29/03/2026

O abismo como projeto de poder – Por Paula Sousa

O abismo como projeto de poder – Por Paula Sousa

 Presidente Lula — Foto Adriano Machado Reuters

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A política brasileira acaba de atravessar o espelho. O que antes era uma estratégia de contenção transformou-se em uma marcha cega em direção ao precipício. Enquanto o Palácio do Planalto se fiava na crença de que o sobrenome Bolsonaro seria um teto intransponível, o solo sob os pés de Luiz Inácio Lula da Silva começou a ceder. O erro de cálculo não foi apenas matemático; foi existencial.

 

O despertar do "herdeiro" e o erro de Lula

 

Durante anos, a esquerda brasileira alimentou a narrativa de que enfrentar um "Bolsonaro raiz" seria o melhor dos mundos. A lógica era simples: a rejeição ao pai garantiria a vitória do filho de São Bernardo. Contudo, a realidade de março de 2026, trazida pela matéria do Estadão, revela que o tiro saiu pela culatra. Flávio Bolsonaro não é apenas um herdeiro; ele é a evolução tática de uma linhagem que aprendeu a sangrar o sistema por dentro.

 

Com 47,6% das intenções de voto contra 46,6% de Lula, Flávio provou que o "polimento" que faltava ao pai é, na verdade, sua arma mais letal. Ele transita onde o suposto “radicalismo” travava; ele acena para o centro com ironias que a esquerda, engessada em seu próprio purismo, não consegue decifrar. O Planalto, que esperava um vilão de caricatura, encontrou um enxadrista que utiliza a própria estrutura do Estado para validar sua narrativa de perseguição.

 

A estratégia do caos: Cloward-Piven e a farsa da proteção

 

O que está em curso no Brasil não é gestão pública, é uma demolição controlada. O governo Lula utiliza a Estratégia Cloward-Piven: um método perverso de asfixia econômica onde se sobrecarrega o Estado com demandas por benefícios até que o sistema colapse, forçando uma ruptura social e uma reforma radical que entrega o controle total aos governantes. É a engenharia da dependência.

 

Para sustentar esse projeto de perpetuação, a esquerda veste a máscara de "escudo dos vulneráveis", mas os fatos revelam o rosto do algoz. O grupo mais atingido hoje é justamente o dos idosos. No Brasil, um país de terceiro mundo onde o idoso trabalhou duro a vida inteira para ganhar pouco, o governo permite — ou ignora — deduções não autorizadas no sustento de quem já não tem mais forças para lutar. É o roubo do pouco que resta a quem deu a vida pelo país.

 

A contradição é brutal e se espalha por outros pilares:

 

  • A Farsa da Defesa das Mulheres e Crianças: O governo utiliza o pretexto da "proteção" a esses grupos para erguer um cinturão de censura. No entanto, a realidade internacional — que serve de espelho para o PT — mostra que esses governos são os primeiros a abandonar as vítimas. O exemplo do Reino Unido é estarrecedor: o bloqueio de investigações contra gangues paquistanesas que estupraram 250 mil meninas inglesas, apenas para não ferir a sensibilidade de grupos que compõem a base eleitoral da esquerda.

 

  • A Instrumentalização do Parlamento: Para manter essa engrenagem girando, o governo não hesita em "assassinar a reputação" de quem tenta investigar a verdade. A CPMI do INSS foi enterrada sob um mar de lama, com ataques baixos ao caráter do relator, enquanto ministros são exonerados e reintegrados ao Senado apenas para garantir "votos comprados" com o dinheiro do contribuinte.

 

  • O Desprezo por quem Produz : A narrativa esquerdista ignora que o Estado não produz um único centavo. Quem produz é o cidadão, que agora vê o governo celebrar o encerramento de investigações e a impunidade, enquanto a economia definha.

 

O governo odeia o cidadão, destrói sua economia e desrespeita sua dignidade em todos os níveis, mas uma parcela da população continua "apaixonada pelo algoz".

 

Lula e sua base não estão lutando por ideais; estão lutando pela sobrevivência do poder, mesmo que para isso precisem deixar um rastro de terra arrasada, sacrificando idosos, mulheres e a própria economia no altar da sua soberba política.

 

A Síndrome de Estocolmo eleitoral

 

O que testemunhamos hoje no Brasil é um fenômeno de auto-ódio coletivo sem precedentes. Uma parcela considerável da militância, capturada por uma espécie de Síndrome de Estocolmo política, parece disposta a abraçar a miséria, o desemprego e a estagnação econômica como sacrifícios aceitáveis no altar da ideologia. É uma devoção religiosa e fanática a um algoz: o eleitor aceita votar contra os próprios interesses e o próprio futuro, apenas para "estufar o peito" e vangloriar-se de que a direita não retornou ao poder.

 

Essa cegueira deliberada pavimenta o caminho para uma ditadura do assistencialismo. Enquanto o custo de vida dispara e escândalos como o do Banco Master corroem a credibilidade das instituições — refletida nos 60% de desconfiança popular no STF —, o militante cativo escolhe ignorar o prato vazio em troca de uma vitória moral imaginária.

A esquerda vende a narrativa de "escudo dos vulneráveis", mas, na prática, asfixia o idoso que depende do INSS e rouba o horizonte do jovem que não enxerga futuro além das migalhas dos auxílios governamentais. No fim, o orgulho de barrar o adversário tornou-se mais importante do que a dignidade de viver em um país próspero.

 

O tácito acordo com a ruína

 

A esquerda subestimou a capacidade de renovação da direita porque se cercou de espelhos que apenas refletem o que ela deseja ver. Ao focar no passado de Jair Bolsonaro, esqueceu-se de governar o presente de 2026. Agora, diante da impopularidade crescente em estratos antes inabaláveis, a tática é o "tudo ou nada".

 

Se for preciso quebrar a economia para manter o controle, eles quebrarão. Se for preciso aparelhar o Judiciário até que a linha entre justiça e política desapareça por completo, eles o farão. A estratégia é clara: criar uma população dependente, amedrontada e silenciada por um aparato de vigilância que se vende como democrático.

 

O alerta final

 

O embate entre Lula e Flávio Bolsonaro não é uma simples eleição; é um referendo sobre a sobrevivência da viabilidade econômica do Brasil. De um lado, uma direita que aprendeu a se comunicar com as massas sem os filtros da velha mídia; do outro, uma esquerda que, sentindo o poder escorregar pelos dedos, está disposta a queimar a casa para não ser despejada.

 

O eleitor que hoje vota contra si mesmo, que aceita a corrupção institucionalizada e a destruição do sistema financeiro em nome de uma ideologia, precisa entender que a "vitória" contra a direita terá um preço: a impossibilidade de reconstruir o que restou. O Brasil não está apenas em disputa; ele está sob um ataque coordenado de quem prefere reinar sobre as cinzas a servir em uma democracia próspera.

 

A pergunta que fica para 2026 não é quem ganhará a eleição, mas o que sobrará do país quando o último voto for computado. O blefe de Lula foi revelado. Agora, resta saber se o povo brasileiro terá a coragem de romper o ciclo de abusos ou se continuará apaixonado por quem lhe retira o pão (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 30/3/2026)