12/08/2026

Gasto público e juros sufocam a economia – Editorial Folha de S.Paulo

Gasto público e juros sufocam a economia – Editorial Folha de S.Paulo
  • Inadimplência e travamento dos investimentos mostram que a fatura do descontrole fiscal começa a ser paga
  • O crescimento não se apoia em fontes sustentáveis, mas em populismo, com custos elevados e efeitos nefastos que asfixiam o setor privado

 

Os juros altos que resultam da gestão perdulária do Orçamento no governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) impactam a economia de forma cada vez mais crítica, intensificando o estresse financeiro sobre famílias e empresas.

 

O aumento persistente dos gastos públicos e a multiplicação de programas de crédito subsidiado, cujos volumes já se aproximam ou superam a marca de R$ 200 bilhões, geram desequilíbrios que forçam o Banco Central a manter a taxa básica excessivamente alta.

 

Selic, em patamar restritivo de 14%, propagou seus efeitos com atraso, mas de maneira inevitável chegou ao mercado, comprimindo o consumo, os investimentos produtivos e a capacidade de rolagem de dívidas.

 

Os indicadores da atividade econômica confirmam a desaceleração em curso. O volume de vendas no varejo avançou apenas 0,1% em maio ante abril e acumula 1,7% no ano. No período, os serviços recuaram 0,4%.

 

Ainda que o mercado de trabalho mantenha o desemprego em 5,4% no trimestre até junho —um patamar historicamente baixo—, há sinais de diminuição na criação de vagas e de menor crescimento dos salários.

 

No crédito, a deterioração é clara. A inadimplência do sistema financeiro atingiu 4,7% em junho, próximo do pico histórico. O endividamento das famílias em relação à renda alcançou recordes próximos de 50%, enquanto pesquisas setoriais apontam 82% dos lares com algum tipo de débito.

 

O volume de recuperações judiciais entre micro e pequenas empresas mais que dobrou em relação a anos anteriores, segundo dados do Monitor RGF, citados pelo jornal Valor Econômico. Os principais bancos sinalizam um cenário adverso, com aperto nas concessões e aumento nas exigências de garantias.

 

As projeções do mercado, captadas pelo Boletim Focus, apontam na mesma direção: as estimativas para o PIB de 2027 vêm caindo de forma consistente e já se aproximam de 1,5%, com alguns cenários próximos de 1%.

 

O governo pratica, neste ano eleitoral, a mesma estratégia observada em 2014, quando Dilma Rousseff (PT) buscava a reeleição: impulsionar a economia por meio de estímulos temporários de crédito e gastos, sem preocupação com desequilíbrios e a perspectiva de esgotamento.

 

Há, ao menos, um alívio parcial no front inflacionário. O IPCA de julho registrou alta de apenas 0,07%, acumulando 4,44% em doze meses —abaixo do teto da meta. Isso deve permitir que o Banco Central prossiga com cortes graduais da Selic. Mesmo assim, o nível projetado permanecerá bastante elevado.

 

A combinação de juros sufocantes, endividamento recorde e asfixia do setor privado aponta para um desfecho conhecido: o risco real de uma recessão no horizonte. O preço dos excessos do presente poderá ser pago com a paralisação da atividade econômica logo adiante (Folha, 12/8/26)