27/02/2026

Lula se reuniu com donos da Raízen para discutir crise, diz agência

Lula se reuniu com donos da Raízen para discutir crise, diz agência

Lula e Rubens Ometto. Foto Reprodução Blog Pensar Piauí

 

  • Cosan, Shell, Raízen, BNDES, Haddad e Fazenda não comentaram; BTG e Presidência não responderam
  • Petrobras disse que não estuda a aquisição de ativos da produtora de açúcar e etanol

 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tomou frente, nas últimas semanas, de uma reunião com executivos de importantes empresas envolvidas nas negociações para resgatar a Raízen, produtora de açúcar e etanol que enfrenta dificuldades financeiras, sinalizando sua preocupação com as consequências caso não haja um acordo para a companhia.

 

Entre as empresas na reunião com Lula estavam as duas acionistas principais da Raízen —Cosan e Shell— além de executivo do Banco BTG Pactual, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.

 

Também estiveram presentes a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Aloizio Mercadante, disseram as pessoas, que pediram para não serem identificadas, pois a reunião não foi pública.

 

A reunião foi realizada em Brasília, antes do Carnaval e da viagem de Lula à Ásia, em 18 de fevereiro. Dias depois, a Raízen solicitou formalmente apoio financeiro de seus principais acionistas após mais um trimestre desastroso, e as negociações se intensificaram sobre como resolver os problemas de alavancagem e liquidez da empresa.

 

Cosan, Shell, Raízen, BNDES, Haddad e o Ministério da Fazenda não quiseram comentar. O BTG e a Presidência da República não responderam a pedidos de comentários.

 

Em comunicado, a presidente da Petrobras disse que não participou de reunião para discutir a Raízen.

 

CRESCENTE PREOCUPAÇÃO

 

O envolvimento de Lula ressalta a crescente preocupação dentro do governo com a situação financeira delicada da Raízen em um momento político sensível, com o presidente buscando fortalecer a confiança dos investidores e o crescimento econômico em meio à sua campanha de reeleição.

 

A Raízen é uma das maiores produtoras mundiais de açúcar e etanol e uma peça-chave no setor de biocombustíveis do Brasil, uma indústria central para a agenda de transição energética de Lula.

 

Na reunião, um dos tópicos discutidos foi a possibilidade de venda de alguns ativos estratégicos da Raízen para a Petrobras, segundo uma das pessoas. No entanto, a parceria não avançou, visto que propostas alternativas de acionistas da Raízen estão sendo elaboradas.

 

Em comunicado, a Petrobras disse que não estuda a aquisição de ativos da Raízen.

 

A Raízen tem buscado novos recursos financeiros após ser pressionada por custos de empréstimo elevados, safras abaixo do esperado e uma série de investimentos agressivos que ainda não geraram retornos significativos. Seus ratings de crédito foram rebaixados nos últimos meses e os preços dos seus títulos despencaram.

 

Desde a reunião em Brasília, as negociações se intensificaram, com o BTG e a Shell apresentando propostas e novas conversas ocorrendo em Londres e São Paulo, disseram as pessoas. As discussões incluíram possíveis injeções de capital e outras medidas destinadas a estabilizar o balanço patrimonial da Raízen.

 

Em outra frente, a Cosan procurou o BNDES para buscar apoio financeiro para a Raízen, de acordo com algumas das pessoas. A proposta enfrenta resistência dentro do banco de desenvolvimento, disse outra pessoa, com os dirigentes receosos de aumentar a exposição ao grupo à medida que o perfil de crédito da Raízen se deterior.

 

Os membros da equipe econômica também mencionaram que, antes de o BNDES considerar qualquer tipo de auxílio, a empresa precisa apresentar um plano de capitalização concreto e estruturado.

 

O BNDES já investiu R$ 409 milhões na oferta de ações da Cosan, parte de uma captação de recursos de US$ 2 bilhões com investimentos do BTG Pactual Holding e da Perfin no final do ano passado (Bloomberg, 26/2/26)

 



Shell busca novo sócio para compor capitalização da Raízen com a Cosan 

 

Logo da Shell - May James Reuters

Multinacional está disposta a fazer um aporte de R$ 3,5 bi na empresa brasileira

 

A Shell tenta trazer mais uma empresa para compor o aporte na Raízen em conjunto com a Cosan, de acordo com fontes. A companhia já conversou com potenciais interessados, entre eles o grupo japonês Mitsui, que preferiu não avançar com as conversas.

 

A razão para a busca de um novo participante é que a Shell não quer ter mais de 50% do capital da Raízen, o que obrigaria o grupo anglo-holandês a consolidar a dívida bilionária da companhia em seu balanço internacional. Por isso, com um sócio, haveria uma diluição. Hoje a Raízen é dividida entre Shell com 44% e a Cosan com 44%, mas esta última não tem os recursos necessários para um aporte mais firme. O restante das ações está distribuído no mercado.

 

A Shell tem dito a interlocutores que não quer o pior cenário para a Raízen, como um calote ou uma recuperação judicial. Como mostrou a Broadcast, a empresa estaria disposta a fazer uma injeção de R$ 3,5 bilhões no negócio. O aporte, porém, está vinculado à capitalização por parte do parceiro brasileiro: a previsão é de que a Cosan injetaria R$ 1 bilhão e o fundador do grupo, Rubens Ometto, colocaria mais R$ 500 milhões.

 

Ambiente de negociação piorou

 

O clima ficou mais tenso entre os credores nos últimos dias. Bancos, locais e estrangeiros, e detentores de bônus dizem que não vêm sendo chamados para participar das negociações sobre a capitalização em conjunto com os controladores. “Há uma conversa para capitalizar a empresa, mas os bancos não estão sendo chamados para sentar nessa mesa”, diz uma fonte.

 

Cresceu entre os bancos credores o temor de que a Cosan fosse anunciar alguma estrutura de capitalização sem que eles estivessem sendo chamados para as rodadas de conversas. “A sensação era de estar sendo deixado de lado”, disso o diretor de um banco. Bancos estrangeiros, por exemplo, precisam mandar informações para suas matrizes, mas sem participar das negociações, as notícias estavam desencontradas.

 

Por isso, os bancos, primeiro os locais, depois os estrangeiros, resolveram mandar cartas para a Cosan e a Shell falando da necessidade urgente de capitalização, em um montante estimado de R$ 20 bilhões a R$ 25 bilhões. De acordo com fontes, a última carta foi enviada domingo, 22, e até agora não houve uma resposta formal do grupo ao documento. A Raízen vem marcando algumas reuniões bilaterais com os bancos credores, mas não ainda como um grupo. “Essa não é a situação ideal”, afirmou um banqueiro.

 

Divisão da companhia pode até ser aceita

 

“Os bancos querem uma solução negociada”, disse uma fonte. Esta fonte ressalta que a ideia de dividir a Raízen em duas pode até ser aceita pelos credores, mas desde que seja negociada.

 

O BTG Pactual, que se tornou sócio da Cosan no ano passado, tem conduzido as iniciativas em torno de uma solução para o grupo e Raízen. Pelo plano que foi inicialmente ventilado na mídia, a cisão da Raízen levaria o banco de André Esteves a ficar com os negócios de distribuição. Entre os bancos e os detentores de títulos de dívida, essa proposta causou desconforto.

 

Até o fechamento do segundo trimestre do ano-safra 2025/2026, a dívida líquida da Raízen somava R$ 53,4 bilhões, dos quais cerca de R$ 27 bilhões em bonds, títulos de dívida emitidos no exterior, com vencimentos entre 2027 e 2054.

Procurados, Cosan e Shell não comentaram (Estadão, 27/2/26)