Governo tenta conter alta do diesel de olho nas urnas – Por Thais Herédia
Imagem Reprodução Blog CNN
O governo tem um medo combinado: o fantasma de uma greve de caminhoneiros e, tão ruim quanto, uma escalada da inflação que mantenha os juros altos às vésperas da eleição.
Governo anuncia pacote de medidas para evitar impacto da alta do petróleo no Brasil.
A fórmula é zerar impostos federais e assumir parte do custo do diesel. Em modo eleição, o Planalto dá mais tempo para a Petrobras manter a defasagem dos preços atuais, que está em níveis históricos.
O governo tem um medo combinado: o fantasma de uma greve de caminhoneiros e, tão ruim quanto, uma escalada da inflação que mantenha os juros altos às vésperas da eleição. Política pública é escolha do governante... e o mundo todo busca saídas para blindar o consumidor.
Para bancar a medida com custo zero, Fernando Haddad anunciou o aumento do imposto de exportação sobre o petróleo. O alívio na bomba ainda não está garantido, mas a distorção nos mercados já está contratada.
Com a guerra no Irã sem desfecho previsível, o arsenal de Brasília é limitado para lidar com esse choque. Nem sempre a sorte que Lula (PT) desfrutou em seus mandatos anteriores o livra da dureza da realidade (CNN, 12/3/26)
Lula copia Bolsonaro com pacote para frear preço do diesel em ano eleitoral Combustíveis

Foto Blog TNH1
- Fazenda afirma que 'não há qualquer paralelo entre as medidas' dos dois governos
- Em março de 2022, governo Bolsonaro deu pontapé em medidas sobre combustíveis para tentar alavancar popularidade
Pressionado pela alta do petróleo no mercado internacional, o presidente da República lança um pacote de medidas para conter os preços de combustíveis em pleno ano eleitoral.
Esse foi o anúncio feito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nesta quinta-feira (12), mas também descreve o que aconteceu há exatos quatro anos, quando o então presidente Jair Bolsonaro (PL) tentava alavancar sua campanha à reeleição diante do cenário de disputa acirrada que as pesquisas de intenção de voto já delineavam.
Em 11 de março de 2022, na esteira dos impactos da invasão da Ucrânia pela Rússia, Bolsonaro sancionou a lei que zerou as alíquotas de PIS/Cofins sobre o diesel e o gás de cozinha até o fim daquele ano e alterou a cobrança do ICMS estadual sobre esses itens —iniciativa que gerou um passivo bilionário para a União, pago pela gestão de Lula.
Agora, em 12 de março de 2026, o presidente decidiu agir para conter os efeitos da guerra no Irã e zerou as alíquotas de PIS/Cofins sobre o diesel até o fim do ano, ao custo de R$ 20 bilhões. Também autorizou um subsídio de até R$ 10 bilhões para bancar parte do preço do diesel. O gasto será feito via crédito extraordinário, reservado para situações urgentes e imprevisíveis, e ficará fora do limite de despesas do arcabouço fiscal, mas dentro da meta de resultado primário.
Auxiliares de Lula ouvidos sob reserva pela Folha rejeitam a comparação entre o petista e Bolsonaro justamente porque as medidas de 2026 terão compensação, enquanto as ações de 2022 afrontaram uma série de regras fiscais e o próprio pacto federativo.
Após a publicação do texto, o Ministério da Fazenda encaminhou uma nota negando qualquer semelhança entre as duas situações. "Não há qualquer paralelo entre as medidas anunciadas hoje e aquelas adotadas no governo de Jair Bolsonaro em 2022", disse a pasta.
O órgão afirmou que, há quatro anos, o então presidente convivia com uma inflação de dois dígitos e "reduziu o ICMS de maneira ilegal".
"Foi uma decisão unilateral que comprometeu as finanças de estados e municípios, sem qualquer compensação. A conta precisou ser paga por este governo. Agora, com a inflação sob controle e dentro da meta, o governo Lula adotou um conjunto de medidas para proteger o consumidor, com neutralidade fiscal e sem onerar os estados", disse em nota.
O petista instituiu um imposto de 12% sobre a exportação de petróleo, com a promessa de arrecadar os R$ 30 bilhões necessários para cobrir integralmente o custo das demais políticas. A conta será paga pelas petroleiras, inclusive a Petrobras —que, por outro lado, deve ter mais espaço para reduzir a defasagem de preços perante o mercado internacional, já que as medidas poderão amortecer o impacto de um reajuste nas bombas.
Na visão do governo, esse desenho ajuda a redistribuir a carga tributária em um momento de alta de preços, taxando a parcela extraordinária da renda dos produtores e aliviando o bolso dos consumidores.
A gestão Lula já recorreu a esse expediente, com resultados que frustraram as expectativas iniciais. De março a junho de 2023, o Executivo cobrou uma alíquota de 9,2% sobre a exportação de petróleo e arrecadou R$ 4,44 bilhões, cerca de dois terços dos R$ 6,65 bilhões estimados inicialmente.
Mas os técnicos se mantêm otimistas, sob o argumento de que a demanda por petróleo, geralmente inelástica (ou seja, pouco se altera em decorrência do preço), tende a se sustentar com a guerra no Irã. Na hipótese de o conflito acabar mais cedo, afirmam que o governo pode até mesmo reverter as medidas —embora seja improvável um aumento de tributos sobre combustíveis a poucos meses da eleição.
Ainda que haja diferenças entre as medidas de 2022 e de agora, é inegável a semelhança na determinação política de usar ferramentas fiscais, como isenções e subsídios, para tentar amortecer um choque no mercado de petróleo (nas duas ocasiões, o barril ultrapassou a marca dos US$ 100) e seus efeitos sobre os consumidores brasileiros em pleno ano eleitoral.
Por isso, quem acompanhou o anúncio desta quinta ficou com a sensação de déjà vu. E não foi só a desoneração do diesel que causou essa percepção.
Tal qual Bolsonaro há quatro anos, Lula também determinou que postos de gasolina exibam ao consumidor a redução de tributos federais sobre o diesel e a consequente redução nos preços.
O petista não impôs, mas pediu que os governadores reduzam as alíquotas de ICMS sobre combustíveis.
Nos bastidores, chegou-se a especular sobre a possibilidade de edição de um decreto de calamidade pública para abrir caminho a medidas de mitigação dos efeitos da alta do petróleo.
Técnicos da equipe econômica e um ministro ouvido pela Folha negam que isso esteja à mesa. Mas, coincidentemente, essa mesma conversa também circulou pelos gabinetes em Brasília há quatro anos, antes de Bolsonaro agir e negociar o que desaguou na PEC (proposta de emenda à Constituição) eleitoral, com sinal verde para o então presidente elevar gastos em meio à campanha.
Era junho de 2022, e Bolsonaro, em segundo lugar nas pesquisas, reforçou o pacote de bondades com a desoneração da gasolina e a imposição de um teto para o ICMS sobre combustíveis e energia elétrica. Com a PEC, ainda turbinou os benefícios do Auxílio Brasil (hoje rebatizado de Bolsa Família) e do Auxílio Gás e criou um repasse para os caminhoneiros.
Diante desse retrospecto, a sensação de déjà vu veio acompanhada de uma incerteza, compartilhada entre economistas e agentes do mercado: se haverá novas bondades no pacote de Lula, sobretudo diante do empate técnico com o pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL) no cenário para segundo turno, como aponta o Datafolha.
Segundo um técnico do governo, hoje não está na mesa qualquer desoneração sobre a gasolina ou o gás de cozinha. Mas o mesmo interlocutor disse que o Executivo está "avaliando o mercado".
A história recente indica que o rumo das discussões pode ser definido conforme o desempenho de Lula nas próximas pesquisas eleitorais (Folha, 13/3/26)

