08/07/2026

Governo deveria pôr em prática sua tese contra tarifas – Editorial Folha

Governo deveria pôr em prática sua tese contra tarifas – Editorial Folha
  • Em documento à gestão Trump, Itamaraty aponta que sanções comerciais prejudicarão empresas e consumidores
  • Brasil e PT também fariam bem em rever políticas protecionistas; Flávio Bolsonaro tenta dissociar-se da eventual elevação das tarifas

 

Enquanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) politizam a ameaça de um novo tarifaço de Donald Trump, o governo brasileiro apresentou ao americano argumentos técnicos e sensatos contra a medida protecionista. Tão sensatos que o próprio Brasil deveria levá-los mais em conta em suas políticas comerciais.

 

Em documento enviado ao USTR, responsável pela gestão do comércio exterior nos EUA, o Itamaraty contesta os motivos elencados pelo órgão para recomendar impostos de 25% sobre uma série de produtos do Brasil —as alegações incluem decisões judiciais contra plataformas digitais, desmatamento ilegal, enfraquecimento do combate à corrupção e até o Pix, entre outros.

 

Além de tratar de cada um desses temas, o texto também cuida de apontar, com propriedade, as perdas para a economia americana. Relata que 43 empresas e associações daquele país pediram exceções ao tarifaço, devido à ausência de substitutos locais e ao risco de os custos serem passados aos consumidores.

 

Nas palavras do Itamaraty, seriam afetadas "empresas, cadeias produtivas, investidores e consumidores de ambos os lados".

Trata-se de um reconhecimento singelo de que o protecionismo comercial, historicamente praticado por populistas de esquerda e direita a título de defesa da economia nacional, prejudica o bem-estar das sociedades.

 

Seria desejável que tal entendimento também pautasse uma revisão de velhas práticas protecionistas do país e das administrações petistas —mas não convém alimentar maiores esperanças, ainda que o Mercosul, em reação à ofensiva de Trump, esteja buscando novas parcerias.

 

Segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), a tarifa média aqui é de 12%, bem acima do padrão do mundo desenvolvido e mesmo de emergentes como México (8,5%) e Chile (6%). De acordo com o Banco Mundial, nossas importações equivalem a apenas 17,5% do PIB, uma das menores taxas do mundo.

 

Mantém-se há décadas a proteção à indústria automobilística, hoje com taxação de 35% sobre importados, e a máquinas e equipamentos em geral. Ainda neste ano, o governo Lula promoveu uma alta generalizada de tarifas sobre produtos de informática, só recuando parcialmente por temer desagradar eleitores.

 

De modo análogo, a proximidade de eleições também nos EUA parece ser o melhor trunfo brasileiro contra a cruzada insana de Trump. Como efeito secundário, o republicano prejudica ainda o aliado Flávio Bolsonaro, que tenta pateticamente dissociar-se das eventuais sanções americanas, a ele associadas pelo rival petista.

 

É fato que o tarifaço de 2025, posteriormente abrandado, foi apresentado pela Casa Branca como uma represália à então iminente condenação de Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado. Desta vez, entretanto, o obscurantismo protecionista tem novos pretextos (Folha, 8/7/26)