17/08/2026

Gado brasileiro bate na cerca da China, mas pode pastar nos EUA

Gado brasileiro bate na cerca da China, mas pode pastar nos EUA

Operação Carne Fria 2, do Ibama, em 2024, mirou frigoríficos e fazendas que comercializaram gado criado em áreas embargadas por desmatamento ilegal; filial da JBS foi alvo - Divulgação/Ibama

 Operação Carne Fria 2, do Ibama, em 2024 Divulgação-Ibama

Por Marcos de Vasconcellos

 

  • Limite chinês trava vendas e ameaça alíquota de importação
  • Escassez de gado nos Estados Unidos abre nova frente para exportadores

 

Enquanto o governo brasileiro decide como vai aplicar reciprocidade à injustificável sobretaxação de nossos produtos pelos Estados Unidos, o agro nacional discute como contornar um "tarifaço" do outro lado do mundo.

 

carne bovina ficou fora das novas taxas impostas por Donald Trump, mas agora enfrenta algo ainda pior, vindo de Xi Jinping: uma tarifa que pode saltar de 12% para 67% da noite para o dia.

 

A barreira chinesa subirá assim que atingirmos a cota de 1,106 milhão de toneladas desembaraçadas naquele país neste ano. Na última semana, o Ministério do Comércio da China informou que o Brasil já havia preenchido 90% do limite.

 

Olhando os dados daqui, realmente aceleramos o envio de carne para o mundo. Segundo a Abiec, associação do setor, o Brasil exportou 1,7 milhão de toneladas no primeiro semestre e faturou US$ 9,85 bilhões. A China respondeu por quase metade dessa receita. Foi justamente esse sucesso que ampliou a vulnerabilidade.

 

Como quase 1 milhão de toneladas já havia entrado no mercado chinês no início de agosto, os frigoríficos reduziram os embarques. Em julho, as vendas à China caíram 47% na comparação anual.

 

Enquanto os embarques para a China são travados, seu maior rival pode ter apetite para colocar mais carne brasileira no prato. O rebanho dos Estados Unidos caiu para 86,2 milhões de cabeças, o menor patamar desde 1951, e o país deverá importar cerca de 2,75 milhões de toneladas neste ano.

 

Os balanços de JBS, MBRF e Minerva, divulgados na última semana, dão pistas sobre o que vem pela frente. Quem depende mais do boi está no centro da turbulência.

 

A JBS alcançou receita recorde de US$ 23,9 bilhões, mas terminou o trimestre com prejuízo de US$ 102 milhões. Nos Estados Unidos, o custo do gado subiu mais do que o preço da carne. No Brasil, onde as exportações ajudaram a sustentar o negócio, a receita avançou 28%.

 

A Minerva também mostrou que vender mais não significa ganhar mais. A receita chegou a R$ 14,1 bilhões, mas o lucro caiu 57%, para R$ 197 milhões. Seu Ebitda —indicador que mostra quanto a atividade principal rendeu —recuou 5,5%. A empresa também gastou mais para formar estoques, aumentando a preocupação com sua geração de caixa.

 

A MBRF apareceu melhor na foto. Mesmo com queda no lucro, vendeu volume recorde e ampliou em 5,4% o mesmo indicador operacional. A vantagem veio da diversificação entre carne bovina, aves, alimentos processados e diferentes países. Quando uma parte sofre, as outras ajudam a equilibrar o resultado.

 

A diferença foi notada pelos investidores. Até a tarde de sexta-feira, enquanto o Ibovespa caía 4,2% na semana, a MBRF subia 2,6%. A JBS, negociada em Nova York, recuperou-se

 

da queda após o balanço e avançava cerca de 1%. A Minerva chegou a despencar quase 10% na quinta-feira, mas reduziu a perda semanal para 3,9%.

Os grandes investidores sabem que não basta olhar tamanho, faturamento ou produção. Uma empresa concentrada em um único país ou proteína pode ganhar mais quando o cenário ajuda, mas sofre o dobro quando uma porta se fecha (Folha, 16/8/26)