O império das togas: Quem julga os donos do Brasil? – Por Paula Sousa
Os onze integrantes do Supremo Tribunal Federal. Foto Antonio Augusto-STF
Em meio a uma mistura de cansaço e espanto, o Brasil testemunha o que a jornalista Malu Gaspar, na rádio CBN, classificou com precisão cirúrgica: um verdadeiro 'show de cinismo'.
Na última sessão do Supremo Tribunal Federal, os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli decidiram que a melhor defesa contra denúncias gravíssimas de conflito de interesses é o ataque à inteligência do cidadão comum. Segundo eles, o problema não são os contratos milionários ou os resorts de luxo, mas sim o fato de que a sociedade — essa gente "desonesta" que insiste em ler a Constituição — quer que os juízes vivam em uma bolha, quase como eremitas sem direito a dividendos de fazendas.
O mais curioso é que esse cenário de "vale-tudo" não surgiu do nada. O monstro que hoje devora a ética pública foi alimentado, com garfo e faca, por setores da imprensa e do próprio Judiciário que decidiram, anos atrás, que os fins justificavam os meios. Tudo começou a degringolar em 2019, quando o ministro Dias Toffoli instaurou o famigerado Inquérito das Fake News. O estopim foi uma reportagem da revista Crusoé que mencionava o "amigo do amigo de meu pai". Naquela época, a "limpeza" ideológica serviu de justificativa para atropelar o devido processo legal. Criou-se um tribunal de exceção onde o juiz é, simultaneamente, vítima, investigador e acusador. A mídia, que hoje ensaia um ar de indignação, na época aplaudiu de pé, enquanto o direito de defesa era fatiado em nome da "democracia".
A blindagem de ouro e o plano de retorno
Essa autoblindagem foi a virada de chave para o que viria a seguir: o desmonte sistemático da maior operação de combate à corrupção da história. Com uma canetada aqui e um malabarismo jurídico ali, o Supremo deu início ao fim da Lava Jato, anulando condenações de dezenas de envolvidos em escândalos bilionários. O ápice desse processo foi a "descondenação" de Lula. O tribunal não apenas anulou todo processo que levou à prisão o atual presidente, mas pavimentou o caminho para que ele retornasse ao jogo político.
O que vimos em 2022 foi um processo eleitoral sob um viés escancarado. Enquanto a direita sofria uma perseguição implacável — marcada por censuras prévias, desmonetização de canais e uma repressão coordenada entre a militância política e as redações — o TSE e o STF agiam como fiadores exclusivos da candidatura da 'democracia'. O fiel da balança não buscou o equilíbrio; pendeu, com força e intenção, para assegurar que Lula retomasse o caminho até a cadeira presidencial. A militância de redação, que agora se faz de desentendida diante das revelações de Malu Gaspar, foi a mesma que chancelou cada arbítrio cometido sob o pretexto de combater o "mal maior".
Transparência vs. o grande silêncio
Malu Gaspar foi corajosa ao expor a ferida que muitos preferem ignorar. Enquanto Moraes e Toffoli fazem contorcionismo verbal para dizer que juiz tem direito a ser acionista ou fazendeiro — algo que, como Malu bem pontuou, ninguém está discutindo —, o que realmente queima no debate é o dever constitucional de transparência.
Hoje, quando se questiona o STF sobre quem paga as palestras em hotéis cinco estrelas na Europa ou quem banca os jatinhos privados, a resposta da Corte é um "grande silêncio". É o desprezo absoluto pelo fato de que, por mais poderosos que se sintam, os ministros ainda são servidores públicos. O cinismo atinge o ápice quando Moraes afirma que é "ridículo" impedir um juiz de julgar um banco do qual é acionista. Ora, se o magistrado tem lucro direto com a valorização de uma empresa, sua imparcialidade já foi enterrada na primeira linha do balanço contábil.
O caso Banco Master: Números que não batem
O ponto mais sensível da análise recai sobre as relações financeiras que orbitam o Banco Master. Segundo informações veiculadas pelo jornal O Globo e reforçadas por Malu Gaspar, o escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes teria um contrato de R$ 129 milhões com o banco. Mais intrigante ainda: o rendimento mensal seria de cerca de R$ 3,6 milhões.
Como bem notou a jornalista, nem ela nem sua equipe conseguiram encontrar rastro do serviço prestado que justificasse tamanha cifra, uma montanha de dinheiro que faz inveja aos maiores escritórios de advocacia do planeta. Mais do que isso, há o incômodo fato de Moraes ter procurado o presidente do Banco Central para tratar de problemas do banco. Quando a imprensa pergunta "por que?", a resposta oficial é acusar os jornalistas de criar "narrativas". É a tática de quem aprendeu com a velha política: se os fatos são ruins, mude o assunto e ataque o mensageiro.
De resorts a fazendas: O Judiciário S/A
Enquanto isso, o ministro Dias Toffoli reclama das restrições aos magistrados alegando que muitos são "fazendeiros" e herdeiros. O foco aqui, no entanto, é o resort de luxo mencionado pelo portal Metrópoles. Investigações apontam uma conexão indireta entre o ministro e o Banco Master por meio de um fundo que teria comprado participação em um empreendimento de sua família.
Funcionários do local, em relatos colhidos pela imprensa, tratam o ministro como o "verdadeiro dono". Mas, no plenário do STF, o discurso é de que os ministros estão sendo "cerceados". Enquanto o país lida com um rombo bilionário no sistema financeiro — uma das maiores fraudes bancárias da história —, os julgadores desses casos parecem estar confortavelmente instalados em relações de negócios com os próprios investigados.
A institucionalização do conflito de interesses
O STF, por 7 votos a 4, liberou que juízes julguem casos de escritórios onde seus parentes trabalham, desde que o nome do cônjuge ou filho não esteja assinado na petição. É o puro suco da autoblindagem. Se a esposa de um ministro é sócia de um escritório que fatura milhões com uma causa, ele pode julgar o caso sem peso na consciência, contanto que ela não tenha assinado o papel.
Aqueles que aplaudiram o inquérito das fake news em 2019 porque ele atingia a direita e os conservadores, hoje assistem “atônitos” à perseguição contra jornalistas profissionais que apenas fazem perguntas básicas sobre extratos bancários. Malu Gaspar agora corre o risco real de ser a próxima vítima dessa engrenagem, já que ousou desafiar a aristocracia socialista de toga. Ela escancara que o Supremo ignora a opinião pública, cria leis próprias e vira as costas para qualquer padrão moral de conduta.
Conclusão: “Quis custodiet ipsos custodes?”
A pergunta do poeta romano Juvenal, escrita no século II, nunca foi tão atual: quem fiscaliza os próprios fiscais? Em uma República funcional, a resposta estaria na ponta da língua e na letra da lei: o Senado Federal. A Constituição é cristalina ao atribuir aos senadores o dever de frear os excessos do Supremo, mas o que testemunhamos é uma omissão que beira a cumplicidade. Ao se apequenar e fugir de sua responsabilidade, o Senado permite que o Brasil mergulhe em um abismo moral que parece não ter fim.
Sempre que acreditamos ter atingido o fundo do poço, somos surpreendidos por sessões plenárias onde o cinismo é a regra, o óbvio é negado com desdém e conflitos de interesses escancarados são camuflados sob o manto da "liberdade de cátedra". É um espetáculo de sombras onde a ética é sacrificada no altar da conveniência.
Diferente do que pregam os detentores da toga, criticar tais posturas não é um ataque à democracia — é, na verdade, uma tentativa desesperada de salvá-la daqueles que a sequestraram para usá-la como escudo de contratos milionários e relações nebulosas. Se exigir transparência é lido como "atentado", então o conceito de República já não existe mais. Deixamos de ser cidadãos para nos tornarmos súditos de uma casta que não presta contas à nação, mas mantém uma fidelidade canina aos seus próprios negócios, aos jatinhos de amigos empresários e à manutenção de um poder absoluto e inquestionável (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 6/2/2026)

