14/05/2026

O estelionato das blusinhas – Por Paula Sousa

O estelionato das blusinhas – Por Paula Sousa

Imagem IA

O Brasil não é para amadores, mas é, definitivamente, o paraíso dos ilusionistas. Se houvesse um Oscar para a categoria “Cinismo Político”, o atual ocupante do Palácio do Planalto não seria apenas o vencedor; ele seria o dono da estatueta, do tapete vermelho e da bilheteria. O mais recente espetáculo de mágica orquestrado pelo governo Lula — a suspensão estratégica da famigerada “Taxa das Blusinhas” — é uma obra-prima do estelionato eleitoral, um tapa na cara da lógica e uma prova cabal de que, para o PT, o eleitor brasileiro não passa de um figurante com memória de peixe de aquário.

 

Estamos em maio de 2026. O cheiro de urna eletrônica já começa a impregnar o ar, e com ele surge o fenômeno mais previsível da fauna política nacional: a metamorfose do carrasco tributário em "pai da bondade". Para entender o tamanho do escárnio, precisamos rebobinar a fita e expor as vísceras de uma narrativa construída sobre pilares de areia e mentiras deslavadas.

 

A memória curta e o verbo mentiroso

 

Em 2024, o discurso era de uma rigidez quase espartana. Lula, o "defensor da indústria nacional", vociferava contra a invasão dos produtos chineses. "Estamos ficando um país setor de serviço e tá crescendo a importação de produtos que não paguem nenhum imposto nesse país. Como é que a gente vai poder ficar vivendo assim? Eu quero uma relação extraordinária com os chineses, a melhor possível, mas nós não podemos aceitar, sabe, que as pessoas fiquem vendendo para cá coisas sem pagar imposto", dizia ele em 2024, com aquela gravidade de quem está prestes a salvar a economia do país.

 

Naquele momento, a ordem era clara: enfiar a mão no bolso do cidadão que buscava um alento de consumo na Shein ou na Shopee. O objetivo era arrecadar, custear o programa "Mover" para as montadoras bilionárias e agradar o lobby do grande varejo nacional.

 

Corta para 2026. As pesquisas de popularidade batem à porta e trazem notícias indigestas: o Poder 360 manchetou que “62% veem ‘taxa das blusinhas’ como maior erro do governo Lula”, baseando-se em dados da Atlas Intel. O que faz o mestre dos magos? Ele simplesmente apaga o passado. Em uma entrevista que desafia as leis da física e da ética, Lula solta a pérola: "Eu achava desnecessária o aumento da blusinha. Achava desnecessário, porque são compras muito pequenas. Pois é, são compra de R$ 50, R$ 60, R$ 70, sei lá, coisas que não tem nada muito significativo".

 

Note o uso do pretérito imperfeito: "achava". É uma tentativa patética de reescrever a história em tempo real. Ele não apenas mudou de ideia por conveniência; ele quer que você acredite que ele nunca foi o autor da facada. Como bem apontou o portal O Antagonista: “Fim da taxa das blusinhas: Lula acha que o eleitor é otário”. Se ele achava desnecessário, por que sancionou? Por que seu partido foi o maior entusiasta da medida no Congresso? A resposta é simples: ele tem a absoluta convicção de que você é otário.

 

A Medida Provisória: O presente com data de validade

 

A cereja do bolo desse golpe de mestre é o instrumento utilizado. O portal ICL Notícias confirmou: “Lula Assina MP e zera ‘taxa das blusinhas’”. Para o leigo, parece uma vitória definitiva. Para quem conhece o riscado, é uma armadilha com cronômetro. Uma Medida Provisória tem validade de 60 dias, prorrogáveis por mais 60. Façam as contas: os 120 dias de "alívio" terminam exatamente após o período das eleições de 2026.

 

É o "Vale-Tudo" pelo voto, uma tática que o jornalista William Waack, na CNN, definiu com precisão: “Vale tudo de Lula inclui blusinhas, crime e gasolina”. O plano é de uma obviedade gritante: suspende-se a taxa agora para limpar a barra durante a campanha. Assim que a última urna for apurada e o mandato estiver garantido, o governo tem a saída clássica do PT: o estelionato eleitoral planejado, onde o benefício é um aluguel temporário que será cobrado com juros e correção monetária a partir de janeiro de 2027.

 

A "cerca eletrônica" e o imposto invisível

 

Enquanto a militância comemora a "isenção", o governo mantém intacta a estrutura de controle. O fim da taxa das blusinhas é apenas a remoção de uma camada de verniz. Primeiro, falemos do Remessa Conforme. O jornal Valor Econômico já noticiava em 20/07/2023: “Haddad confirma início do programa Remessa Conforme em 1º de agosto”. Esse sistema não é uma facilidade; é uma "cerca eletrônica".

 

No governo anterior, por determinação política e respeito ao Decreto-Lei 1804 de 1980, que diz que remessas até US$ 100 não podem ser tributadas quando destinadas a pessoas físicas, o brasileiro podia comprar barato. O PT destruiu essa lógica. Criou o Remessa Conforme para garantir que nada passe sem o crivo do leão. E como bem lembrou o InfoMoney: “Apesar do fim da ‘Taxa das Blusinhas’, ICMS sobre compras internacionais ainda vale”.

 

O resultado prático? Uma jaqueta que custava R$ 147 na época de Bolsonaro, após as "mágicas" de Haddad e dos governadores petistas (que elevaram o ICMS para até 20% em estados como a Bahia), salta para R$ 221 no carrinho de compras atual. O governo te tira o relógio, te devolve a pulseira e espera que você saia às ruas em procissão agradecendo pela misericórdia. O Remessa Conforme é o sistema que matou a isenção real e garantiu que o brasileiro nunca mais pague o preço justo.

 

Revisionismo e fake news de Estado

 

O mais asqueroso nessa história é a preparação do terreno para a grande mentira de que a culpa da taxação foi da direita. Eles esperam que você esqueça o que o próprio Haddad confessou em entrevista coletiva: “Infelizmente, de 5, 6 anos para cá, essas empresas usaram um expediente... ilegal... para passar como remessa pessoa a pessoa o que era uma venda comercial... houve determinação política que durou 5 anos que nada fosse feito”. Tradução: Bolsonaro deu a ordem política para seguir a lei e não taxar o povo; o PT deu a ordem para taxar.

 

Eles esperam que você ignore o que a CNN manchetou em 05/06/2024: “Governistas apresentam destaque para reinserir taxação de blusinhas em projeto de lei”. O pedido foi apresentado por líderes do PT, PSD e MDB. O PT lutou com unhas e dentes para taxar o seu consumo.

 

E onde estava a "primeira-dama" nesse imbróglio? Janja, ao responder um perfil da Choquei nas redes sociais, afirmou categoricamente que conferiu com Haddad e que “o imposto era nas empresas e não nas pessoas”. Uma mentira deslavada. Qualquer cidadão viu o imposto discriminado no seu boleto. Mas a estratégia é essa: mentir até que a mentira se torne a única realidade disponível para a base militante.

 

A pedalada das blusinhas

 

Há um ponto técnico que o Estadão levantou: “Por que o brasileiro pagou a ‘taxa das blusinhas’ por dois anos?”. Quando a taxa foi criada, o argumento era o financiamento do programa Mover. Se o governo retira essa receita agora, mas mantém o programa, de onde virá o dinheiro?

 

Das duas, uma: ou a taxa nunca foi necessária e Lula cometeu crime de responsabilidade ao confiscar dinheiro do povo sem finalidade real, ou sua retirada agora é uma pedalada fiscal para salvar o próprio pescoço eleitoral. Lula está jogando com as contas públicas, repetindo os mesmos erros que levaram o país ao abismo na década passada com Dilma.

 

Conclusão: O despertar do "otário"

 

A suspensão da taxa das blusinhas não é um ato de bondade; é um ato de pânico diante do Poder 360 que mostrou que o povo acordou. O governo Lula trata o eleitor brasileiro como um recurso renovável de ingenuidade. Eles acreditam que podem te açoitar por três anos e, no quarto ano, te oferecer um copo d'água e esperar gratidão eterna.

 

Se você ainda acredita que o PT está preocupado com o seu poder de compra, olhe para a validade da MP. Olhe para o ICMS que continua lá. Lula não é o "pai dos pobres"; ele é o tutor que gasta a herança dos filhos em apostas eleitorais. O soco na cara da militância é a realidade dos fatos: você está sendo enganado por um projeto de poder que usa o seu carrinho de compras como moeda de troca.

 

Resta saber se, em 2026, o brasileiro vai confirmar o título de "otário" ou se vai, finalmente, quebrar o encanto desse ilusionismo barato (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 14/5/2026)