Investigação/Combustíveis: Mais de mil postos ligados a Beto Louco e Primo
Da esquerda para direita, empresários Mohamad Hussein Mourad, apelidado de Primo, e Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco - Reprodução/TV Globo e Polícia Civil de SP
- OUTRO LADO: advogado de Beto Louco diz que informações não procedem, e defesa de Primo não foi encontrada
- Mapeamento está em fase de conclusão; operação investiga infiltração do crime organizado na economia formal
Investigadores da Operação Carbono Oculto identificaram mais redes de combustíveis ligadas aos empresários Roberto Augusto Leme da Silva e Mohamad Hussein Mourad, conhecidos como Beto Louco e Primo. Eles acreditam que há mais de mil postos ligados ao grupo em diversos estados.
Na fase inicial da investigação, tinham sido identificadas cinco redes de combustíveis e cerca de 300 postos. Com a análise do material apreendido, porém, os investigadores passaram a mapear um volume considerado "gigantesco" de novas redes possivelmente ligadas ao grupo.
A extensão dessas redes tem surpreendido os investigadores, assim como outros setores em que a organização atua.
A Carbono Oculto é considerada a maior força-tarefa contra crime organizado no Brasil, com participação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), do MP-SP, e da Receita Federal, e com apoio da Polícia Federal.
A operação investiga a infiltração do crime organizado no setor de combustíveis e no mercado financeiro. Mais de 350 alvos, pessoas físicas e jurídicas são suspeitos de crimes contra a ordem econômica, adulteração de combustíveis, crimes ambientais, lavagem de dinheiro, fraude fiscal e estelionato.
O Primo é apontado pelos investigadores como o "epicentro das operações", atuando em "toda a cadeia produtiva do setor" de combustíveis. Ele seria dono de empresas de fachada como postos de combustíveis e de diversos fundos de investimento imobiliário.
Já Beto Louco ficaria à frente das fraudes contábeis e da gestão financeira, gerenciando fundos de investimento e empresas de participações utilizadas para blindar o patrimônio da organização criminosa.
O mapeamento, triagem e análise dos postos está em fase de conclusão, segundo pessoas a par do tema ouvidas pela Folha sob a condição de anonimato. A investigação é conduzida pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público de São Paulo com o apoio da Receita Federal.
Segundo investigadores, um desses casos foi identificado no Piauí e deu origem à Operação Carbono 86, que apurou um esquema de lavagem de R$ 5 bilhões ligado à facção criminosa PCC, com atuação em postos de combustíveis no Piauí, Maranhão e Tocantins.
Nesta quarta-feira (25), o Ministério Público do Estado do Piauí apresentou denúncia contra 12 investigados no âmbito da Operação Carbono Oculto 86. Fazem parte da lista Beto Louco e Primo.
O advogado de defesa de Beto Louco, Celso Vilardi, disse, em nota, que as informações sobre haver mais redes e postos não procedem, além de desconhecer qualquer apuração nesse sentido. O advogado de Primo não foi encontrado.
De acordo com a investigação, todas as empresas identificadas na primeira fase da operação estão registradas em nome de terceiros, os chamados laranjas. Esses nomes incluem parentes de Primo, funcionários e pessoas que apenas cedem seus dados para a prática dos delitos.
Um dos exemplos citados é a rede GGX Global, que inicialmente estava em nome de um parente do Primo e, posteriormente, foi transferida para outro laranja ligado ao grupo. A Folha procurou o sócio da rede, mas não conseguiu retorno.
Além dos postos que pertencem diretamente ao grupo, a investigação identificou redes de combustíveis, como a Boxter, que mantinham interlocução ou conexão com Primo e Beto Louco. A partir desses indícios, foi aberta uma frente específica para apurar possíveis vínculos do grupo com o PCC. A reportagem não conseguiu localizar os responsáveis pela rede Boxter.
Investigadores disseram que as buscas e apreensões também revelaram outros postos ligados aos dois empresários fora da estrutura da GGX Global. Para dimensionar o alcance das operações, os investigadores cruzam dados telemáticos com informações financeiras obtidas da instituição de pagamento BK Bank.
Nesse contexto, a BK foi identificada como a principal via de circulação financeira dos investigados, operando sob uma dinâmica comparada a um paraíso fiscal dentro do próprio estado.
Segundo a apuração, a instituição utiliza contas bancárias abertas em grandes bancos em seu próprio nome, não no nome de seus clientes. Nessas contas, conhecidas como "contas bolsão", recursos de centenas de clientes são misturados, o que dificulta a individualização dos valores e o rastreamento de operações específicas.
Essa estrutura funciona como um mecanismo de proteção contra ações do Estado. Como as contas estão em nome da instituição de pagamento e concentram recursos de diversos clientes, torna-se difícil identificar, bloquear ou penhorar valores vinculados a uma empresa específica sob investigação, já que não é possível separar, de forma direta, o que pertence a cada titular dentro do montante total.
Na análise bancária tradicional, isso também rompe o nexo direto entre remetente e destinatário. Em uma transação via BK, por exemplo, os registros indicam apenas que a "pessoa A" transferiu recursos para a instituição, e que a BK, por sua vez, repassou valores à "pessoa B", o que dificulta a rastreabilidade direta entre as partes envolvidas.
A BK Bank, representada pelo escritório Fernando José da Costa Advogados, disse, em nota, que os investigados da Operação Carbono Oculto não possuem contas ativas na instituição, e que a maioria foi encerrada antes mesmo da deflagração da operação.
Além disso, a instituição informa que não mantém qualquer relação com os investigados, muito menos compactua com o crime organizado.
Disse ainda que não mantém recursos de terceiros em seu próprio nome, nem utiliza o modelo denominado "conta bolsão". Todas as contas são individualizadas, com operações devidamente registradas e passíveis de rastreamento. Os valores, por sua vez, permanecem depositados em contas do tipo CCME, junto ao Banco Central.
Investigadores apontaram que esse funcionamento é viabilizado por lacunas na regulamentação estatal sobre instituições de pagamento, o que teria permitido que esse modelo de ocultação se tornasse atrativo para grupos criminosos (Folha, 31/3/26)

