23/06/2026

O fim do Foro de SP: O continente virou a chave – Por Paula Sousa

O fim do Foro de SP: O continente virou a chave – Por Paula Sousa

O tabuleiro político da América Latina está passando por uma reconfiguração histórica. O que antes era um reduto quase intocável do Foro de São Paulo — a organização que por décadas coordenou os partidos de esquerda na região — está desmoronando em um efeito dominó. Para entender como o mapa latino-americano começou a pintar-se de azul, é preciso olhar para os bastidores de Washington, para os cortes cirúrgicos de financiamento externo e para uma hipocrisia escancarada que reinava sob o manto da "defesa da democracia".

 

Durante anos, fomos ensinados que as guinadas políticas na América do Sul eram fenômenos puramente locais. Uma ilusão conveniente. A realidade é que as principais eleições presidenciais do continente nas últimas décadas foram decididas no detalhe, por margens milimétricas. No Brasil, o pleito de 2022 foi definido por uma diferença de apenas 1,8%. Quando o jogo é tão apertado, a questão central deixa de ser se a influência externa pode mudar o resultado, mas sim quantos votos precisam ser influenciados para mover a agulha. E a resposta é: muito menos do que a maioria imagina.

 

O grande ponto de virada dessa engrenagem ocorreu em janeiro de 2025, com o retorno de Donald Trump à Casa Branca. Em seu primeiro mandato, o líder republicano focou excessivamente na fronteira física com o México e na construção de um muro. Contudo, após enfrentar os impactos da pandemia e a subsequente derrota eleitoral para Joe Biden, a estratégia mudou de escala. Trump compreendeu que o problema do narcotráfico, da imigração em massa e do avanço ideológico era transnacional, e mirou diretamente na raiz financeira da esquerda latino-americana.

 

A primeira grande peça a cair foi a USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional). Longamente vista como um braço de engenharia social progressista alinhado ao Partido Democrata, a agência teve suas torneiras fechadas de forma drástica. Conforme noticiado pela CNN em 10 de março de 2025, sob a manchete “Governo Trump cancelou mais de 80% dos programas da USAID, diz Rubio”, a asfixia financeira foi quase total. Bilhões de dólares que antes irrigavam ONGs, coletivos, programas de combate à "desinformação" e projetos de aparelhamento institucional sumiram do mapa.

 

A correlação entre o corte da verba e o enfraquecimento da esquerda foi imediata. Sem os recursos externos para moldar o debate público e blindar candidaturas, o castelo de cartas começou a ruir. Essa dinâmica de interferência mútua não era segredo nos bastidores. Em 6 de agosto de 2025, a própria Câmara dos Deputados no Brasil registrou esse debate com a notícia: “Mike Benz reitera denúncias de interferência dos EUA nas eleições do Brasil”. Benz, que atuou no Departamento de Estado americano, detalhou como agências estrangeiras moldavam os ecossistemas digitais e políticos locais para favorecer determinados espectros ideológicos.

 

É aqui que a hipocrisia da esquerda e de seus aliados institucionais atinge níveis quase teatrais. Quando há suspeitas de apoio externo a candidatos de direita, brada-se imediatamente sobre a soberania nacional. Porém, se a interferência estrangeira beneficia a esquerda, ela recebe o carimbo de "cooperação democrática". O ápice dessa contradição foi exposto pelo jornal Valor Econômico em 11 de novembro de 2025, com a reveladora manchete: “Presidente do STF pediu apoio aos EUA para evitar golpe de Estado nas eleições de 2022”.

 

O texto detalha que o ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso, declarou publicamente ter buscado apoio internacional junto a autoridades americanas antes do pleito de 2022. Meses depois, em julho de 2023, o mesmo magistrado soltou a célebre frase em um evento da UNE, amplamente replicada pela CNN: “Nós derrotamos o bolsonarismo”. O duplo padrão é evidente: buscar respaldo estrangeiro para influenciar o xadrez político local é aceitável, desde que o resultado final seja a derrota da direita.

 

A perda dessa blindagem financeira e institucional da era Biden deixou a esquerda desprotegida em todo o continente. O resultado? Uma sequência avassaladora de derrotas. A Argentina abriu o caminho com Javier Milei; o Equador seguiu com Daniel Noboa; o Paraguai consolidou-se com Santiago Peña, e a Bolívia viu a ascensão de Rodrigo Paz. Mais recentemente, José Antonio Kast venceu no Chile e Keiko Fujimori passou a liderar as intenções de voto no Peru.

 

O golpe de misericórdia no coração do Foro de São Paulo ocorreu na Colômbia. Em uma disputa acirrada, Abelardo de La Espriella, apelidado de "O Tigre", venceu as eleições presidenciais, impondo uma derrota categórica ao projeto de Gustavo Petro. Demonstrando o tradicional apreço da esquerda pelas regras democráticas apenas quando saem vitoriosos, Petro reagiu à derrota questionando o próprio sistema. A revista Veja registrou o fato: “Eleição na Colômbia: Petro questiona contagem de votos e não reconhece vitória de opositor”.

 

A queda de Petro e a vitória de Espriella desarticulam um plano audacioso que unia a Colômbia ao governo brasileiro. Pouco antes, em setembro de 2025, o portal Poder 360 estampava a manchete: “Petro defende, ao lado de Lula, legalizar cocaína na América Latina”. O argumento do presidente colombiano era o de que a legalização protegeria a Amazônia. Com a saída de Petro, racha a aliança que pretendia dar salvo-conduto econômico e jurídico para as estruturas que abastecem o crime organizado transnacional, como o PCC e o Comando Vermelho, cujas ramificações frequentemente se entrelaçam com a política regional.

 

Essa derrocada continental não ocorre no vácuo, mas faz parte de um redesenho geopolítico global maior. O mundo hoje se divide visivelmente em dois blocos de poder. De um lado, o grupo que defende as liberdades econômicas e a soberania ocidental; de outro, um bloco composto por Rússia, China, Irã e seus satélites na América Latina, outrora protegidos pela influência russa.

 

Esse cenário de realinhamento de forças já havia sido antecipado há uma década pelo professor Olavo de Carvalho. Em 2016, ele previu que Donald Trump e Vladimir Putin iriam restaurar a bipolaridade global, esvaziando o poder da União Europeia e partilhando zonas de influência para reestabelecer uma nova ordem prática.

 

A confirmação dessa tese ganhou contornos nítidos após o histórico encontro entre Trump e Putin em 10 de agosto de 2025, no Alasca. Enfraquecido economicamente pelas sanções e pelo desgaste da guerra na Ucrânia, Putin viu-se forçado a negociar termos de estabilização global com Washington. Nesse grande tabuleiro de xadrez, os regimes da América Latina — como os de Nicolás Maduro na Venezuela, Daniel Ortega na Nicarágua, Evo Morales na Bolívia e o governo de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil — deixaram de ser peões protegidos por Moscou para virarem moedas de troca.

 

O cerco econômico e político está se fechando. Com a prisão de Maduro, o enfraquecimento do apoio russo e o corte drástico dos recursos da USAID que alimentavam a máquina cultural e jurídica de esquerda, o Brasil encontra-se isolado no olho do furacão. As investigações sobre cartéis de narcoterrorismo avançam, e o financiamento de programas que sustentavam ditaduras vizinhas — como o envio de recursos para Cuba via programas de saúde — perdeu sustentação política.

 

A América Latina está, país por país, fechando o chamado Escudo das Américas. A engrenagem que sustentava o Foro de São Paulo foi exposta e desidratada. O continente, que por décadas flertou com o atraso ideológico sob as bênçãos de agências internacionais complacentes, finalmente começa a virar a página.

 

O próximo grande encontro com as urnas ocorrerá no Brasil, palco desenhado para consolidar de vez essa faxina continental. Com o tabuleiro esvaziado e sem as muletas financeiras de outrora, Luiz Inácio Lula da Silva restou como o último peão isolado de um Foro de São Paulo em ruínas — deixando o eleitorado brasileiro diante da oportunidade exata de replicar a coragem de seus vizinhos e fechar, em definitivo, as portas para o atraso ideológico (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 23/6/2026)