14/08/2026

Moraes fez um favor a Flávio Dino e um desfavor à democracia

Moraes fez um favor a Flávio Dino e um desfavor à democracia

  O ministro Alexandre de Moraes determinou operação para descobrir fonte de jornalista. Foto Wilton Junior  Estadão

 

Por Eliane Cantanhêde

 

Ministro do STF cria precedente grave e põe em risco liberdade de imprensa.

 

É inacreditável a insistência de ministros do Supremo para tentar confirmar as acusações do governo Donald Trump de que Alexandre de Moraes, o STF e o próprio Brasil não são democráticos. Moraes não para de atrair chuvas e trovoadas, não apenas contra si, mas contra um poder vital para a democracia que ele tanto defendeu.

 

A última ação de Moraes, excessiva e desnecessária, foi determinar que a PF vasculhasse o repórter e a fonte da informação de que o também ministro Flávio Dino e sua família usam carro oficial e blindado do Estado quando estão no Maranhão. A fonte vazou e o repórter publicou dentro das regras e da rotina do jornalismo.

 

Independentemente de quem sejam o repórter e a fonte, se têm ou não credibilidade ou folha corrida, o que importa é que a informação é verdadeira, não foi inventada. Aliás, especialistas em direito nem vêem nada demais no uso de carro oficial por um ministro do STF, que tem boa imagem, foi governador e sofre ameaças.

 

Há uma regra do jornalismo, pragmática e importante para o ofício: quem conhece corrupção e escândalos não habita conventos. Logo, não se escolhem fontes pelo caráter e pureza, mas sim pelo peso da informação, se ela é verídica ou não e é comprovada por provas, documentos, fotos... Se há interesses políticos ou financeiros, isso pode ser citado na reportagem, sem quebrar o sigilo da fonte.

 

Ao jogar a polícia em cima do jornalista Luís Pablo Conceição Almeida, apreender seu celular e dali quebrar o sigilo da fonte – o ex-secretário de Estado Raimundo Cutrim –, Moraes fez um favor para o colega Flávio Dino e um desfavor à institucionalidade e à democracia, numa coleção de erros distantes do Estado Democrático de Direito.

 

Erros: jornalistas que cometem injúria, por exemplo, são sujeitos a processos normais; Luís Pablo e sua fonte não têm foro no STF; liberdade de imprensa e sigilo da fonte não são privilégio, estão na Constituição; Moraes usou o inquérito das fake news, que se “eterniza” há sete anos, em favor dos próprios ministros; por último, tudo isso para servir a um colega.

 

Moraes, aliás, já tinha servido ao seu próprio interesse, ao abrir investigação para descobrir a fonte que revelou à mídia o contrato de R$ 130 milhões do escritório da sua família com Daniel Vorcaro, do Master. Também não era fake news, mas sim um fato que Moraes jamais desmentiu.

 

Imagine-se se o STF e a PF tivessem perseguido as fontes e os jornalistas investigativos que vêm informando a sociedade sobre escândalos como Petrolão, mensalão, golpe, rachadinhas, INSS, “empréstimos” milionários, Master, Dark Horse, viagens e piscinas promíscuas...

 

Não haveria mais fontes, jornalismo investigativo, nem mesmo jornalismo e estaríamos não numa democracia, mas num regime autoritário, em que castas podem tudo, quem denuncia é penalizado e a verdade é sonegada aos cidadãos e jogada debaixo do tapete.

 

Moraes cria um precedente grave. Se a contestação à liberdade de imprensa e a quebra do sigilo da fonte valem em favor de ministros do STF, por que não para todo o Judiciário, Congresso e Planalto? Adeus jornalismo! Poderosos de todos os quilates e ideologias dormirão em paz e o injusto e perigoso Trump poderá comemorar: “Bem que eu disse, quem ri por último ri melhor” (Estadão, 14/8/26)

 

Fachin dá indireta a Moraes e eleva pressão contra inquérito das fake news

Os ministros do STF Edson Fachin e Alexandre de Moraes. Foto Carlos Moura SCO STF

 

Por Matheus Teixeira

 

O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Edson Fachin, fez uma defesa nesta quinta-feira (13) da investigação por uma suposta perseguição contra o colega Flávio Dino e cobrou um julgamento colegiado do caso, que está sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes.

 

O discurso do chefe da Corte foi uma reação às críticas à operação da Polícia Federal autorizada pelo Supremo contra o informante de um jornalista que fez reportagens sobre Dino.

 

A decisão foi tomada dentro do inquérito das fake news, que está aberto há mais de sete anos. Uma ala da corte é crítica de decisões sigilosas e que não são submetidas ao colegiado, como na situação que envolve Dino, e pressiona pelo fim do inquérito conduzido por Moraes.

 

No fim de março deste ano, Fachin disse que negociava com o relator o encerramento do caso e que a apuração foi necessária, mas que era preciso ter cuidado para o “remédio não virar veneno”.

 

O discurso de Fachin foi no começo da sessão desta quinta-feira (13). O presidente disse que “reconhece que ameaças à segurança física dos ministros e familiares devem ser apuradas com rigor”, mas disse que não seria correto Moraes conduzir o processo sem submeter as decisões ao conjunto da Corte.

 

“A Presidência tem a convicção de que a força do tribunal reside em sua colegialidade, a melhor expressão de solidariedade a seus membros, seja confirmando decisões monocráticas, seja deliberando sobre o destino e a duração de investigações. A Presidência adotará as providências regimentais cabíveis para que essas deliberações ocorram com a brevidade que a matéria exige”, disse (CNN, 13/8/26)

 

Entidades internacionais veem 'precedente perigoso' e 'grave ameaça' à imprensa no Brasil

Foto Reprodução Instagram 

 

 Em 11 de agosto de 2026, Moraes autorizou buscas contra Raimundo Cutrim, apontado pela Polícia Federal como fonte do jornalista Luís Pablo

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou na terça-feira (11/8) uma operação de busca e apreensão da Polícia Federal (PF) contra Raimundo Cutrim, ex-secretário do governo do Maranhão apontado como uma das fontes do jornalista Luís Pablo.

 

A medida faz parte de uma investigação sobre a obtenção e divulgação de informações relacionadas ao ministro Flávio Dino, também do STF, e foi tomada depois que a PF identificou Cutrim a partir da análise de equipamentos apreendidos anteriormente com o jornalista.

 

A investigação começou após Luís Pablo publicar reportagens sobre o uso de veículos do Tribunal de Justiça do Maranhão por Dino e familiares. Em março, o jornalista foi alvo de uma primeira operação, quando a PF apreendeu celulares, notebook e outros dispositivos.

 

Segundo os investigadores, a análise desse material levou à identificação de Cutrim como a pessoa que teria fornecido ao jornalista imagens e informações obtidas em sistemas de acesso restrito.

 

Com base nessas informações, a PF pediu a realização de novas buscas contra Cutrim.

 

O pedido recebeu parecer favorável da Procuradoria-Geral da República e foi autorizado por Moraes. Entre os materiais que poderiam ser apreendidos estão aparelhos eletrônicos e documentos.

 

A medida provocou reação de entidades brasileiras e internacionais de defesa da liberdade de imprensa porque a identificação da suposta fonte ocorreu a partir da análise do material retirado do jornalista.

 

Para organizações como ARTICLE 19, Repórteres Sem Fronteiras (RSF) e Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), o caso levanta questões sobre a proteção constitucional e internacional das fontes jornalísticas.

 

A controvérsia central não é apenas o conteúdo das reportagens ou a possibilidade de investigação de eventuais crimes. É também a maneira como a investigação chegou à identidade de uma fonte jornalística.

 

A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), a Associação Nacional de Jornais (ANJ) e a Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner) afirmaram que medidas que permitam identificar fontes podem ameaçar uma garantia prevista na Constituição e criar um precedente de intimidação da imprensa.

 

Maria Tranjan, coordenadora do programa de Proteção e Espaço Cívico da ARTICLE 19 para o Brasil e a América do Sul, afirmou que a decisão é preocupante porque fontes jornalísticas são protegidas pela Constituição. Segundo ela, medidas de investigação que possam revelar fontes devem considerar também os efeitos que isso pode produzir sobre futuras denúncias e sobre o jornalismo investigativo.

 

A RSF afirmou que o sigilo da fonte não protege apenas a identidade de um informante, mas também materiais, comunicações e outros meios capazes de levar à sua identificação. Para a organização, mesmo quando existe uma justificativa legítima para investigar riscos à segurança de uma autoridade, medidas que possam atingir a liberdade de imprensa precisam ser necessárias e proporcionais.

 

A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) também criticou o episódio. Em comunicado publicado na quarta-feira (12/8), a organização afirmou estar alarmada com a possibilidade de identificação de uma fonte por meio da análise dos dispositivos apreendidos de um jornalista. Segundo a SIP, a violação do sigilo profissional constitui uma "grave ameaça ao exercício do jornalismo" e estabelece um "perigoso precedente para a liberdade de imprensa no Brasil".

 

A SIP citou ainda padrões interamericanos de proteção ao sigilo profissional e afirmou que a confidencialidade das fontes é uma condição para que pessoas possam fornecer informações de interesse público sem medo de represálias.

 

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Maranhão e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) também se manifestaram em defesa da proteção das fontes.

 

Por que a PF investiga a fonte

 

Em março, Luís Pablo foi alvo de uma operação determinada por Moraes. Na ocasião, foram apreendidos celulares, notebook e outros dispositivos utilizados pelo jornalista. Os equipamentos foram posteriormente devolvidos, depois da extração dos dados, segundo informações publicadas sobre o caso.

 

A partir da análise desse material, a PF afirma ter identificado Cutrim como fonte do jornalista. Segundo a investigação, mensagens trocadas entre os dois indicariam o envio de imagens e informações sobre veículos ligados ao Tribunal de Justiça do Maranhão.

 

Segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo, a PF investiga uma transferência de R$ 100 mil e afirma que o blog poderia funcionar como um veículo para publicação de matérias pagas e com direcionamento político. Luís Pablo nega ter recebido dinheiro pelas reportagens.

 

Segundo a PF, Cutrim teria usado informações às quais teve acesso em razão de funções públicas que exerceu no Maranhão para obter dados e imagens relacionados aos veículos utilizados por Dino e seus familiares. Essas informações teriam sido repassadas a Luís Pablo e utilizadas nas reportagens.

 

A investigação também envolve o advogado Diogo Diniz Lima, ex-secretário municipal de São Luís. Segundo a PF, investigadores encontraram conversas entre Lima e o jornalista e identificaram uma transferência de R$ 100 mil. A polícia apura se o dinheiro teria alguma relação com publicações de interesse do grupo ligado a Cutrim.

 

O caso, portanto, não se limita à identificação de uma fonte. A PF investiga se houve obtenção indevida de informações restritas, monitoramento do ministro e de seus familiares e eventual relação financeira por trás das publicações.

 

É justamente nesse ponto que está o conflito com a proteção da atividade jornalística: a investigação chegou à identidade de uma pessoa apontada como fonte depois que a polícia teve acesso aos dispositivos e às comunicações de um jornalista.

 

O que dizem os investigados

 

Segundo informações publicadas pela CNN Brasil, a defesa de Raimundo Cutrim afirmou que ainda não tinha acesso integral aos autos, que tramitam sob sigilo, e manifestou preocupação com a exposição de uma fonte jornalística.

 

O canal também afirmou que Luís Pablo negou ter perseguido Dino ou seus familiares e afirmou que as informações sobre o uso de veículo oficial eram verdadeiras. O jornalista também negou ter recebido pagamento para publicar as reportagens.

 

Em nota, a assessoria de Flávio Dino afirmou que a investigação identificou o monitoramento de veículos particulares do ministro e de familiares, além do acesso a informações relacionadas à segurança dele.

 

Segundo o gabinete, também foram produzidas clandestinamente imagens do ministro e de sua família, inclusive de seus filhos menores de idade (BBC News Brasil, 13/8/26)