04/08/2026

Lula, mais uma vez – Editorial O Estado de S.Paulo

Lula, mais uma vez – Editorial O Estado de S.Paulo

Será a sétima eleição com Lula na cédula. Portanto, os brasileiros estão cansados de saber quem ele é. Mas o petista é imbatível na arte de engambelar: agora promete ‘fazer diferente’

 

O nome do petista Luiz Inácio Lula da Silva aparece na cédula eleitoral como candidato a presidente desde os tempos imemoriais do voto em papel, lá se vão quase 40 anos. Anteontem, o presidente foi oficializado como candidato pela sétima vez, e estará em busca de seu quarto mandato. Logo, os eleitores brasileiros estão cansados de saber quem ele é e o que é capaz de fazer quando está no poder. Mas Lula é imbatível na arte de engambelar: agora ele promete fazer diferente, “fazer o que a gente ainda não fez”.

 

Na convenção do PT que oficializou sua nova candidatura, Lula encarnou um super-herói boquirroto disposto a salvar o Brasil de vilões daqui e de fora. O petista prometeu blindar as terras raras da cobiça estrangeira, jurou que investirá em defesa para que o País jamais seja “invadido” como a Venezuela pelos EUA e anunciou que brigará com o Congresso para, ora vejam, retomar o controle do Orçamento e pôr fim à “promiscuidade” do Fundo Partidário. Para ficar perfeito na personagem, só faltou Lula vestir uma esvoaçante capa vermelha com a estrela do PT.

 

Esse Lula vingador mascarado é o mesmo que, na campanha de 2022, prometeu acabar com o orçamento secreto, mas que, uma vez no poder, deixou tudo como está. O insulto à inteligência alheia também vale para o suposto combate ao Fundo Partidário.

 

Mas o auge da farsa lulopetista veio no momento em que Lula anunciou que vai “mudar muita coisa neste país”. Para começar, o petista disse que vai recuperar os “direitos” do presidente da República, entre os quais o de definir o Orçamento, cada vez mais capturado pelos parlamentares e seus interesses paroquiais. Lula disse que não dá mais para ficar “chorando atrás da miséria que sobra do Orçamento”.

 

Ora, com que base parlamentar Lula pretende fazer isso? Se hoje o governismo no Congresso é uma massa disforme e incontrolável, a próxima legislatura promete ser ainda mais hostil ao presidente petista. Num surto delirante, Lula pode escolher a ingovernabilidade e brigar com o Congresso, mas, depois de tanto tempo no poder, ele sabe que isso não acaba bem.

 

Contando com a ingenuidade dos eleitores, contudo, Lula anunciou que será “mais ousado”: “Eu não quero o Lulinha Paz e Amor, eu quero o Lulinha Porreta. Eu quero o Lulinha que vai fazer o que a gente ainda não fez. Porque o básico nós já cuidamos, o povo já está comendo. Agora que estamos com o básico garantido, agora é hora de dar um salto de qualidade”.

 

Trata-se de uma fantasia recorrente do lulopetismo. Se estivesse realmente interessado num “salto de qualidade”, Lula teria ao menos mencionado a necessidade urgente de um ajuste fiscal. Mas esse tema, obviamente, esteve ausente do palavrório do presidente.

 

Aqui e ali, gente do governo diz que o quarto mandato será diferente. O último a fazê-lo foi o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, que disse ao jornal Valor que o “ajuste fiscal do próximo governo” teria “vários caminhos” e que seria preciso discutir “poupança de longo prazo” e mecanismos para estimular famílias e o poder público a poupar mais. Chega a ser ultrajante ouvir de um assessor de Lula que, depois de décadas incentivando os brasileiros a gastar o que têm – e, principalmente, o que não têm –, o governo petista agora acha que é o caso de estimular a poupança dos brasileiros.

 

Os números desmentem o suposto compromisso com a responsabilidade fiscal até como discurso. O País bateu recorde de arrecadação no primeiro semestre – R$ 1,587 trilhão – e, mesmo assim, fechou o período com déficit de R$ 92,2 bilhões, o segundo pior resultado desde 1997. A dívida pública federal chegou a R$ 9,268 trilhões em junho e deve encerrar o ano em R$ 10,3 trilhões, cerca de 82% do PIB, com custo médio no maior patamar desde a recessão de 2016.

 

Com esse histórico, Lula pode achar que ainda ilude os incautos com seu discurso de “fazer diferente” e “dar um salto de qualidade”, mas a verdade é que, se vencer a eleição, não será porque os eleitores acreditaram nessa patacoada, e sim porque a ojeriza ao bolsonarismo terá se provado maior do que a hostilidade ao lulopetismo (Estadão, 4/8/26)