O “filho do rapaz” e o abridor de portas do INSS – Por Paula Sousa
Lulinha, o “filho” e Lula, o “rapaz”. Foto Reprodução Blog BNC Amazonas
Em Brasília, as paredes não têm apenas ouvidos; elas têm sócios, padrinhos e, principalmente, "amigos dos amigos". O mais novo capítulo dessa novela de bastidores atende pelo apelido de "Careca do INSS". Antônio Carlos Camilo Antunes, o homem por trás do codinome, parece ter descoberto a fórmula mágica para transitar nos carpetes ministeriais: o sobrenome alheio. Mais especificamente, o de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
Não se engane. Não estamos falando de uma simples amizade de churrasco. O que as investigações da Operação Sem Desconto e a CPMI do INSS revelam é um padrão de atuação onde o prestígio é a moeda de troca e o silêncio custa caro — exatamente R$ 300 mil por mês, segundo relatos que fariam qualquer trabalhador brasileiro perder o sono.
O gesto da "mão com quatro dedos" e o cartão de visitas
Imagine uma reunião de diretoria onde, para selar um negócio, não se usa um contrato, mas um gesto. Conforme revelou o jornalista Tácio Lorran, em matéria do portal Metrópoles no dia 3/2/2026, um ex-funcionário do lobista detalhou o modus operandi do chefe. Quando o "Careca" queria mostrar que tinha as costas quentes, ele não precisava gritar. Ele falava no "filho do rapaz" e sinalizava com a mão, escondendo o polegar para simular os quatro dedos do pai famoso.
O simbolismo é forte, mas o impacto financeiro é ainda maior. Lulinha não era apenas um nome jogado ao vento; ele era o "abridor de portas". Mesmo que não houvesse um pedido direto do Palácio do Planalto, a mera presença ou a citação da proximidade com o herdeiro presidencial já era suficiente para que burocratas e parceiros comerciais servissem o café mais forte e assinassem os papéis mais rápidos. É o velho teatro brasiliense: o poder não precisa agir, ele só precisa parecer estar presente.
A mesada de R$ 300 mil e o "sócio oculto"
Se o nome era o cartão de visitas, o pagamento era o combustível. A matéria do Poder360 (referente a 4/2/2026) traz detalhes técnicos que arrepiam o contribuinte. O relator da CPMI, deputado Alfredo Gaspar, fundamentou seu pedido de quebra de sigilo bancário e fiscal de Lulinha com base em repasses suspeitos que totalizam milhões.
A conta é simples, mas a explicação é complexa: a Polícia Federal identificou que o "Careca" enviou R$ 1,5 milhão para a empresa de Roberta Luchsinger, a amiga de Lulinha que servia de ponte entre o lobista e o "núcleo político". O dinheiro saía de uma tal "Brasília Consultoria" — que a PF aponta como empresa de fachada — e caía suavemente nas contas de Roberta. Quando questionado sobre o destino de uma dessas parcelas de R$ 300 mil, o Careca foi direto na mensagem de texto: era para o "filho do rapaz".
Não para por aí. As investigações sugerem que Lulinha seria um "sócio oculto" em empreendimentos de cannabis medicinal (através da World Cannabis) e telemedicina. O plano era ambicioso: usar a influência para abocanhar contratos gordos no Ministério da Saúde. Registros da Lei de Acesso à Informação confirmam que o Careca esteve cinco vezes na pasta, algumas delas acompanhado de Roberta. O "medicamento", ao que tudo indica, tinha um gosto amargo para os cofres públicos.
Primeira classe e malas em Portugal
Para quem ainda acredita em coincidências, os dados de logística são um balde de água fria. De acordo com o jornalista Andre Shalders, do Metrópoles (3/2/2026), Lulinha e o lobista não dividiam apenas interesses, mas também poltronas de primeira classe. Em novembro de 2024, ambos embarcaram de Guarulhos para Lisboa sob o mesmo localizador de passagens. O custo? Algo entre R$ 14 mil e R$ 25 mil por bilhete. Uma pechincha!
Enquanto o brasileiro médio luta para entender o desconto no seu contracheque do INSS, a elite do lobby voava alto. E as entregas eram personalizadas: em dezembro de 2024, a PF rastreou a entrega de um suposto "medicamento" no apartamento de Lulinha em São Paulo, endereçado à sua esposa, Renata Moreira. Lulinha nega tudo, diz que não conhece o lobista e que nunca viu o "Careca" na vida. Uma amnésia seletiva digna de quem frequenta os melhores salões de Brasília.
O abandono da testemunha e o "tiro nas costas"
Nem tudo são brindes com champanhe em Lisboa. O lado obscuro dessa história surge no depoimento de Edson Claro, o ex-funcionário que resolveu abrir o bico. Em nova matéria de Tácio Lorran (3/2/2026), a testemunha-chave faz um desabafo desesperado. Ele afirma que sua vida virou um inferno desde que decidiu colaborar com a PF na Operação Sem Desconto.
Edson relata ter perdido 15 kg e viver sob ameaça de morte. O "Careca" teria sido explícito: "Se você não me entregar os aparelhos e abrir a boca, eu vou meter uma bala na sua cabeça". O lobista queria os celulares e iPads que guardavam os segredos do esquema. Hoje, a testemunha reclama de abandono por parte das autoridades — PF, STF e a própria CPMI. É o destino comum de quem resolve enfrentar a engrenagem: o isolamento e o medo constante de um "tiro nas costas".
A blindagem e o cerco de André Mendonça
O cenário político é de guerra. Nessa quinta-feira, 5/2/2026, a CPMI do INSS decide se quebra ou não os sigilos de Lulinha, da publicitária Danielle Fonteles (que coordenava as operações de maconha em Portugal) e da lobista Roberta Luchsinger. A pressão do governo para blindar o "filho do rapaz" é colossal. Já vimos esse filme em dezembro, quando a base governista conseguiu barrar a convocação de Lulinha.
No entanto, o cerco está se fechando por outro lado. O Ministro do STF, André Mendonça, relator de ações ligadas ao caso, já cobrou a Polícia Federal. O nome de Lulinha apareceu em mensagens, em agendas (com a anotação direta: "Fábio - filho Lula" ao lado de credenciais de camarote) e em relatórios do Coaf. Como ignorar um envelope apreendido pela PF com o nome do "amigo", conforme Roberta Luchsinger alertou o Careca em mensagens interceptadas?
A hora da verdade
O que está em jogo na CPMI do INSS não é apenas uma investigação sobre desvios bilionários na Previdência. É o teste de sanidade das nossas instituições. Se um empresário pode usar o nome do filho do Presidente da República para abrir portas no Ministério da Saúde, negociar mesadas de R$ 300 mil e viajar de primeira classe com dinheiro de origem duvidosa, então o conceito de democracia está sendo reescrito nos porões de Brasília.
O "Careca do INSS" pode até dizer que é vítima de extorsão. Lulinha pode continuar declarando desconhecer o assunto. Mas os fatos, os localizadores de voo, as mensagens de WhatsApp e os depoimentos sob juramento contam uma história bem diferente. O "filho do rapaz" não é apenas um herdeiro; ele se tornou a peça central de um quebra-cabeça que a Polícia Federal começou a montar e que o governo tenta desesperadamente desmontar.
Resta saber se a CPMI terá coragem de olhar para dentro do abismo ou se vai preferir a conveniência da blindagem. Afinal, em Brasília, o medo de quebrar um sigilo é quase sempre o medo do que será encontrado do outro lado da conta bancária. (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 5/2/2026)

