01/06/2026

Novas tendências se formam em meio ao nevoeiro da economia global

Novas tendências se formam em meio ao nevoeiro da economia global

José Roberto Mendonça de Barros. Foto Reprodução Estadão

Por J. R. Mendonça de Barros 

 

Sobe o valor da independência energética e da descarbonização; a demanda por estoques também está em alta: estas e outras transformações estão em curso, entre guerras tarifárias e bélicas

 

Desde o início do segundo mandato de Trump, grandes mudanças estão a ocorrer no cenário global, resultado da política fiscal expansionista, da guerra tarifária e do ataque ao Irã.

 

Os preços de petróleo e derivados subiram muito em meio aos bombardeios, tendo flutuado na faixa de US$ 100 por barril. Eles podem subir ainda mais. Com o Estreito de Ormuz fechado, os estoques nas mãos dos consumidores começam a ficar escassos, levando, inclusive, à paralisia de algumas indústrias.

 

Mesmo com um cessar fogo, os preços de derivados de petróleo seguirão muito pressionados. Tanto na Rússia quanto no Golfo, as guerras em curso têm levado a bombardeios em instalações. Em consequência, os preços de certos derivados têm subido ainda mais (o “crack spread” ampliou-se). Serão meses até o mercado se ajustar, o que manterá o choque inflacionário em curso por mais tempo.

 

Estamos num ambiente estruturalmente mais inflacionário. Nos EUA, as pressões vêm dos gastos públicos, do choque de energia e do enorme volume de investimentos em IA. Com isso, a inflação está na ordem de 3.5%, e a taxa de juros de 30 anos ultrapassou 5%, devendo seguir pressionada por longo tempo.

 

Como a dívida, que já está maior do que o PIB, deverá continuar crescendo, os papéis longos do Tesouro americano não são mais, inequivocamente, a âncora do sistema financeiro global.

 

Do ponto de vista geopolítico, é evidente que a China ganhou a parada e que a Ucrânia virou o jogo da guerra. Trump e Putin perderam suas apostas.

 

A Marinha americana não controla mais os mares como antes, e a tecnologia da guerra está mudando de forma dramática, com implicações nas cadeias produtivas. Como já foi dito por vários analistas, sai o just in time e entra o just in case. A demanda por estoques vai subir.

 

Em particular, subiu o valor da independência energética e da descarbonização.

 

Alguns países médios estão bem posicionados nessa nova situação, como CanadáAustráliaEspanha, nórdicos e Brasil.

Boa parte das cadeias produtivas chinesas atingiram uma competitividade insuperável, o que está permitindo a valorização da moeda chinesa. A deflação neste país terminou.

 

Última tendência a considerar é que a IA irá alterar de forma profunda a tecnologia do sistema produtivo. Entretanto, os espantosos exageros nas avaliações de valor das grandes plataformas formam uma bolha clara, que parece próxima do fim (José Roberto Mendonça de Barros é economista e sócio da MB Associados; Estadão, 31/5/26)