10/08/2026

O milagre de Jaques Wagner – Editorial O Estado de S.Paulo

O milagre de Jaques Wagner – Editorial O Estado de S.Paulo

Aliado histórico de Lula, Jaques Wagner está no centro das investigações da nova fase da Operação Compliance Zero. Foto Paula Froes AI Jaques Wagner

 Lula e Jaques Wagner  Foto Paula Froes AI Jaques Wagner

Explicação para a evolução de 631% do patrimônio do senador petista está no terreno da fé.

 

Há milagres que a fé explica. Mas há outros que clamam por uma investigação mais mundana. A evolução patrimonial do senador Jaques Wagner (PT-BA), ex-líder do governo no Senado, é um desses casos que devem ser analisados sob as leis da Terra. Em apenas oito anos, o sr. Wagner mais que sextuplicou seu patrimônio. De acordo com as declarações prestadas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o senador baiano tinha R$ 3,3 milhões em bens em 2018. Agora, às vésperas de disputar a reeleição, ele informou ao TSE ter R$ 24,5 milhões – um crescimento de impressionantes 631%.

 

Reconheçamos de antemão que o sr. Wagner não é o único político a registrar aumento substancial de patrimônio entre as duas últimas eleições gerais – 2018 e 2022 – e a deste ano. Mas seu caso é digno de nota porque não há notícia de que ele tenha exercido outra atividade remunerada no período além do exercício do mandato parlamentar, pelo qual recebe R$ 46.366,19 mensais. Sem dúvida, é um salário generoso, mas insuficiente para justificar um salto patrimonial dessa magnitude.

 

A explicação oficial do senador baseia-se na venda de um terreno em Camaçari, vizinho, por mera coincidência, ao centro de treinamento que o Bahia Esporte Clube lá construiu – negociado por R$ 13,8 milhões com a SAF do próprio clube e com uma incorporadora. Em 2018, esse mesmo lote valia, na declaração de bens do sr. Wagner, R$ 28 mil. Que o terreno valorize é normal. Que valorize 49.185% em oito anos é um milagre que desafia até o Dicastério para as Causas dos Santos. Tanto é assim que, procurado pelo Estadão, o senador preferiu não se manifestar.

 

Some-se àquele negócio a venda, ao prefeito de Conceição do Coité, de um apartamento na Vitória, bairro nobre de Salvador, por R$ 10 milhões – seis vezes o valor do mesmo bem declarado ao TSE. Isso sem falar nos dólares e euros encontrados em endereços do senador durante uma recente operação da Polícia Federal (PF), que ele alega ser dinheiro de “diárias de viagem” não usado – por que não devolveu aos cofres públicos, é outro mistério. A PF apura se o senador baiano recebeu propina de um ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master para favorecer interesses do empresário no Senado.

 

A biografia de Wagner publicada no site do PT registra que o senador foi um sindicalista fundador do partido na Bahia, governador do Estado por dois mandatos e ministro em governos petistas, até ser eleito senador em 2018. Ou seja, é uma vida dedicada à política, um currículo que torna a riqueza do senador intrigante, para dizer o mínimo. Wagner nunca teve, fora da política, outra fonte de renda conhecida. Logo, se multiplicou o patrimônio em proporção que humilha alguns dos melhores fundos de investimento do País, foi na política que o fez.

 

O bloqueio de bens determinado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça e a suspensão da transferência do terreno em Camaçari pelo cartório responsável sugerem que há indícios de enriquecimento ilícito. Cabe unicamente a Jaques Wagner explicar como seu patrimônio se multiplicou por seis em tão pouco tempo. Enquanto essa explicação não vem, resta ao eleitor baiano decidir se acredita nesse tipo de milagre (Estadão, 9/8/26)