Lula e seu mau governo na macroeconomia – Por Roberto Macedo
Presidente Lula. Foto Reprodução Blog Revista Veja
Presidente só quer saber de mais gastos com objetivos eleitorais.
Há quem entenda que ele faz um bom governo nessa área, mas que não se converte em maior popularidade. Meu ponto é que ele não deu a mínima atenção para um problema que vem prejudicando a economia brasileira na sua fase pós-1980, a baixa taxa de investimentos, relativamente ao Produto Interno Bruto (PIB), na formação bruta de capital (novas fábricas, fazendas, estradas, portos, lojas, etc.).
Quanto maior essa taxa, maior o crescimento. E no Brasil ela está em torno de 17% do PIB, quando seria necessário aumentá-la para uns 25%, para começar. A China, no seu período de mais forte crescimento, chegou a investir anualmente 40% do PIB. Ou seja, aqui não há uma preocupação com o crescimento econômico. Se ele fosse significativamente maior, muitos problemas seriam resolvidos, inclusive dentro do próprio governo, com mais impostos sendo arrecadados.
Uma visão desse período pós-1980 foi dada recentemente pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), conforme reportagem do Estadão (País teve ritmo de crescimento menor do que o de Botsuana e Romênia, diz estudo, 3/5/26, B2): “Entre 1980 e 2025, o PIB per capita global subiu de US$ 3.380,47 para US$ 26.188,94, um aumento de 675%, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI). No mesmo período, o Brasil saiu de US$ 4.427,94 para US$ 23.380,98, alta de 428%.” Ou seja, estamos ficando para trás na maratona do crescimento do PIB per capita.
O governo Lula é marcado por uma preocupação básica: a reeleição. Outra manchete deste jornal ilustra este aspecto: Estímulos do governo para economia em ano eleitoral já somam R$ 140 bi (12/5, B1). Entre esses estímulos estão isenção do Imposto de Renda para rendimentos até R$ 5 mil por mês, o Desenrola 2.0 + FGTS, e o programa Gás do Povo. A reportagem lista mais sete estímulos.
Ora, isso estimula o consumo e não o investimento, aumenta o déficit público e a dívida pública, e gera pressão inflacionária, o que impede o Banco Central de reduzir com maior vigor a taxa básica de juros, a Selic, atualmente em 14,5%, uma das maiores taxas internacionalmente.
A gastança pública é tão alta que já incomoda a população. Num artigo meu neste espaço (A população diante das contas públicas, 1/5, A4) foquei numa pesquisa eleitoral realizada por Orjan Olsén, pesquisador de opinião pública (doutor em Comunicação Pública pela Universidade Syracuse, de Nova York), que optou por perguntar a reação do eleitor diante de nove áreas ligadas a políticas públicas. A que teve pior avaliação (ruim/péssima) foi a do controle e corte dos gastos públicos, com 51%. Talvez seja por isso que Lula não venha tendo sua opção por gastos convertida em popularidade.
E assim vai. O Congresso deveria cobrar de Lula um maior crescimento, mas se interessa mesmo é pelas emendas parlamentares que ajudam na reeleição de seus membros. Candidatos sem essas emendas já entram na eleição em desvantagem. Acho isso inconstitucional, pois contrasta com o dispositivo constitucional de que todos são iguais perante a lei, no caso, a eleitoral, uma cláusula pétrea. O Congresso, evidentemente, não se preocupa em corrigir essa séria distorção e o Supremo Tribunal Federal (STF), que deveria agir, faz vista grossa.
No caso do investimento público (do governo geral e empresas estatais), segundo dados do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre FGV), ele alcançou 10% do PIB nos anos 1970, mas hoje está próximo a apenas 3% do PIB. Não sou contra gastos sociais, mas eles não deveriam ocorrer com tanto prejuízo ao investimento público, porque isso prejudica o crescimento da economia, como aconteceu no período pós-1980. Há também um déficit em expansão na Previdência Social, a qual carece de uma reforma, mas inconveniências eleitorais impedem a sua adoção.
Temas como os abordados mostram que há no Brasil uma incompatibilidade entre um grave problema, o baixo crescimento, e as medidas que deveriam ser tomadas para resolvê-lo, mas que não são. A população deveria se organizar para cobrar soluções do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, mas, exceto entre as entidades empresariais, não vejo condições de que isso seja feito. Os partidos políticos também não ajudam. Uma esperança está na questão abordada no quinto parágrafo deste artigo. Que sejam realizadas mais pesquisas como a citada.
Em retrospecto, o Brasil está mal organizado politicamente. Carece de voto distrital para eleição de parlamentares. Seria também o caso de estender o mandato presidencial para cinco anos, sem reeleição, para que ela não se torne um objetivo que aumenta gastos públicos fortemente no exercício do mandato.
O voto distrital permitiria ao eleitor acompanhar melhor o desempenho dos parlamentares, com cada distrito elegendo o seu deputado ou vereador. Morei em países com voto distrital e vi que funciona muito melhor, com o eleito tendo que prestar contas do que vem fazendo, sem correr o risco de não ser reeleito.
Quanto ao crescimento econômico, é preciso meter na cabeça de governantes e governados a percepção de que sem investir uma maior porcentagem do PIB não há saída para um crescimento bem maior e mais sustentável (Roberto Macedo, economista (UFMG, USP e Harvard), é consultor econômico e de ensino superior; Estadão, 15/5/26)

