação da imprensa foi quase cômica. O Globo publicou que Flávio viajaria aos EUA “para tentar encontro com Trump”, embora outros veículos, como o Metrópoles, tenham confirmado que o convite partiu diretamente dos americanos, articulado por Marco Rubio e Eduardo Bolsonaro.

 

O desconforto ficou evidente. Parte da mídia tratou a viagem como tentativa de “fugir” da crise envolvendo Vorcaro. O detalhe é que a tal crise parece existir muito mais nos editoriais do que nas ruas.

 

A diferença entre as agendas

 

A comparação com viagens recentes de Lula aos Estados Unidos também foi inevitável.

Lula viajou recentemente a Washington cercado por articulações envolvendo interesses empresariais ligados à JBS. Já Flávio chega à Casa Branca com pautas voltadas para segurança e relações bilaterais.

Entre os temas previstos estão:

 

  • cooperação contra o crime organizado;
  • classificação internacional de facções como PCC e CV como grupos terroristas;
  • investimentos em minerais críticos;
  • redução de tarifas comerciais.

 

Há ainda um elemento simbólico que irrita adversários políticos: Flávio fala inglês fluentemente e deve conceder entrevistas diretamente à imprensa internacional.

A possibilidade de o senador aparecer ao lado de Trump no Salão Oval tem peso político e eleitoral evidente. A imagem projeta internacionalmente a oposição brasileira justamente quando parte da mídia tenta vender a ideia de isolamento.

 

O desespero da velha engrenagem

 

O portal Diário do Poder lembrou recentemente uma velha verdade da política brasileira: escândalos raramente destroem candidaturas por si só. Lula sobreviveu ao Mensalão, ao Petrolão e voltou ao Planalto.

A diferença agora é que a narrativa do “governo dos pobres contra os ricos” parece cada vez mais difícil de sustentar diante das suspeitas envolvendo bancos, bilhões públicos e reuniões reservadas.

 

Pesquisas recentes mostram que Lula continua carregando índices elevados de rejeição. Mesmo sob bombardeio midiático contra Flávio Bolsonaro, o desgaste do governo permanece forte.

 

Enquanto colunistas tentam vender a imagem de uma oposição isolada, o cenário mostra outra realidade: Flávio ganha projeção internacional, mantém espaço no debate político nacional e consegue expor a hipocrisia da esquerda.

A velha mídia ainda age como se pudesse definir sozinha quem sobe e quem cai no tabuleiro político. Mas o Brasil mudou. Hoje, cada manchete exagerada produz o efeito contrário: aumenta a desconfiança do público.

 

O caso Master se tornou mais do que um escândalo financeiro. Virou símbolo de um sistema que parece usar a máquina estatal para proteger aliados enquanto tenta destruir adversários pela narrativa.

E o que mais assusta o establishment talvez seja justamente isso: a percepção de que, desta vez, o roteiro deixou de funcionar (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 22/5/2026)