14/09/2026

NHK vem ao interior paulista para entender o agro e as eleições brasileiras

NHK vem ao interior paulista para entender o agro e as eleições brasileiras

Rafael Nogueira (Jornalista e produtor da rede de TV japonesa NHK); Tohoya Yoshinaga (Correspondente-Chefe da NHK); João Henrique de Souza Freitas (Secretário da Agricultura e Abastecimento de Araraquara); Nicola de Sousa Freitas (Presidente do Sindicato Rural de Araraquara). Foto Arquivo Pessoal

Por João Henrique de Souza Freitas

 

A NHK, emissora pública de televisão do Japão e uma das principais organizações de comunicação daquele país, veio ao interior de São Paulo para compreender melhor o agronegócio brasileiro e o cenário político e econômico às vésperas das eleições de 2026.

 

Recebi a equipe em minha propriedade rural, em São Carlos. Falamos sobre laranja, cana-de-açúcar, custos de produção, mercado e perspectivas para as próximas safras. Também conversamos sobre o peso do agronegócio nas decisões que o Brasil tomará nas urnas.

 

Imagem de um dos estúdios da TV NHK do Japão. Foto Divulgação

 

Participei da entrevista como produtor rural, engenheiro agrônomo, secretário municipal de Agricultura de Araraquara e vice-presidente do Sindicato Rural Patronal de Araraquara. Em todas essas funções, vejo a mesma realidade: o que acontece dentro da porteira repercute muito além dela.

 

O agro brasileiro sob o olhar do mundo

 

 

O interesse da NHK é compreensível. O Brasil está entre as maiores potências agrícolas do planeta, e nossa produção influencia o abastecimento, os preços internacionais e a segurança alimentar de diversos países.

 

Na citricultura, a primeira reestimativa da safra 2026/27 para o cinturão de São Paulo e do Triângulo e Sudoeste Mineiro aponta uma produção de 263,15 milhões de caixas de laranja, de 40,8 quilos. O número é expressivo, mas não revela sozinho a realidade de quem produz.

 

Por trás de cada caixa existem investimento, tecnologia, mão de obra, crédito e muito trabalho. Existem ainda os riscos provocados pelo clima, pelo greening, pela queda prematura dos frutos e pela elevação dos custos.

 

O produtor, portanto, não vive apenas do preço de venda. Para continuar produzindo, precisa de crédito adequado, seguro rural eficiente, infraestrutura, segurança jurídica e condições para planejar. Isso vale para a laranja, a cana, o café, a soja, o milho, a pecuária e todas as demais cadeias produtivas.

 

As eleições também chegam à porteira

 

A conversa com a equipe japonesa avançou naturalmente para a política. Minha posição é clara: sou de direita e apoio Flávio Bolsonaro para a Presidência da República.

 

Não afirmo que todo o agronegócio pense da mesma forma. O setor é amplo, diverso e reúne diferentes opiniões. Entretanto, uma parcela expressiva do meio rural se identifica com pautas como respeito à propriedade privada, liberdade econômica, segurança no campo e segurança jurídica.

 

Também não se pode reduzir a eleição à disputa presidencial. Em 2026, serão renovadas 54 das 81 cadeiras do Senado — dois terços da Casa —, além da Câmara dos Deputados e dos governos estaduais.

 

O Senado participa da aprovação das leis, fiscaliza o Executivo e analisa as indicações feitas pelo presidente da República para o Supremo Tribunal Federal. Por isso, a escolha de senadores e deputados terá consequências diretas sobre os rumos institucionais e econômicos do país.

 

A eleição de 2022 deixou uma lição importante. No segundo turno, pouco mais de 2,1 milhões de votos separaram Lula e Jair Bolsonaro, enquanto mais de 32 milhões de eleitores não compareceram às urnas. Cada voto importa.

 

Os levantamentos divulgados em setembro mostram que a disputa de 2026 continua aberta. Na pesquisa Datafolha mais recente, Lula aparece com 46% e Flávio Bolsonaro com 44% em uma simulação de segundo turno, resultado que configura empate técnico dentro da margem de erro.

 

Independentemente da preferência de cada cidadão, não faz sentido reclamar das decisões tomadas em Brasília sem participar da escolha de quem irá tomá-las. O produtor rural precisa acompanhar os candidatos, conhecer suas propostas e votar também para governador, deputado e senador com a mesma atenção dedicada à Presidência.

 

Do campo de São Carlos para o Japão

Sede da rede de televisão japonesa NHK. Foto Divulgação

 

 

A visita da NHK mostra que uma conversa iniciada em uma propriedade de São Carlos pode alcançar o outro lado do mundo. A laranja conduz ao debate sobre segurança alimentar; os custos agrícolas levam à economia; e a realidade do produtor ajuda a explicar o cenário político brasileiro.

 

Como produtor rural, conheço os desafios enfrentados diariamente. Como engenheiro agrônomo, compreendo a parte técnica. Como secretário de Agricultura e dirigente sindical, reconheço a responsabilidade do poder público e das entidades representativas na defesa de quem produz.

 

Minha posição política está definida, mas existe uma preocupação que deve estar acima das divergências: o Brasil precisa continuar produzindo, gerando empregos, atraindo investimentos, exportando e alimentando sua população e o mundo.

 

A lavoura não espera o resultado das urnas. As decisões tomadas nelas, porém, chegarão inevitavelmente até dentro da porteira.