O Dilema das universidades públicas - Por Fabiana Lavanhini
Atualmente, é comum ouvirmos falar de greves, manifestações e reivindicações de alunos nas universidades públicas. No entanto, para que o debate seja produtivo, é fundamental compreender como funciona o financiamento dessas instituições e quem é responsável pela gestão dos recursos públicos destinados a elas.
As universidades estaduais paulistas, como a USP, a Unicamp e a Unesp, possuem autonomia financeira garantida por meio do repasse de uma parcela da arrecadação do ICMS. Nesse sistema, a responsabilidade do governador é assegurar que os recursos sejam transferidos regularmente às instituições. A partir do momento em que o dinheiro chega aos cofres da universidade, a administração desses valores passa a ser responsabilidade do reitor, que exerce a função de gestor máximo da instituição.
Essa distinção é essencial. O governador não administra diretamente o orçamento interno das universidades, não define prioridades de gastos e não executa obras ou serviços dentro dos campi. Essas decisões cabem à reitoria, que deve planejar, aplicar e prestar contas dos recursos recebidos.
Grande parte da população desconhece esse mecanismo. Por essa razão, muitos estudantes acabam direcionando suas cobranças ao governo estadual sem antes verificar se os repasses previstos estão sendo realizados. Essa informação pode ser consultada na plataforma oficial de Repasses às Universidades da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, que divulga os valores transferidos mensalmente às instituições.
Os números demonstram a magnitude desses recursos. Apenas em março de 2026, as universidades estaduais paulistas receberam R$ 1.375.075.769,00 (um bilhão, trezentos e setenta e cinco milhões, setenta e cinco mil, setecentos e sessenta e nove reais). Trata-se de um volume expressivo de recursos públicos, compatível com a posição de São Paulo como o estado de maior arrecadação de ICMS do país.
Diante disso, quando faltam equipamentos, manutenção, infraestrutura adequada ou condições básicas para alunos e professores, é legítimo questionar como esses recursos estão sendo aplicados. A cobrança por melhorias deve ser acompanhada da análise das prestações de contas, dos relatórios financeiros e das decisões administrativas tomadas pela gestão universitária.
Em uma democracia, a fiscalização dos gastos públicos não deve se limitar aos governantes eleitos. Ela também deve alcançar os gestores responsáveis pela administração direta dos recursos. Compreender essa estrutura é o primeiro passo para que a sociedade direcione suas cobranças de forma correta e eficiente.
Por esse e por outros motivos, muitas famílias passaram a avaliar com mais cautela a escolha entre universidades públicas e privadas. O que antes era visto automaticamente como a melhor opção hoje é analisado sob diferentes perspectivas, incluindo qualidade do ensino, ambiente acadêmico, infraestrutura e preparação para o mercado de trabalho.
Também surgem questionamentos sobre o foco adotado por determinadas instituições. Para muitos críticos, parte do ambiente universitário tem se afastado de sua missão principal de transmitir conhecimento técnico, científico e profissional, dedicando cada vez mais espaço a pautas ideológicas e militância política.
Segundo essa visão, em vez de estimular o pensamento crítico e a busca pelo conhecimento, determinadas práticas acabam criando uma mentalidade de divisão entre grupos sociais e promovendo processos de doutrinação que pouco contribuem para a formação acadêmica e profissional dos estudantes.
Os defensores dessa crítica argumentam que a universidade deveria concentrar seus esforços no desenvolvimento de competências, habilidades e conhecimentos necessários para a atuação no mercado de trabalho e para a produção científica, preservando o ambiente acadêmico como espaço de aprendizado e debate plural, sem privilegiar correntes ideológicas específicas.
Independentemente dessas discussões, permanece válida uma das máximas mais conhecidas sobre educação: "quem faz a faculdade é o aluno". A frase reflete uma verdade simples: nenhuma instituição, por melhor que seja, substitui a dedicação, a disciplina e o esforço individual. O sucesso profissional continua dependendo, em grande medida, do comprometimento do estudante com sua própria formação.
Por isso, além de escolher uma instituição adequada, é fundamental buscar um curso alinhado à vocação e aos objetivos pessoais. Quando existe interesse genuíno pela área escolhida, o aprendizado deixa de ser apenas uma obrigação e passa a ser uma oportunidade permanente de crescimento, aperfeiçoamento e realização profissional.
Sobre a autora
Fabiana Lavanhini - Administradora de Empresas formada pela UNIP, Fabiana Lavanhini acumula 19 anos de experiência em treinamentos corporativos e desenvolvimento humano, com atuação em grandes grupos empresariais como Porto Seguro, GPA (Grupo Pão de Açúcar), Grupo Carrefour Brasil e Grupo Ultra (Postos Ipiranga).
Especialista em capacitação profissional e comunicação estratégica, leva ao portal BrasilAgro uma visão prática sobre liderança, gestão e formação de equipes. Também é palestrante em eventos do Instituto Cultural Voluntários pelo Brasil, onde contribui para a formação de lideranças e o fortalecimento de iniciativas educacionais e culturais; 5/6/26

