09/03/2026

O agro que sustenta o Brasil exige um projeto de País - Por Celso Moretti

O agro que sustenta o Brasil exige um projeto de País - Por Celso Moretti

Celso Moretti Foto Reprodução Universidade Federal de Viçosa

 

Quem pretende governar o Brasil a partir de 2027 precisa compreender que o futuro do agro não é só rural: é econômico, ambiental, tecnológico, social e geopolítico.

 

O agronegócio brasileiro seguirá sendo, em 2026, o principal pilar econômico do País. Responde por cerca de 1/4 do PIB, mais de 40% das exportações e milhões de empregos diretos e indiretos. Ainda assim, o setor convive com um paradoxo preocupante: sustenta o Brasil, mas opera sob crescentes riscos estruturais, regulatórios, logísticos, climáticos e geopolíticos. Ignorar esses desafios equivale a comprometer o próprio projeto nacional de desenvolvimento.

 

Aos candidatos ao Planalto, impõe-se uma pergunta central: qual é a visão de médio e longo prazos para o agro brasileiro num mundo mais regulado, com mudanças climáticas e geopoliticamente instável?

 

O primeiro grande desafio é institucional. O agro brasileiro sofre com insegurança jurídica crônica: mudanças frequentes em regras ambientais, fundiárias, trabalhistas e tributárias; judicialização excessiva; sobreposição de competências entre órgãos; e incertezas quanto à implementação de compromissos internacionais.

 

Sem previsibilidade regulatória, não há investimento de longo prazo. O produtor, a agroindústria e o investidor precisam saber quais regras valerão daqui a cinco, dez ou 20 anos – especialmente em temas como uso da terra, licenciamento ambiental, bioinsumos, edição gênica, defensivos, carbono e rastreabilidade. Um país que muda as regras no meio do jogo compromete sua competitividade.

 

Mudanças climáticas, gestão de risco e adaptação produtiva precisarão também de endereçamento pragmático. Eventos climáticos extremos deixaram de ser exceção. Secas prolongadas, enchentes, ondas de calor e irregularidade hídrica já afetam diretamente a produtividade agrícola, o custo do seguro rural e a estabilidade da renda no campo.

 

O próximo governo precisará tratar adaptação climática como política agrícola central, não como apêndice ambiental. Isso inclui: fortalecimento do seguro rural, zoneamento agroclimático mais dinâmico, crédito direcionado à resiliência produtiva, pesquisa aplicada em sistemas adaptados e incentivo à agricultura de baixo carbono com métricas claras e auditáveis.

 

Em infraestrutura, logística e competitividade sistêmica, o Brasil segue exportando eficiência “dentro da porteira” e ineficiência “fora dela”. Gargalos em rodovias, ferrovias, hidrovias, armazenagem, portos e energia encarecem o produto brasileiro e reduzem margens.

Não se trata apenas de investir mais, mas de planejar melhor, integrar modais, reduzir custos regulatórios e acelerar concessões com segurança jurídica. Logística é política agrícola. Sem ela, o ganho de produtividade se perde antes de chegar ao mercado.

 

Na arena internacional, o agro brasileiro está no centro de disputas comerciais, ambientais e geopolíticas. Exigências como rastreabilidade, descarbonização, due diligence ambiental e padrões ESG não são conjunturais – vieram para ficar.

 

O erro estratégico seria tratar essas exigências apenas como barreiras. O desafio real é transformar sustentabilidade em vantagem competitiva, com diplomacia ativa, defesa técnica do produtor, reconhecimento de esforços já realizados e construção de narrativas baseadas em dados, ciência e resultados. O Brasil não pode ser um exportador passivo de commodities sob regras impostas por terceiros. Precisa ser formulador de padrões, não apenas receptor deles.

 

O agro brasileiro só chegou até aqui graças à ciência, à pesquisa pública e à inovação. Mas há sinais claros de esgotamento institucional: orçamentos instáveis, fuga de talentos, baixa articulação entre pesquisa, extensão e mercado e dificuldade de escalar inovações.

 

Precisa ficar claro para o novo mandatário que, sem investimento consistente em ciência, biotecnologia, agricultura digital, dados, inteligência artificial e formação de pessoas, o Brasil perderá competitividade. O próximo ciclo agrícola será tão tecnológico quanto biológico – e exigirá capital humano qualificado no campo e fora dele.

 

O endividamento do setor, a insuficiência de recursos para o seguro rural e financiamento para suportar o desenvolvimento exigirão tratamento prioritário. O modelo tradicional de crédito rural está sob pressão. Juros, risco climático, exigências ambientais e restrições fiscais impõem limites ao sistema atual. O desafio é ampliar instrumentos: mercado de capitais, garantias inovadoras, blended finance, fundos climáticos e seguros mais robustos. Produzir alimentos, fibras e energia renovável em escala global exige arquitetura financeira moderna, compatível com risco, retorno e sustentabilidade.

 

O agro não precisa de discursos genéricos nem de slogans ideológicos. Precisa de um projeto de país que combine produtividade, sustentabilidade, segurança jurídica, ciência e inserção internacional estratégica. Quem pretende governar o Brasil a partir de 2027 precisa compreender que o futuro do agro não é apenas rural: é econômico, ambiental, tecnológico, social e geopolítico. Tratar o setor como problema é um erro. Tratá-lo apenas como caixa registradora, também.

 

O agro brasileiro não pede privilégios. Pede regras claras, visão estratégica e políticas públicas à altura de sua relevância. Em 2026, essa será uma das principais provas de liderança para quem ambiciona o Planalto (Celso Moretti

é engenheiro agrônomo, foi presidente da Embrapa; Estadão, 9/3/26)