Novas tendências se formam em meio ao nevoeiro da economia global
José Roberto Mendonça de Barros. Foto Reprodução Estadão
Por J. R. Mendonça de Barros
Sobe o valor da independência energética e da descarbonização; a demanda por estoques também está em alta: estas e outras transformações estão em curso, entre guerras tarifárias e bélicas
Desde o início do segundo mandato de Trump, grandes mudanças estão a ocorrer no cenário global, resultado da política fiscal expansionista, da guerra tarifária e do ataque ao Irã.
Os preços de petróleo e derivados subiram muito em meio aos bombardeios, tendo flutuado na faixa de US$ 100 por barril. Eles podem subir ainda mais. Com o Estreito de Ormuz fechado, os estoques nas mãos dos consumidores começam a ficar escassos, levando, inclusive, à paralisia de algumas indústrias.
Mesmo com um cessar fogo, os preços de derivados de petróleo seguirão muito pressionados. Tanto na Rússia quanto no Golfo, as guerras em curso têm levado a bombardeios em instalações. Em consequência, os preços de certos derivados têm subido ainda mais (o “crack spread” ampliou-se). Serão meses até o mercado se ajustar, o que manterá o choque inflacionário em curso por mais tempo.
Estamos num ambiente estruturalmente mais inflacionário. Nos EUA, as pressões vêm dos gastos públicos, do choque de energia e do enorme volume de investimentos em IA. Com isso, a inflação está na ordem de 3.5%, e a taxa de juros de 30 anos ultrapassou 5%, devendo seguir pressionada por longo tempo.
Como a dívida, que já está maior do que o PIB, deverá continuar crescendo, os papéis longos do Tesouro americano não são mais, inequivocamente, a âncora do sistema financeiro global.
Do ponto de vista geopolítico, é evidente que a China ganhou a parada e que a Ucrânia virou o jogo da guerra. Trump e Putin perderam suas apostas.
A Marinha americana não controla mais os mares como antes, e a tecnologia da guerra está mudando de forma dramática, com implicações nas cadeias produtivas. Como já foi dito por vários analistas, sai o just in time e entra o just in case. A demanda por estoques vai subir.
Em particular, subiu o valor da independência energética e da descarbonização.
Alguns países médios estão bem posicionados nessa nova situação, como Canadá, Austrália, Espanha, nórdicos e Brasil.
Boa parte das cadeias produtivas chinesas atingiram uma competitividade insuperável, o que está permitindo a valorização da moeda chinesa. A deflação neste país terminou.
Última tendência a considerar é que a IA irá alterar de forma profunda a tecnologia do sistema produtivo. Entretanto, os espantosos exageros nas avaliações de valor das grandes plataformas formam uma bolha clara, que parece próxima do fim (José Roberto Mendonça de Barros é economista e sócio da MB Associados; Estadão, 31/5/26)

