02/07/2026

O Brasil está virando Cuba? – Por Lúcia Festuccia

O Brasil está virando Cuba? – Por Lúcia Festuccia

O paralelo que o deputado Luiz Philippe de Orleans e Bragança traça entre a Gaesa cubana e o grupo J&F-JBS. Imagem Reprodução YouTube

 

Em um vídeo publicado em seu canal no YouTube, o deputado federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL-SP) apresenta uma tese provocadora: a de que o modelo de concentração de poder econômico e político vigente em Cuba, sob o controle do conglomerado militar Gaesa (Grupo de Administración Empresarial S.A.), estaria sendo replicado no Brasil por meio da trajetória do grupo J&F, controlador da JBS, e de sua relação com o Estado brasileiro. Para sustentar essa comparação, o parlamentar reúne dados, valores e um histórico de decisões públicas.

 

A seguir, reconstruímos o argumento apresentado do início ao fim, com todos os nomes, empresas e números citados pelo deputado Luiz Philippe, deixando claro que se trata da visão do parlamentar, e não de uma constatação isenta de controvérsias. Ainda assim, é uma narrativa que suscita um debate relevante sobre acontecimentos que, segundo ele, vêm se desenrolando há pelo menos três décadas.

 

O modelo cubano: A Gaesa e a família Castro

 

O deputado inicia descrevendo a Gaesa (Grupo de Administración Empresarial S.A.), criada nos anos 1990 como um mecanismo para captar divisas estrangeiras durante o colapso econômico cubano após o fim da União Soviética.

 

Segundo ele, a empresa foi reservada a um grupo restrito ligado à família Castro. Como referência, cita a análise do acadêmico Juan Antônio Blanco, presidente da plataforma Cuba Século XXI, para quem Raúl Castro teria criado essa estrutura justamente para blindar os generais das tentações da corrupção, objetivo que, na avaliação do deputado, acabou produzindo o efeito oposto.

 

O parlamentar relata que, em 2006, quando Fidel Castro adoeceu e se afastou do poder, a Gaesa ainda era uma empresa de pequeno porte, baseada essencialmente na Gaviota, companhia voltada ao turismo que, naquele período, competia em condições semelhantes às demais empresas ligadas ao Ministério do Turismo cubano.

 

O ponto de inflexão, segundo ele, ocorreu em 2008, quando Raúl Castro assumiu a presidência, substituiu os quadros civis nomeados por Fidel e transferiu os setores mais lucrativos da economia cubana para o controle militar. Esse processo teria levado a Gaesa, em apenas dois anos, de uma empresa relativamente pequena ao controle de cerca de metade da economia do país.

 

A partir desse momento, por meio da empresa CIMEX, a Gaesa teria passado a controlar postos de combustíveis, supermercados, casas de câmbio, fábricas de bebidas, serviços de internet, remessas internacionais, imóveis, hotéis, lojas em Havana Velha, centros de mergulho, agências marítimas, portos, locadoras de veículos e o Banco Financeiro Internacional, passando também a concentrar o controle das reservas e das divisas do país.

 

O deputado também destaca as chamadas "missões médicas" internacionais, incluindo o programa Mais Médicos no Brasil. Com base em documentação do Departamento de Estado dos Estados Unidos, afirma que o governo cubano reteria a maior parte da remuneração dos profissionais enviados ao exterior, confiscaria documentos e utilizaria ameaças a familiares para impedir deserções.

 

Quanto aos números, Luiz Philippe cita reportagem do jornal americano Miami Herald, produzida a partir de documentos internos vazados em 2024, segundo a qual a Gaesa controlava, em março daquele ano, ativos avaliados em pelo menos US$ 17 bilhões, incluindo US$ 14,5 bilhões em contas bancárias, valor superior às reservas internacionais somadas de Equador, Paraguai e República Dominicana.

 

Segundo esses documentos, a margem de lucro do conglomerado chegaria a 38%, em contraste com margens normalmente entre 5% e 15% observadas em empresas internacionais competitivas. O deputado ressalta ainda que esses números não incluiriam a CIMEX, considerada a maior empresa do grupo.

 

Ao concluir a análise sobre Cuba, afirma que cerca de nove em cada dez cubanos viveriam em condições de pobreza extrema, enquanto o PIB do país teria acumulado queda de 15% entre 2020 e 2026.

 

O paralelo brasileiro: J&F, JBS e a família Batista

 

Na sequência, o deputado transporta essa narrativa para o Brasil. Recorda que o grupo nasceu em 1953, quando José Batista Sobrinho abriu um açougue em Anápolis (GO), hoje transformado, sob o comando dos filhos Joesley e Wesley Batista, no que define como o maior conglomerado privado do país.

 

Segundo ele, a J&F reúne atualmente a JBS; a fabricante de celulose Eldorado; participações no setor financeiro por meio do Banco Original e do PicPay; o Canal Rural; as empresas de energia Âmbar e Fluxo; a mineradora LHG Mining; e a empresa de cosméticos e higiene Flora.

 

Também destaca a aquisição de 68% da Eletronuclear, negociada junto à Eletrobras por R$ 535 milhões, além de negociações em andamento para a compra de uma empresa do setor de defesa nacional, mencionada no vídeo pela sigla "AVBR".

 

O parlamentar afirma que o faturamento do grupo nos últimos 12 meses alcançou R$ 490 bilhões, valor que, segundo ele, supera o PIB de 20 estados brasileiros.

 

Outro ponto enfatizado é o papel do BNDES na expansão da empresa. Entre 2002 e 2013, o banco teria liberado cerca de R$ 13 bilhões às empresas controladas pela J&F. Ao longo de aproximadamente 20 anos, esse apoio teria alcançado cerca de US$ 25 bilhões entre empréstimos e participações acionárias, tornando o BNDES o segundo maior acionista do grupo, com 20% das ações, atrás apenas da família Batista.

 

Luiz Philippe cita como marco o período entre 2007 e 2010, quando operações com o BNDES teriam somado R$ 8,1 bilhões, viabilizando a compra da americana Swift por US$ 1,4 bilhão. Dois anos depois, um novo empréstimo de R$ 3,5 bilhões teria financiado a aquisição da Pilgrim's Pride, também nos Estados Unidos.

 

O deputado também menciona, de forma mais genérica, negociações para a entrada do grupo no setor de defesa nacional. Trata-se da Avibrás Indústria Aeroespacial, fabricante dos sistemas de foguetes ASTROS e do Míssil Tático de Cruzeiro MTC-300, que se encontrava em recuperação judicial desde 2022.

 

Reportagens publicadas após a gravação do vídeo confirmaram que Joesley Batista assinou contrato para participar de uma captação de R$ 300 milhões coordenada pelo Fundo Brasil Crédito, viabilizando a retomada da empresa. Segundo a imprensa, a operação também esteve relacionada à preocupação das Forças Armadas em evitar a venda da Avibrás para grupos estrangeiros que demonstraram interesse na companhia entre 2024 e 2025, como a chinesa Norinco, a australiana DefendTex e a saudita Black Storm Military Industries.

 

Na sequência, o deputado relembra a delação premiada de 2017, quando os irmãos Batista admitiram à Polícia Federal o pagamento de propinas durante 12 anos para obter financiamentos favorecidos do BNDES, celebrando acordo de leniência com multa fixada em R$ 10,3 bilhões.

 

Decisões recentes citadas pelo deputado

 

O vídeo dedica atenção especial a três episódios ocorridos entre 2023 e 2025.

 

*A suspensão da multa pelo STF. Em dezembro de 2023, o ministro Dias Toffoli suspendeu a cobrança do saldo remanescente da multa de leniência da J&F. Segundo o deputado, a empresa buscava reduzir o valor de aproximadamente R$ 10 bilhões para R$ 600 milhões, tendo pago até então cerca de R$ 3 bilhões. Ele destaca ainda que a ex-esposa do ministro, Roberta Rangel, integra a equipe jurídica que atua para a J&F e afirma que a decisão foi tomada sob sigilo às vésperas do recesso do Judiciário.

 

*A Medida Provisória das termoelétricas. Em junho de 2024, a Âmbar adquiriu 13 usinas termelétricas da Eletrobras. Três dias depois, o governo Lula editou a Medida Provisória 1.232/2024, que, segundo o deputado, distribuiu entre todos os consumidores brasileiros os custos operacionais dessas usinas durante 15 anos. O impacto estimado por operadores do mercado seria de R$ 2 bilhões a R$ 3 bilhões por ano, podendo ultrapassar R$ 30 bilhões ao longo do período, alcançando inclusive famílias beneficiárias da tarifa social.

 

*A presença institucional em 2025. O deputado cita a participação do presidente Lula em cerimônia oficial ao lado de Wesley Batista e destaca a listagem das ações da JBS na Bolsa de Nova York (NYSE), em junho de 2025, com o objetivo declarado de integrar o índice S&P 500, tornando a empresa a primeira brasileira a alcançar esse patamar.

 

O paralelo apresentado pelo deputado

 

Ao sintetizar sua comparação, Luiz Philippe organiza o paralelo em cinco eixos:

 

  1. uso de posições de poder: Raúl Castro, como ministro das Forças Armadas, e a família Batista, pela proximidade com governos do PT desde 2003, teriam viabilizado a formação dos respectivos grupos;

 

  1. mecanismos de vantagem estatal: monopólio legal em Cuba versus financiamento público e participação acionária do BNDES no Brasil;

 

  1. presença em setores estratégicos e altamente rentáveis: turismo, remessas e comércio exterior em Cuba; alimentos, mineração, energia, cosméticos, sistema financeiro e comunicação no Brasil;

 

  1. opacidade: ausência de mecanismos independentes de auditoria em Cuba versus decisões sigilosas e vínculos familiares no Judiciário brasileiro, conforme o caso citado;

 

  1. concentração de riqueza: os US$ 17 bilhões em ativos atribuídos à Gaesa em meio à pobreza cubana contrapostos ao custo bilionário repassado aos consumidores brasileiros para sustentar usinas deficitárias adquiridas pelo grupo.

 

O deputado ressalva, contudo, uma diferença fundamental. Segundo ele, ao contrário de Cuba, onde afirma não existirem oposição, imprensa livre, Congresso ou eleições capazes de reverter esse processo, o Brasil ainda preserva essas instituições.

 

Como alternativa, apresenta cinco propostas de seu projeto político, denominado "Plano Brasil":

 

  1. reorientar o BNDES para infraestrutura e pequenos e médios empreendedores, vedando recursos a empresas com histórico de corrupção confessada;

 

  1. estabelecer mandato de dez anos para ministros do STF, com critérios mais rígidos de nomeação e o fim de decisões monocráticas sigilosas;

 

  1. abrir o mercado de distribuição de energia elétrica à concorrência;

 

  1. impedir que uma mesma empresa ou família controle simultaneamente setores como sistema financeiro, mídia, energia, mineração e infraestrutura crítica por meio de legislação antitruste;

 

  1. promover uma reorganização constitucional que descentralize competências para estados e municípios.

 

O deputado encerra afirmando que a questão central não é se o Brasil "vai virar Cuba", mas por quanto tempo o país ainda manterá instrumentos democráticos, como eleições, imprensa livre e Congresso, capazes de impedir que esse caminho se consolide. Ao final, convida os espectadores a conhecerem as propostas completas do Plano Brasil e a participarem desse debate.

 

Nota de transparência

 

Este artigo reproduz, de forma organizada e parafraseada, os argumentos, dados e a linha de raciocínio apresentados pelo próprio deputado em seu vídeo, incluindo todos os nomes de pessoas e empresas mencionados por ele, tanto do lado cubano (Gaesa, Gaviota, CIMEX, Banco Financeiro Internacional, Fidel Castro, Raúl Castro, Juan Antônio Blanco e Miami Herald) quanto do lado brasileiro (José Batista Sobrinho, Joesley Batista, Wesley Batista, J&F, JBS, Eldorado, Banco Original, PicPay, Canal Rural, Âmbar, Fluxo, LHG Mining, Flora, Eletronuclear, Eletrobras, BNDES, Swift, Pilgrim's Pride, Avibrás, Dias Toffoli, Roberta Rangel, Lula, NYSE e S&P 500).

 

Trata-se de uma peça de opinião política, e a comparação entre Brasil e Cuba constitui um ponto de vista sujeito a contestação por outros analistas. Cabe destacar que alguns dos fatos citados, como a delação da J&F em 2017, o acordo de leniência, a suspensão da multa pelo STF e a compra das usinas da Eletrobras, são de conhecimento público e amplamente noticiados. Já os valores atribuídos à Gaesa baseiam-se em reportagem de fonte única (Miami Herald) sobre documentos vazados que não foram auditados de forma independente.

 

Quanto à operação envolvendo a Avibrás, mencionada no vídeo sem maiores detalhes, reportagens publicadas posteriormente confirmaram a negociação, mas com valores (R$ 300 milhões, via Fundo Brasil Crédito) distintos daqueles referentes à aquisição da Eletronuclear (R$ 535 milhões), tratando-se de operações diferentes que não devem ser confundidas.

 

Sobre a autora

 

Lúcia Festuccia é advogada com sólida atuação jurídica em Ribeirão Preto. Ao longo de sua trajetória, consolidou-se pela defesa de princípios, pela experiência prática no Direito e pelo engajamento nos debates políticos contemporâneos. Ativista e voz atuante no cenário público, integra o time de articulistas do portal BrasilAgro, contribuindo com análises jurídicas, institucionais e sociais. Também atua como membro da equipe pedagógica e consultora jurídica do Instituto Cultural Voluntários pelo Brasil, desenvolvendo ações voltadas à formação cidadã, à valorização da cultura e ao fortalecimento das instituições; 2/7/2026.