24/03/2026

Mudança geopolítica exige novas interpretações por parte do agro

Mudança geopolítica exige novas interpretações por parte do agro

 Imagem Reprodução Blog Agro.MT IA

 

Por Mauro Zafalon

  • Produção de alimentos está no centro de disputas e alianças estratégicas globais
  • Já se sabe de que o Plano Nacional de Fertilizantes precisa, mas falta coordenação

 

Em um momento de reconfiguração da ordem internacional, qual o papel do agronegócio brasileiro nas relações diplomáticas e comerciais globais? Representantes do agronegócio, do mundo jurídico e da política se reuniram nesta segunda-feira (23), em São Paulo, em um encontro realizado pelo escritório Modesto Carvalhosa, Kuyven e Ronco Advogados, para discutir o assunto.

 

O campo de reflexão nesse tema de geopolítica e agronegócio é vasto, podendo abranger os graves aspectos da crise atual, devido à disrupção do multilateralismo, disse o advogado Modesto Carvalhosa. Entre as várias questões que incorporam o assunto, o conflito no Oriente Médio dominou boa parte das discussões.

 

A senadora e ex-ministra da Agricultura Teresa Cristina afirmou que a agricultura e a produção de alimentos deixaram de ocupar um lugar periférico na política internacional. "Hoje, elas estão no centro das disputas e alianças estratégicas globais. Durante décadas, fomos educados a pensar o comércio agrícola como um espaço regido essencialmente pela lógica econômica, produtividade, vantagens comparativas, eficiência logística e preços."

 

Essa visão já não é mais suficiente para explicar o mundo em que estamos inseridos, afirmou. A geopolítica voltou, e hoje as decisões sobre quem produz, quem exporta, quem compra e em quais condições são, cada vez mais, influenciadas por considerações de segurança nacional, estabilidade política, alinhamentos estratégicos e disputas de poder.

 

Segundo ela, o alimento tornou-se um ativo sensível e, em muitos casos, instrumento de pressão, de barganha e até de coerção. É nesse cenário mais incerto, mais competitivo e menos previsível que o agronegócio assume uma nova centralidade.

 

Energia e alimento deixam de ser apenas mercadorias e passam a ser cada vez mais fundamentos de poder. Ela diz que a leitura do cenário internacional precisa ser vista de um conjunto de diretrizes interconectadas, que vão de reinterpretar o multilateralismo a compreender a reduzir a vulnerabilidade de insumos estratégicos.

 

A dependência brasileira de fertilizantes, principalmente diante da guerra no Oriente Médio, esteve presente na avaliação dos demais participantes.

 

Plinio Nastari, da Datagro, destacou a importância de Omã e do Qatar no fornecimento de ureia para o Brasil. Juntos, representam 35,4% das importações brasileiras. Nastari destacou, no entanto, a importância que a energia renovável vinda do campo está propiciando ao sistema energético brasileiro nas últimas décadas. Em alguns estados, como Mato Grosso, o etanol já substitui 67% da gasolina.

 

Teresa Cristina diz que o país não precisa chegar a 100% do fornecimento nacional de fertilizantes, mas tem de haver uma margem de segurança. Há uma falta de prioridade, e o Executivo tem de dar o pontapé inicial. A sociedade e a iniciativa privada vêm depois.

 

Gustavo Spadotti, chefe-geral da Embrapa Territorial, não tem esperanças de um fim rápido da guerra. Os Estados Unidos não estão entre os principais destinos do petróleo que está passando pelo estreito de Hormuz, são grandes produtores e conseguem preços baixos na Venezuela.

 

Quanto aos fertilizantes, já foi debatido um Plano Nacional de Fertilizantes e se sabe o que precisa ser feito. Falta uma coordenação mais azeitada, principalmente dentro do Executivo, afirma Spadotti (Folha, 24/3/26)